Grupo de pacientes de cirurgia cardíaca: relato de experiência.

A R T I G O D E A T U A L I ZAÇÃO

G R UPO D E PAC I E NT ES DE C I R U R G I A CAR D fACA
- R E LATO D E E X PE R I E NC I A E l isa H el ena K u h n 1 , M a ri a H en r i q u eta Lu ce K ru se 2 ,
Patr (c i a Pere i ra R usc h e l 3 , Them is S i lvei ra D ove ra 4

KUHN, E. H. et alii . Grupo de p acientes de cirurgia ard íaca
- relato de experiência. R v. Bras. Enf , Brasília, 39
( 2 / 3 ) : 7 6- 8 0 , abr./set ., 1 9 86 .

R ESUMO. N este traba l ho re l ata ·se u m a experiência de g r u p o c o m pac ientes de c i ru rg i a
card {ac a . A at iv i d ade rea l iza-se n o I N ST I TU TO D E CA R D I O LO G I A D O R I O G R A N D E
D O S U L e te m por objet ivo p ro p orc i o n ar aos pac ientes a oport u n idade de verba l iz arem
suas ans ied ades e conversarem sob re suas ex per iências rel acio nadas com a c i ru rg i a e anes­
tesi a . Os g rupos re ú n e m-e duas vezes por semana se ndo co nst itu (dos por pac ientes ad u l­
tos em p ré e pós-ope ratór i o i m ed iato . A equ i pe de saúde é co m posta po r enfermei ro s, psi ­
có logo , a nestesi sta, card i o log istas e fisioterapeutas e s u a atu ação é no sent ido de aux i l i a r
na compreensão dos proced ime ntos a o s q u a i s o paciente v a i s e submete r, d esfazendo f a n ­
tasias d istorcidas da rea l idade .
ABST R ACT. I n th is wor k , a g roup experie nce with pat ients of card iac su rge ry is reported .
The act iv ity is accom p l ished at " I nst ituto de Ca rd io logia do R io G rande do Su l ", and it
a i m s to offe r the patients the opport u n ity to verba l i ze thei r an xiet ies and ta l k about the i r
ex pe riences re l ated t o the s u rgery and anest h es i a . The groups m eet twice a wee k and they
a re formed by ad u lt patients in pre - o r pos - cond itio n s of i m med i ate s u rgery . The
med icai staff i s m ade up of n u rses, psyco logists, anesthet i sts, card io log i sts and p l y s i othe ­
rap ists and they act in a se n e of h e l p i n g in the u nderstand ing of the p roced u res to w h ich
the pat ie nts w i l l be s u b m itted , u n d o i n g fanta sies d istorted from rea l ity .

I NTRODU ÇÃO

O cuidado de pacientes de ciurgia cardíaca per­
mite obevar que os fatores emocionais têm um im­
portante papel na recuperação pósoeratória . DUAR­
TE2 considera signiicativo o papel s emoções co­
mo agente etiolóico de complicações pós-operató­
rias , especialmente qundo se trata de ciurgia cardía­
ca. O mesmo autor chama a atenção de que "em nos­
so meio nenhum paciente que necessite ciruria c ar­
díaca é beneiciado com qualquer proce dmento sis­
temático que vise a prevenir o aparecimento de com­
plicações psíquics no pós-ope ratório" . Na tentat iva
de preencher esta lacuna e compreendendo a inluên­
cia que tem s emoções dos pacientes na recuperação
pós-operatória, um grupo de proissionais de saúde do
Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul , cons­
titu ído por psicólogo , enfe rmeiros , nestesista , car­
diologistas e isioterapeutas , decidiu criar um rupo

de p acientes de pé e 'pósope ratório de cirurgia car­
díaca, partindo do pressuposto que :
- O conhecimento de dados rel ativos à cirur­
gia toma o paciente mais apto a enfrentá-la, talvez
por tomá-la menos fantasiosa e portanto menos mea­
çadora (WA TZBERG & HOJ AIJ 1 5 ) ,
- a reunião de grupos de indiv íduos que vão en­
frentar situações que hes produzem medo é muito
benéica pois os mesmos sentem aue não estão sós
nesta diiculdade (GRUENDMANN ) ;
- a troca d e idéis e ajuda mútua pe rmite que
os p acientes se adaptem mis facilmente a situações
estressantes e sejam capazes de se expressar sobre suas
diiculdades (G RUENDMANN4 ).
Assim sendo , este trabalho tem por objetivos :
1 - Relatar uma expe riência d e e quipe multidisci­
plinar com grupos de pacientes de ciurgia car­
díaca.

1 . Enfermeria de Unidade do Instituto de Cardiologia d o Rio Gande d o Sul.
2. Professor Adjunto a Escola de Enfermagem a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Consultora de Enfermagem do
Instituto de Cardiologia do Rio Grnde do Sul.
3. Psicóloga do I nstituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul.
4. Efermeira de Unidade do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul. Professora horista da Escola de Enfermagem a
Universidade Fedeal do Rio Grande do Sul.
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R v. Bras. Enf , Braslla, 39 (213), abr. /io/iun . liul. /go. /set. 1 986

2 - Divulgar este trabalho para que o mesmo seja
estendido a outros pacientes .
3 - Estimular o trabalho com grupos de pacientes
por sua c aracterística de envolver menor núme­
ro de técnicos atingindo mior número de pa­
cientes.
4 - Contribuir para o estudo das emoções dos pa­
cientes em pré e pós-operatório .
R EV I SÃO DA L I T E R ATU R A

A relação entre emoções e recuperação pós­
operatória j á é bem conhecida e descrita na literatura
(CHRISTOPHERSON & PFEIFFER 1 ; DUARTE 2 ;
FRAVLINI 3 ; MEYER & LATZ 6 ; VARGAS et alii 1 3 ).
Segundo PHIPPEN8 "ansie dade é uma emoção
que surge com a ameaça da integridade do meu eu"
sendo que a expe riência de nsie dade no pós-operató­
rio é uma combinação de três formas de peigo : a pos­
sibilidade de ter dor, sofrer um dano físico e de mor­
rer . Esta ansie dade é considerada norm l , não neuró­
tica e pe mite que a pessoa a mneje e utilize como
forma de solucionar um problema.
DUARTE2 , re fe rindo-se à quse completa au­
sência de bibliograia em português sobre complica­
ções clínicas e psi quiátricas nos pacientes de ciurgia
cardíaca, considera que a mesma é a " menos bem to­
lerada psicologicamente pelos pacientes" .
ROY l O coloca que na "eiciência de um prepa­
ro emocional :o paciente para cirurgia interfertm ba­
sicamente as condições pessoais e a capacidade de to­
lerar estresse " . A assistência psicolóica ao paciente
aumenta sua tolerncia à dor e cooperação, muitas ve ­
zes apessando a alta devido à recuperação mis rápi­
da.
VARGAS I 3 , 1 4 , com o e studo sob re os aspec­
tos psicológicos que inluencim no pré e pósopera­
tório de cirurgia cardíaca, procurou avaliar a impor­
tância do apoio psicolóico naqueles pacientes . Utili­
zando um grupo experimental e outro controle mos­
tra conclusivamente melhor evolução clínica nos pa­
cientes que tive ram apoio psicológico integral . Este
contato, quando pe rmite uma comunicação espontâ­
nea e natural , contribui para a re dução da nsie dade ;
conclui que existe um estreito relacionamento entre o
psíquico e o somático do paciente cardíaco. O mesmo
autor refere que uma das mneiras do ser humno
mnte r o controle sobre o mundo é através do conhe ­
cimento, re forçando a importância da informação do
paciente crdíaco que , em geral , não tem conheci­
mentos reais e precisos de sua doença, que acomete
um órgão místico como o coração .
W AITZBERG & HOJ AIJ 1 5 , na investigação so­
bre a mneira pela qul a informação alivi ai a a nsie­
dade do paciente , supõe que o cohecimento de da­
dos relativos à cirurgia contribui para que ele esteja
mis apto a enfrentar uma situação estressnte , tal­
vez por tomá-la menos fantasiosa e portanto menos
ameaçadora.
Vários autores, mnifestaram-e qunto à ma­
neira de oientar os pacientes . Assim , WAITZ BERG
& HOI AIJ 1 5 dizem que nformções esec íics sob re
as sensações a serem e speradas são as mais úteis em di­
minuir a ansiedade , provave lmente por traze rem as ex­
pectativas do paciente a um n ível mis re l e que n-

tes de forne cer qualquer informação deve -se ouvir o
paciente , seus temoes, suas fntasias e observar como
ele lida com o estresse . Refe rindo-se ao momento
mis prop ício para o preparo psicológico cita os dois
dis que antece dem à cirurgia. MEYER e LATZ 6 tam­
bém referem que para obter um ótimo resultado na
orientação é fundamental conhe cer o que o paciente
deseja saber.
SCHRANKE 0 2 , referndo-se à orientação pré ­
operatória, diz que um dos seus objetivos é " promo­
ver a p articipação do paciente , na medida de suas pos­
siblidade s , no cuidado pósope ratório" . Qunto às
formas de orientação refere os trabalhos individuais ,
e m grupo e os manuais impressos fonecidos aos pa­
cientes no momento da inte nação . O autor reforça
que a o rientação não deve ser feita por uma ou duas
enfe rmeiras e sim por todo o grupo que aten de o pa­
ciente, sendo importante um progrma formal e estru­
turado de o rientação pré-operatória.
Qunto à importância da troca de experiências
entre os pacientes que vão submeter-se à cirurgia ,
LEDERER5 diz que o paciente pode sentir-se menos
sozinho quando vê e fala com outros indiv íduos que
também estão e sclados para cirurgia. RAKOCZY9 ,
discorendo sobre as vivências hospital ares no perío ­
d o anterior à cirugia, refe re -se a pacientes que procu­
ravm no préoperatório um paciente exoperado bem
sucedido para conversar .
GRUENDMANN4 , relatando sua expe riência
com reuniões de pacientes em préope ratório , enfati­
za a importância do suporte do grupo . Refere que o
mesmo tem vantagens sobre a orientação individual
pois os paciente s no grupo sentem que não estão sós e
através da troca de idéias e ajuda mútua se adaptam
mis facilmente e são capaze s de se expressar sobre
seu diagnóstico e cirurgia , obtendo apoio dos outros
pacientes e. técnicos . A mesma autora diz que indiv í­
duos que vão enfrentar eventos que lhes produzem
medo têm tendência a agruparem -se .
DESE N V O LV I M E NTO

A idéia de fazer um grupo operativo com os pa­
cientes que iriam se submeter à cirurgia cardíaca sur­
giu em meados de 1 9 84 . O Instituto de Cardiologia
do Rio Grnde do Sul é mntido pela Fundação Ui ­
versitária de Cardiologia em convênio com a Secreta­
ria de Saú de e Meio Ambiente do RS. É um hospital
especilizado no atendimento de criançs e adultos
portadores de cardiopatis . Tem capacidade de inter­
nação de 1 00 leitos sendo aproximadamente 50%
de cirurgia c ardíaca.
Em 1 9 8 1 , NESRALLA et lii 7 realizarm uma
esquisa com o objetivo de avaliar os efeitos tardios
da cirurgia cardíaca com hipote mia profunda . Para
este estudo , os pacientes form testados nas áre as : in­
teligência e psicomotricidade , permitindo determinar
quais os limites de tempo de parada circulatória e de
baixo luxo , sem produzir alte rações nestas áre as . No
contato com estes pacientes , detectou-se haver um
comprometimento emocional signiicativo e diicul ­
dade para superarem a situação cirúrgica. Diante desta
constatação, foi p roposto o acompanhmento e orien­
tação das crinçs e seus pais visndo prepará-los , do
ponto de vista emocionl , para cirurgia . Esta atividade

Rv. Bras. Ell., Bras la, 39 (213), abr. loioljuI. lu L lago· lset. 1 986

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tem por objetivo minimizar os traumas que posam
surir em função da inte rvenção cirúrgica. O trabalho
vem endo elizado desde novembro de 1 9 8 1 , era
importante que também os adultos fossem beneicia­
dos por uma atividade voltada para o atendimento de
suas necessidades . Assim , um grupo de proissionais
da área da saúde , composto por enfe rmeirs , psicólo­
ga, isioterapeuts , anestesista e cardioloistas , reuniu­
e com o objetivo de defmir um p rograma de orienta­
ção de pacientes de cirurgia cardíaca para adultos .
Várias lternativas foram estudadas , tais como
orientação formal em grupo com aulas expositivas ,
visitas a dependências da instituição , trabalho em gru­
po , onde os paciente s pudessem conversar entre si ,
trocando experiências , juntamente com familiares .
Para escolhe r a altemativa mais adequada à ne ­
cessidade dos pacientes e da instituição , recorremos
à consulta bibliográica, grupos de discussão e consul­
ta a proissionais intee ssados em grupos de pacien ­
tes . Ao fmal desta fase , optou-se por organizar um
grupo de pacientes de pré-operatório , internados ou
não e pacientes de pós-operatório inten ados , reuni­
dos com elementos da e quipe de saúde . Os objetivos
deinidos para esta atividade foram :
• Proporcionar aos pacientes a oportunidade
de verbalizarem sus ansie dades e necessida­
des.

Permitir que conversem sobre :xperiências
relacion adas com a cirurgia e nestesia cor­
rigin do idéias distorcidas da realidade .

Desenvolver a capacidade de ajuda mútua en­
tre os paciente s .

Apresentar a e quipe d e saúde , auxilindo-os
a compreender seu papel e suas responsabili­
dades .
Esta atividade foi divulgada entre os proissio ­
nis de saúde que atuam na instituição , através de car­
tas , cartazes e not ícia no jornl do Instituto de Car­
diologia . Os paciente s são convidados através de c ar­
tzes, carta no momento da marcação da cirurgia e
convites dos técnicos para os internados no hospital .
Asim , os pacientes inda não admitidos à instituição
tamém se beneicim , participndo dos grupos e fa­
miliarizando-se com o hospital .
As reuniões com os pacientes foram niciadas
no fml do mês e março de 19 8 5 , após seis meses de
preparo e iscussão do grupo mltiproissional. Os
grupos se reúnem duas vezes por semna durante qua­
renta e cnco minutos .
N o início das reuniões , cada participante apre ­
senta-se ao grupo e são explicados os objetivos do tra­
blho . A seguir, os pacientes são estimulados a verba­
lizarem suas dúvidas e experiências em relação à cirur­
gia. Freqüentemente , os pacientes já operados relatam
sua vivência nas Salas de Cirurgia e recuperação pós­
nestésica . A atuação dos técnicos é no sentido de
que os próprios paciente s esclareçam s dúvida uns
dos outros sendo que os mesmos só interfe rem na­
queles pontos que não icaram claros ou qundo há
distorções da relidade . Qundo necessário , procura­
se clarear os sentmentos verbalizados pelo grupo , vi­
s ndo liviar sus ansie dade s .
A seguir , serão citados o s assuntos que têm sido
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discutidos pelos pacientes , eparndo-os em itens para
melhor compreensão :
enado préopea tório
Ansie dade causaa
pela espera da cirurgia , nsiedade sentida ntes da de ­
cisão de subm�ter-se à cirurgia, doação de sngue
(procedimento e cuidados), lívio de encontrar pes­
soas que já passarm pela cirurgia, diiculdade em fa­
lar nos sentimentos que a intervenção causa, por
exemplo , "A palavra medo não existe no dicionário
de quem faz cirurgia cardíaca" . Os pacientes se refe ­
rem com fre qência à importância da participação do
paciente e "do pensamento positivo" , para uma boa
recuperação pós operatória e , de m modo geral , ten­
dem a minimizar as ansie dades uns dos outros , trans­
parecendo a dificuldade de aceitála . Esta constatação
está de acordo com ' a opinião e WAITZBERG 1 5
quando dz que "inadvertidamente o paciente pode
minimizar sua ansiedade se , em sua opinião , a nsie ­
dade não for um sentimento socialmente aprovado" .
A nestesia
Como é o processo da anestesia,
medo da anestesia "não pegar" e temperatura do cor­
po durante e ste procedimento .
Intervenção cúgica
Medo d e parada cardía­
ca, choque ao ver a incisão cirúrgica de outros pacien­
tes , duração , risco do coração não voltar a bater , tipo
de veia utilizada (em cirurgias de pontos de safena),
po sibilidade do rompimento das pontes , medo de
morrer e deixar ilhos pequenos, re ceio de que o co­
ração seja retirado do corpo durante a cirurgia.
Permanência a ala d e recuperação
Descon­
forto com luz nos olhos , confusão mental , depressão ,
ede , legria de acordar e estar vivo , import ância de
ter sempre lguém ao lado (pessoal de enfermagem),
medo de acordar só , comunicação com o tubo endo ­
traquel , me do de não conseguir falar após a retirada ,
reclamações qunto a cama e colchão , dor , temo de
pemanência na Sala de e cuperação, tempo de per­
manência e retirada do dreno, fmlidade das sondas
nasogástricas e vesicais e hipertemia .
Penado até a alta hospitaar
Qundo poderá
comer e evacuar, muita emotividade , tempo que leva­
rá para fazer a barba, meicações utilizadas . Sentem a
importância de voltar às reuniões para mostrarem seus
sucessos.
Via após a alta hospitalar
Possiblidade de
viajar após lta , limitação física, medicação, se pode­
rão voltar a trabahar no pesado , ançar, beber , ter
relações sexuais , atividades que poderão desenvolver
e medo de tonarem-se nválidos . Sugestões de que
seja criado o "Clube dos Safenados" com o objetivo
de se encontrarem após alta e terem um maior acom­
panhment o .
Fisio terapa
Objetivo , mportância d a tosse ,
elação com o cigarro, motivo do aumento da secre ­
ção , expectoração e sentimento e maus tratos .
Vejamos o relato de uma reunião com o gupo
de pcientes para deixar mis claro a foma que mne ­
jamos com suas dúvidas e nie dade s .
Estavam presentes 1 1 pacientes (5 em período
préoperatório e 6 em pósoperatório) e 4 técnicos
(enfe rmeira, isioterapeuta, nestesista e psicóloga).
Inicia-se a e ssão com o paciente "A" falando
que sentiu muita dor na sla de recuperação e que sua
estada lá foi muito rum .

Rv. Bras. Enl, Brs ma, 39 (213), abr.lmaioliun . liul. lago. lset. 1 986

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"B" passa a flar que a dor não é tanta assim ,
sentiu incômodos sim , ms perfe itamente suportáveis .
"C " não entiu nada , "o essoal t rata a gente
muito bem" .
"D" "o pior é a dor nas costas , a cirurgia não
incomodou. A cama é est reita" .
É escl arecido que , durnte a cirurgia, são afasta­
das as costelas que depois são reaproximadas ; além do
mais , a posição na mesa de ciruria não é confortáve l
o que causa dor nas costas .
As cams da recuperação são mais estreitas e as
pessoas grandes sentem mis , como é o caso do paci­
ente citado .
Alguns contam ter sentido muita dor e outros
não , o que mostra que a sensiblidade à dor pode va­
riar conforme a pessoa. " C" diz que a sentiu quando
saiu da Sala de re cuperação, pois "lá não sentia nada .
Depois começarm as dores nas costas , minha pena
também tem incomodado" (mostrou a cicatriz de sua
e rna). A enfe rmeira explicou ao paciente que ele te ­
ve um a complicação pó soperatória e que não é o ue
ocorre nomlmente .
"E" refere alívio ao saber que outros pacientes
tamém sentiram dor .
Sugere -se que o paciente conte sua experiência .
"E" fez um relato desde o início de sua doença,
colocando que a tem deixado muito nervosa.
"C" conta que , quando acordou , não podia fa­
lar por estar com o tubo, pediu papel e lápis através
e sinais , escreveu que a luz a incomodava e estava
com sede . Foi diminuída a luminosidade e lhe molha­
rm os lábios com uma gase .
Investigamos se sabiam que tubo e ra esse . Como
alguns pacientes mostraram-se em dúvida , solicitamos
que um dos que já haviam passado pela experiência
explicsse aos outros que ainda não tinham conheci­
mento do ssunto .
"B" explica que é um tubo que colocam na bo­
ca e vai pela garganta .
"A " comenta: "enchem a gente de ios e tubos" .
Vários pacientes mnifestam -se a respeito , mas como
não icou uma idéia bem clara , a nestesista explica
que a fmlidade do tubo endo-traqueal é auxliar na
respiração enquanto e stão sob efeito da anestesia.
"F" pergunta se é colocado após a anestesia, de ­
monstrndo l ívio qun do sua resposta é conirmada .
"C" conta que qundo acordou ouvia o barulho
do respirador "aquilo levntava e baixava (mostrou
com as mãos o movimento do aparelho)" .
É explic ado pela nestesista que este é o apare ­
lho que auxilia na respiração , enqunto estão sob efei­
to dos nestésicos.
Pacientes relatam sobre a impressão do tempo
que icarm no respirador . Alguns mais, outros me­
no s . Explica-se que , em geral , pouco tempo após
acordarem o tubo é retirado , em média 4 a 6 hors .
O importante é e star bem acordado e respirando bem .
"D" refe re que qundo trou o tubo icou rouca.
"G" diz que , na ciruria nterior, qundo lhe
tirarm o tubo pensou: "tenho que falar bem fote
para a voz sair, tinha medo de não voltar a falar . Eu
sempre fui de falar bstante e lto" (aparece aqui o
medo de que a cirugia os incapacite) .

Esclare cemos ao s pacientes que algumas vezes
pode acontecer da pessoa icar rouca, não é o normal ,
mas qundo ocorre em uma semana no máximo a voz
deve voltar ao norm l .
" B " refe re que o pior é a isioterapia . "Parece
que els vêm lutar box na gente" .
Investiga-se se o s pacientes e m pré operatório
sabem o que é a isioterapia .
Como alguns não sabim , um paciente pronti­
icou-se e explicou os exercícios que foram feitos e
outro complementa que graças a este trab alho se ica
bem . "Eu estava com dores nas costas e foi com estes
exerc ícios que melhorei". A isioterapeuta comple ­
mentou explicando que , pela posição em que icam
durnte a cirurgia e pela anestesia, acumula-se secre ­
ção e e stes exercícios vão auxiliar a eliminá-la e por is­
to pedem aos pacientes que tussam .
Um p aciente comenta "aí é brabo", e segue a
explicação da forma de auxiliá-los para diminuir a dor
o máxmo possível (mostra como segura as costelas).
"B" fla: "aqui no hospital existe uma fraterni­
dade que ó vendo , o carinho da e quipe é importan­
tíssimo , com isto e a gente auxiliando se recupera
mesmo" .
"D" diz estar sentindo -se emocionado (choran­
do) e pergunta se é norml ocorrer isto e se não preju­
dicará sua cirurgia.
"C" diz estar sentindo o mesmo , não pode ver
seus ilhos que chora.
Mostramos aos pacientes que é comm ocorrer
isto e que não prejudica . Pelo póprio estresse de en ­
frentar a cirugia é noml que a pessoa ique mais
ensível , é claro que varia de acordo com as caracte ­
rísticas de cada um .
Nesta sessão , pôde -se notar a importância de es­
timular os p aciente s a falarem , para que possam com­
partilhar da experiência dos companheiro s , liviando
assim suas nsie dades e esclare cendo s dúvidas . Desta
forma, é possível que a e quipe atenda às necessidades
daquele grupo, opotunizando , ao mesmo tempo , um
mior conhecimento da personalidade de cada pacien ­
te bem como aprender a lidar com o mesmo através
das discussões com a e quipe .
Durante a reunião , os pacientes demonstrram
sentirem-se confotados ao encontrar pessoas com
sentimentos emelhntes aos seus .
Através do elogio fe ito à equipe , é possível de ­
tectar a vl orização dada ao trabalho da equipe sen ­
tin do-a ao seu lado .
Após as reuniões com os pacientes, a equipe se
reúne para discutir e avaliar o ndamento do trabalho .
Um dos assuntos tratados nesta reunião foi a diicul ­
dade de conversarmos sobre os incômodos da cirurgia.
Quando estes apare cim , tanto pacientes como mem­
bros da e quipe tentavm desviar o ssunto mostrn ­
do fatos positivos. Isso determinou que lguns pacien­
tes se negassem a compare cer s euniões , legando
medo de assustar ou desnimar os compnheiros com
seus sentimentos frente à intervenção . Através das dis­
cussões da e quipe , foi poss ível uma maior consciência
da intolerância de sta em ouvir s dores e reclamações .
Esta conscientização tornou posível uma maior tran ­
qüilidade na aceitação dos sentimentos dos pacientes .

R ev. Bras. En. , Brasíla, 39 (213) , abr. jmaioliu n . liul. lgo . jset. 1 986 - 79

Estas reuniões são registradas por escrito em li­
vro de atas , onde constam o número de pacientes e de
técnicos pre sentes e os assuntos discutidos pelo grupo
Considerando que o pessoal da e quipe de saúde se re ­
veza no comparecimento às reuniões , ao inl de ca­
da mês é feita uma reunião geral visndo a integra­
ção entre os técnicos.
A média de pacientes por reúão é oito sendo
que , em trê s mese s de trabalho , abril , maio e junho ,
foram atendidos 1 4 1 pacientes . Desta fona conse ­
guiu-se uma cobertura de 63 % dos p aciente s , isto é ,
de todos os adultos submetidos à cirurgia card íaca na
nstituição 63 % fre qüentaram as reuniões .
Neste pe rcentul devem ser considerados os pa­
cientes submetidos à cirurgia de urgênci a e aqueles
que foram admitidos ao hospital para cirurgia em dias
que não coincidiam com os do grupo . Dos 1 4 1 pa­
cientes, 45 (27%) assistir am ao grupo ntes e depois
da cirurgia ; 30 ( 1 8%) fre qüentaram o grupo no pré ­
operatório e 2 9 ( 1 7,5%) somente n o pósoperatório .
Os pacientes que não comparecem ao grupo no
período préoperató rio são orientados individual­
mente pelos proissionis da e quipe multidisciplinar
de acordo com o Programa de Assistência ao Pacien ­
te de Cirurgia Cardíada.
AVA L I AÇÃO E CO NCL USÃO

Entendemos que este é um trabalho preventivo ,
em tenos de saúde mental , ade quado à nossa re lida­
de e acre ditamos que a atividade traz benefícios para
os pacientes e para a equipe , que e sentem entusias­
mados com o desenvolvimento dos encontros . Os 6
meses iniciis quando a e quipe reuniu-se para iscu­
tir os objetivos e a melhor fonna de trabahar com os
pacientes foram muito produtivos no sentido de sua
coesão . Entre os problemas encontrados no trablho
com a equipe multidisciplinar está a iiculdade de
motivar os cardiologistas para uma participação efeti­
va no trabalho com os grupos .
Por tratar-se do relato de uma experiência não
pretendemos avaliá-la com dados estat ísticos. Assim ,
temos valorizado o depoimento de proissionais e de
pacientes envolvidos no trabalho . Em uma das reu­
niões da equipe multidisciplinar , o cardiologista que
atua na Sala de Recupe ração verbalizou estar ob ser­
vando dife rença no comportamento dos pacientes
após a cirugia, enfatizndo que s orientações sobre
os cuidados pre stados são assimilados mis facilmente
tendo os pacientes melhor participação e compreen­
são do seu tratamento . Tamém observou-se o inte­
resse de outros proissionais em conhecer a atividade
desenvolvida , emitindo pareceres que serviram para o
grupo corrigir lgumas deiciênci as .
Durnte as reuniões , os p acientes relatam a sa­
tisfação de p articiparem do grupo sentin do-se esc1a-

80

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recidos em relação à cirurgia e ao pósoperatório , sen­
do que muitos deles incentivam compnheiros de
quarto a participarem da reunião . O depoimento de
dois pacientes lustra a citação acima descita: "O
importante é ver os outros bem depois da cirurgia",
" depois desta reunião o meu medo dimnuiu cinqüen ­
ta por cento" .
KUHN, E. H. et alii . A group of pat ients of cardiac surgery ;
report of experience . R ev. Bras. Enl , Basília, 39
( 2 / 3 ) : 7 6- 80 , Apr./Sept . , 1 9 8 6.
R E F E R � N C IAS B I B L l O G R À F I CAS

l . CH RISTOPHERSON, B. & PFEIFFER, C. Varying the
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