Religião e alcoolismo – Estudo da prática pastoral da Igreja Metodista frente a síndrome da dependência do álcool á luz do credo social

UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

TARCÍSIO DOS SANTOS

RELIGIÃO E ALCOOLISMO - ESTUDO DA PRÁTICA
PASTORAL DA IGREJA METODISTA FRENTE A SÍNDROME
DA DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL À LUZ DO CREDO SOCIAL.

SÃO BERNARDO DO CAMPO
2010

TARCÍSIO DOS SANTOS

RELIGIÃO E ALCOOLISMO - ESTUDO DA PRÁTICA
PASTORAL DA IGREJA METODISTA FRENTE A SÍNDROME
DA DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL À LUZ DO CREDO SOCIAL.

Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Ciências da Religião da
Universidade Metodista de São Paulo,
Faculdade de Humanidades e Direito, como
parte dos requisitos para obtenção do titulo
de Mestre em Ciências da Religião.
Orientador: Prof. Dr. Geoval Jacinto da Silva

SÃO BERNARDO DO CAMPO
2010

FICHA CATALOGRÁFICA

Sa59r

Santos, Tarcísio dos
Religião e alcoolismo : estudo da prática pastoral da Igreja Metodista
frente a síndrome da dependência do álcool à luz do credo social /
Tarcísio dos Santos -- São Bernardo do Campo, 2010.
150fl.
Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Faculdade de
Humanidades e Direito, Programa de Pós Ciências da Religião da
Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo
Bibliografia
Orientação de: Geoval Jacinto da Silva
1. Credo social – Igreja Metodista 2. Práxis 3. Alcoolismo –
Aconselhamento pastoral I. Título
CDD 287.0981

A dissertação de mestrado sob o título “Religião e Alcoolismo - Estudo da Prática
Pastoral da Igreja Metodista Frente a Síndrome da Dependência do Álcool à
Luz do Credo Social”, elaborada por Tarcísio dos Santos foi apresentada e
aprovada em 21 de setembro de 2010, perante banca examinadora composta pelos
professores Doutores Geoval Jacinto da Silva (Presidente/UMESP), Blanches de
Paula (Titular/UMESP) e Zila Van Der Meer Sanchez (Titular/UNIFESP).

__________________________________________
Prof. Dr. Geoval Jancinto da Silva
Orientador e Presidente da Banca Examinadora

__________________________________________
Prof. Dr. Jung Mo Sung
Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião
Área de Concentração: Práxis Religiosa e Sociedade
Linha de Pesquisa: Interfaces da práxis religiosa com a filosofia e as ciências
humanas.

Dedico este trabalho ao meu pai Aroldo dos Santos, pessoa
honesta e trabalhadora que após ter voltado à vida sóbria,
não mediu esforços para acompanhar-me na caminhada,
incentivando e motivando a continuar no caminho.

Dedico a minha mãe Margarida Cruz dos Santos, sempre
presente, reconhecendo os meus dons e valorizando-os em
tudo que construí ao longo da vida.

Dedico a minha esposa Maria Aparecida Vieira Salomão
que nos últimos meses tem exercido continuamente o fruto
da paciência em meu favor, por ser companheira, amiga e
pessoa tão amada e querida. Declaro a ti o meu amor.

Dedico a meu filho Gustavo e a minha filha Anna Flávia
por serem bênção em minha vida e marcarem os meus
passos na busca do conhecimento e do crescimento
intelectual.

AGRADECIMENTOS

Sou grato a Deus por ter me escolhido para participar ativamente na
construção do Seu Reino, sou grato por ter Ele me abençoado durante o
tempo de preparação, dando-me condições para cumprir com todas as
minhas obrigações acadêmicas, sou grato por seu imenso amor.
Deixo também registrado o quanto sou grato àqueles e àquelas que
estiveram do meu lado no decorrer deste trabalho de estudos e pesquisas,
dispensando-me carinho, atenção, paciência e muita alegria. Temperos
importantes na construção do conhecimento que visa responder questões
postas, e mais, abrir caminhos para novas reflexões. Neste sentido agradeço
a todos os meus familiares, em especial a meus filhos Gustavo e Anna
Flávia.
Agradeço aos irmãos e irmãs, membros da Igreja Metodista em
Capivari – SP que a todo o tempo apoiaram e respeitaram o meu
investimento acadêmico. Através desta comunidade agradeço a toda Igreja
Metodista.
Agradeço ao Prof. Dr. Geoval Jacinto da Silva pela amizade,
paciência e compreensão durante o trabalho de orientação. E através dele
agradeço a todos os colaboradores da Pós Graduação em Ciências da Religião
da UMESP, e também a CAPES pela concessão da bolsa, pois sem este apoio
financeiro não seria possível realizar esta pesquisa.
E em especial, eu agradeço a minha querida e amada esposa Maria
Aparecida Vieira Salomão por me dar o privilégio de ter a sua companhia
durante a caminhada, por me aplaudir quando acertava, por me questionar e
me impulsionar quando desanimava, por contribuir na leitura e correção
deste trabalho, a ela meus sinceros agradecimentos e a declaração de todo o
meu amor...

No tratamento dos males sociais temos por norma:
combater tenazmente o mal e amar profundamente o ser
humano atingido por ele, propiciando-lhe os meios de
redenção e recuperação. Visando o bem-estar individual e
social propugnamos, pois, pelo seguinte:
1. Combate tenaz e decidido aos vícios causados por
tóxicos e narcóticos que envenenam o homem e males que
corrompem a sociedade.
a) ao alcoolismo que tira completamente o homem do
raciocínio normal e avilta sua personalidade.
b) [...]
Credo Social da Igreja Metodista do Brasil - 1960

SANTOS, Tarcísio dos. Religião e Alcoolismo - Estudo da Prática Pastoral da Igreja
Metodista Frente a Síndrome da Dependência do Álcool à Luz do Credo Social. São
Bernardo do Campo. Universidade Metodista de São Paulo, 2010. Dissertação de
Mestrado em Ciências da Religião. Orientação de Prof. Dr. Geoval Jacinto da Silva.

RESUMO

O trabalho de pesquisa, situado na área de Práxis Religiosa e Sociedade analisa
criticamente o Credo Social da Igreja Metodista, documento que completou o seu
primeiro centenário no ano de 2008, cujo teor é apresentar a responsabilidade social
da Igreja Metodista como norteador das ações pastorais frente às questões sociais.
Tendo-o como referencial busco fundamentar uma práxis pastoral direcionada a
prevenção e ao acompanhamento dos portadores da síndrome da dependência do
álcool, problema que atinge um sem número de pessoas, independente da idade e
sexo ou cultura. A pesquisa traz a conotação da dependência do álcool vinculada à
saúde, interpretando-a como doença que necessita de acompanhamento e cuidado,
desvinculando-a do desvio moral. Para tal, busca respaldo entre diversas fontes
como os Alcoólicos Anônimos que desenvolvem respeitado trabalho neste âmbito,
relacionando seus preceitos às fundamentações do Credo Social. A relevância da
pesquisa está em demonstrar a posição da Igreja Metodista em combater
veementemente o vício do álcool, evitando-o, bem como preconizando que todos
sejam abstêmios, possibilitando a construção de novas práxis pastorais para este
novo século iniciado pelo Credo Social. O trabalho é desenvolvido em três capítulos
que respectivamente trazem a história do Credo Social desde sua criação, as
diferentes edições pelas quais passou, sua importância em relação ao combate aos
vícios, dentre outras relevâncias na vida da igreja e da comunidade. Trata do álcool
como bebida e sua trajetória histórica, suas conceituações conforme a Organização
Mundial de saúde, culminando nas consequências da dependência. Finalizando, o
terceiro capítulo traz a correlação dos dois anteriores, fundamentando a práxis
pastoral, ressaltando ações e posturas pertinentes adotadas pela Igreja Metodista ao
longo dos anos em relação ao uso de bebidas alcoolicas, bem como contextualiza o
Credo Social na postura e práxis pastoral.

Palavras Chaves: Credo Social, Síndrome da Dependência do Álcool, Práxis,
Pastoral.

SANTOS, Tarcísio dos. Religion and Alcoholism - Study of the pastoral practice of
the Methodist Church towards the Alcohol Dependency Syndrome from the Social
Creed. São Bernardo do Campo. Universidade Metodista de São Paulo, 2010.
Master Thesis of Science in Religion. Orientation by Prof. Dr. Geoval Jacinto da
Silva.

ABSTRACT

The research work done in Religious Praxis and Society critically analyses the Social
Creed of the Methodist Church, a document that completed it´s first centennial in the
year of 2008, whose content presents the social responsability of the Methodist
Church as a guide to the pastorals deeds regarding social issues. Having it as a
guide line, I intend to ground a pastoral praxis directed to the prevention and
monitoring of the people affected by the Alcohol Dependency Syndrome, a problem
that strikes an endless number of people, regardless of age, sex or culture. The
research combines the inferred meaning of alcohol dependency and health,
interpreting it as a moral deviation. For such, it seeks support among numerous
sources such as the Alcoholics Anonymous, that develop an esteemed work in this
context, relating its precepts to the groundings of the Social Creed. The relevance of
the research is in the fact that it demonstrates the Methodist Church´s emplacement
fighting vehemently the alcohol addiction, avoiding it as well as alleging everyone to
be teetotaler, allowing the construction of new pastorals praxis in this new century
initiated by the Social Creed. The work is developed in three chapters which
respectively bring the history of the Social Creed since its creation, the different
editions it went through, its importance regarding the fight against addiction, among
other relevances in the life of both the church and the comunnity. It refers to alcohol
as a beverage and also to its historical path, its conceptualizations according to the
World Health Organization, culminating in the consequences of its dependency. In
conclusion, the third chapter brings the correlation of the previous chapters,
fundamenting the pastoral praxis, highlighting pertinent actions and attitudes used by
the Methodist Church throughout the years regarding the use of alcoholic drinks, as
well as contextualizing the Social Creed in the position and pastoral praxis.
Key words: Social Creed, Alcohol Dependency Syndrome, Praxis, Pastoral.

10

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO _____________________________________________________12
CAPÍTULO I - Credo Social da Igreja Metodista: Sua História e Desenvolvimento _17
1.1 Credo Social - Sua história ____________________________________________ 19
1.2 Credo Social – Uma leitura contemporânea _______________________________ 29
1.3 Credo Social - Sua importância na vida e missão da Igreja ___________________ 36
1.4 Credo Social – Norteador para o combate aos vícios ________________________ 44

CAPÍTULO II - Do Alcoolismo à Síndrome da Dependência do Álcool __________50
2.1 O álcool como bebida – Uma linha histórica _______________________________ 52
2.2 Alcoolismo, doença e suas conseqüências. _______________________________ 57
2.2.1 Uma conceituação________________________________________________________ 57
2.2.2 Conceituação segundo a OMS ______________________________________________ 59
2.2.3 As consequências da síndrome da dependência do álcool ________________________ 62

2.3 A Síndrome da Dependência do Álcool ___________________________________ 64
2.3.1 Conceito clínico e fundamentação científica____________________________________ 64
2.3.2 Por que é importante compreender a síndrome da dependência?___________________ 65

2.4 Alcoólicos Anônimos - apoio a recuperação do alcoolista. ____________________ 66
2.4.1 A Vida de Bill Wilson ______________________________________________________ 67
2.4.2 Compartilhar e partilhar a recuperação________________________________________ 71
2.4.3 Oração da Serenidade – Uma forma de se manter próximo ao Poder Superior ________ 78

CAPÍTULO III - O Credo Social da Igreja Metodista: Fundamento Para Uma Práxis
Pastoral Voltada a Síndrome da Dependência do Álcool_____________________83
3.1 Práxis e pastoral – Conceitos norteadores ________________________________ 84
3.1.1 Pastoral – Uma ação comunitária ____________________________________________ 84
3.1.2 Práxis – Uma ação transformadora __________________________________________ 87

3.2 Igreja Metodista e suas ações diante da síndrome da dependência do álcool _____ 93
3.2.1 Matérias que tratam o tema do álcool no Expositor Cristão ________________________ 94
3.2.2 Matérias sobre o álcool em outros documentos ________________________________ 106
3.2.3 Cruz de Malta: Outubro de 1960 – Um estudo completo _________________________ 110

3.3 Credo Social – Fundamentos para uma práxis pastoral voltada a síndrome da
dependência do álcool __________________________________________________ 113

11

CONSIDERAÇÕES FINAIS __________________________________________117
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICAS _____________________________________120
Bibliografia de Referência para a Irmandade dos Alcoólicos Anônimos ______________ 130
Periódicos ___________________________________________________________________ 131
Sites ________________________________________________________________________ 131

ANEXOS ________________________________________________________133
ANEXO A – Credo Social da Igreja Metodista Episcopal, Sul - 1918 _________________ 133
ANEXO B – A Atitude da Igreja Metodista do Brasil Perante o Mundo e a Nação 1934 _ 134
ANEXO C – O Credo Social da Igreja Metodista do Brasil- 1934 ____________________ 136
ANEXO D – Regras Gerais ____________________________________________________ 137
ANEXO E – Credo Social da Igreja Metodista do Brasil - 1960 ______________________ 138
ANEXO F – Credo Social da Igreja Metodista no Brasil 1970 _______________________ 142
ANEXO G – Decreto Nº 6.117, de 22 de maio de 2007 ____________________________ 146

12

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa, que se insere na área de Práxis Religiosa e Sociedade
do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista
de São Paulo, se propõe analisar a práxis pastoral tendo referencial o Credo Social
para tratar problemas referentes à Síndrome da dependência do álcool. O Credo
Social é um documento que expressa a doutrina social da Igreja, que abarca, dentre
muitos fatores sociais a questão dos vícios e suas implicações.
É importante considerar que os vícios são problemas que afetam a sociedade
e segundo a redação do item 12 do quinto tópico do referido documento, Problemas
Sociais: que traz a seguinte afirmação, “devem ser alvo de combate tenaz já pelos
efeitos danosos sobre os indivíduos como também pelas implicações sócioeconômicas que acarretam ao País” (CREDO SOCIAL, In: CÂNONES, 2007, p.59).
O Credo Social é meu objeto de interesse, especialmente no que trata dos
“problemas sociais”, desde meu ingresso na Igreja Metodista. Isso se deve à minha
história de vida que é acentuada por ser filho de um alcoolista em recuperação,
membro de Alcoólicos Anônimos - AA há 41 anos, hoje um dos homens mais velhos
de AA em nosso país. Este fato, aliado aos ensinamentos recebidos desde minha
infância, me despertou para o cuidado dos portadores da síndrome da dependência
do álcool e outras drogas, porém, somente em 1990 dei início, efetivamente ao
trabalho voluntário de apoio e acompanhamento às pessoas que desejavam
abandonar os vícios.
Os caminhos percorridos pela humanidade na atualidade são marcados pelo
excesso em todas as suas ações. Excessos como a dependência do álcool e outras
drogas. O jogo se alastrando por toda parte, prostituição, adultério, sem deixar de
falar na corrupção que consome os governos e as instituições. Diante deste quadro,
o alcoolista, portador da síndrome da dependência do álcool, tem a sua vida
comprometida, apresenta alterações de comportamento, deficiências físicas,
mentais

e

espirituais.

Vive

situações

caóticas

que

dificultam

os

seus

13

relacionamentos e o seu convívio em sociedade. É considerado um problema social
grave.
Para melhor compreensão do quadro formado pelo uso excessivo do álcool
como bebida é necessária a leitura de alguns dados estatísticos como elementos
motivadores para ações efetivas no cumprimento do que propõe o Credo Social.
Em 30 de dezembro de 2002, a Revista Época publicou um artigo
denominado Movidos a Álcool, uma matéria assinada por João Luiz Vieira e Beatriz
Velloso que trata do consumo de álcool entre os jovens brasileiros. Naquele ano
existiam 500 milhões de dependentes de álcool no mundo, e, ressaltava que entre
10 e 15% da população apresentava propensão à dependência.
Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação
(UNESCO) com 50 mil estudantes brasileiros do ensino fundamental e médio,
mostrou que 34,8% deles tomam bebidas alcoólicas – o que representa um
contingente de 17,4 milhões de jovens.
O Brasil apresenta hoje cinco milhões de portadores da síndrome da
dependência do álcool, e é importante ressaltar que o consumo de bebidas
alcoólicas é o principal fator de redução da nossa expectativa de vida. Entre os
pesquisados, um terço declara que sua iniciação à bebida aconteceu entre os 10 e
12 anos e, na década de noventa a média de iniciação era de 14 anos. Outro dado
alarmante é o fato de que 34% dos alunos entre 10 e 18 anos consumiram álcool
pela primeira vez em suas residências, sendo o mesmo, oferecido pelos pais
(VIEIRA e VELLOSO, 2002).
O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID
detectou que 0,9% dos estudantes de escolas públicas nas dez principais capitais
brasileiras têm acesso dificultado a compra de bebidas. No segundo Levantamento
Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil – 2005, o CEBRID
detectou que a faixa etária onde aparecem as maiores porcentagens de
dependentes foi a de 18 a 24 anos de idade (19,2%). Quanto à distribuição de
dependentes entre os sexos, constata-se que a porcentagem de dependentes do
sexo masculino é de três vezes a do feminino, no total e nas idades acima dos 24
anos. Por outro lado, a estimativa da população dependente de Álcool nas 108
cidades com mais de 200 mil habitantes é de 6.268.000 pessoas. (GALDURÓZ,
2007).

14

Estes são dados alarmantes, e, aliados à intenção de trabalhar com pessoas
que sofrem os problemas do álcool, esta pesquisa começou a esboçar-se e tomar
corpo, e, para desenvolvê-la foi necessário um conjunto de procedimentos que
começa com uma pesquisa bibliográfica, seguida pela leitura de textos de
orientações teórico-metodológicas e levantamento de informações necessárias para
o trabalho. Além de análise de publicações da Igreja Metodista como segue: Credo
Social, Cânones, Atas e Documentos, Expositor Cristão, Cartilhas, Revista Cruz de
Malta.
Para a elaboração desta pesquisa, isto é, identificar o Credo Social da Igreja
Metodista como fundamento para a práxis pastoral voltada à síndrome da
dependência do álcool, o método utilizado foi o histórico crítico que segundo Eva
Maria Lakatos tem a seguinte definição:
[...] consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do
passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as
instituições alcançaram sua forma atual através de alterações de suas partes
componentes, ao longo do tempo, influenciadas pelo contexto cultural
particular de cada época (LAKATOS & MARCONI, 1983, p.79).

Cabe ainda explicitar as partes constitutivas desta dissertação que consiste
em três capítulos, que seguem a seguinte contextualização.
O primeiro capítulo tem o objetivo de apresentar o Credo Social da Igreja
Metodista, suas bases históricas e seu desenvolvimento ao longo dos anos. Este
capítulo subdivide-se nos seguintes subitens: “Credo Social - Sua história”, onde é
apresentado o percurso histórico para o surgimento e a aplicação do mesmo. Outro
subitem, o “Credo Social – Uma leitura contemporânea”, apresenta uma leitura nas
várias edições do Credo Social destacando pontos que tratam os problemas sociais,
entre eles os causados pelo consumo excessivo do álcool como bebida. O terceiro
subitem, intitulado “Credo Social - Sua importância na vida e missão da Igreja”, é um
exercício de leitura, nos quais os passos vão se sucedendo. Aqui, em especial, falase da construção de uma Igreja Metodista que surge no Brasil de colonização
Católica Romana, que, até meados do século XX, manteve-se relacionada
diretamente aos interesses de uma minoria, sustentando em sua forma de culto a
opressão e exploração dos menos favorecidos. Fechando o capítulo, o quarto
subitem, o “Credo Social – Norteador para o combate aos vícios” desenvolve uma
breve reflexão a partir do texto atual do Credo Social, destacando a ação da Igreja

15

em relação às pessoas vitimadas pelos problemas sociais, oferecendo a libertação e
a autopromoção integral.
O segundo capítulo traz uma leitura do alcoolismo até a síndrome da
dependência do álcool, interpretando os conceitos e analisando dados referentes ao
álcool como bebida. Este capítulo se subdivide em subitens também, sendo o
primeiro o “O álcool como bebida – Uma linha histórica”, onde foi pesquisado a
história referente ao consumo de álcool pelo ser humano, bem como o
reconhecimento do consumo excessivo do mesmo na forma de bebida como uma
doença e não um problema moral como se pensava antigamente. O segundo
subitem, o “Alcoolismo, doença e suas consequências”, busca conceituar o
alcoolismo como a síndrome da dependência do álcool e apresenta uma
conceituação de doença segundo a OMS e também suas consequências. O terceiro
subitem, “A Síndrome da Dependência do Álcool”, se ocupa em desenvolver um
trabalho de conceituação clínica, fundamentação científica e a importância de se
entender o conceito de dependência como forma de trabalhar a conscientização de
que a bebida alcoólica é uma substância que causa dependência. Após a
conceituação da síndrome da dependência do álcool e a identificação dos vários
danos causados pela bebida alcoólica o capítulo é encerrado com a apresentação
do subitem, “Alcoólicos Anônimos - AA - apoio a recuperação do alcoolista”, com a
finalidade de exemplificar a ação desenvolvida no grupo de apoio como uma práxis
pastoral diretamente ligada ao alcoolista em recuperação.
O terceiro capítulo, por reconhecer que a pesquisa utilizará ferramentas da
Teologia Prática apresentada por Casiano Floristan, foi dividido em três subitens,
cujo primeiro, “Práxis e Pastoral – Conceitos Norteadores”, desenvolve um breve
histórico e a conceituação de pastoral e práxis religiosa. Como a proposta é
identificar uma práxis pastoral no Credo Social da Igreja Metodista voltada aos
problemas sociais provocados pelo consumo do álcool como bebida, é apresentada
de forma sucinta, o significado etimológico de práxis, a utilização e compreensão do
termo, o conceito filosófico, e mais especificamente, seu conceito segundo Casiano
Floristan. No segundo subitem, “Igreja Metodista e suas ações diante da síndrome
da dependência do álcool”, apresenta uma leitura das ações da Igreja através das
suas publicações nos anos em que se marca efetivamente o Credo Social, 1908,
ano em que foi criado. São considerados também os anos, 1918, ano em que foi
assimilado pela Igreja Metodista no Brasil, 1930 e toda a década de 30, momento da

16

autonomia da Igreja, 1960 e toda a década de 60, momento de grandes mudanças
sociais vividas no Brasil e no mundo e 1970 e os anos subsequentes, em que
aconteceu a última alteração do Credo Social.
Neste momento foi desenvolvida uma pesquisa bibliográfica detalhada em
documentos da Igreja Metodista, como: Expositor Cristão - jornal mensal da Igreja
Metodista, Cartilhas publicadas pelas Juntas Gerais da Igreja que visam orientar
para a vida e missão da Igreja e a Revista Cruz de Malta, que é uma revista para
aulas da escola Bíblica Dominical, direcionada às salas de adultos. O último tópico
do capítulo busca fundamentar uma práxis pastoral voltada a síndrome da
dependência do álcool a partir do Credo Social da Igreja.
Desta forma, a pesquisa desenvolveu-se e foi apresentada, e para finalizar,
as considerações finais trazem as impressões obtidas através de todo o percurso do
trabalho e apresentam, sem a pretensão de esgotar o assunto, desafios
relacionados à práxis pastoral a partir do Credo Social com vistas ao cuidado e a
prevenção da síndrome da dependência do álcool. Tais desafios são relevantes se
possibilitarem repensar as práxis pastorais desenvolvidas pela Igreja nos dias atuais
ou até mesmo despertarem o interesse pelo tema.

17

CAPÍTULO I

CREDO SOCIAL DA IGREJA METODISTA: SUA HISTÓRIA E
DESENVOLVIMENTO

A Igreja Metodista afirma sua responsabilidade cristã pelo bem-estar integral
do ser humano como decorrente de sua fidelidade à Palavra de Deus
expressa nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento. Esta consciência de
responsabilidade social constitui parte da preciosa herança confiada ao povo
metodista pelo testemunho histórico de João Wesley. O exercício dessa
missão é inseparável do Metodismo Universal ao qual está vinculada a Igreja
Metodista por unidade de fé e relações de ordem estrutural estabelecidas nos
Cânones (CÂNONES, 1998 - artigo 4º, p. 47).

O Credo Social em vigor foi aprovado pelo 10.º Concílio Geral em 1970/71 e
atualizado em 1997 no 16.º Concílio Geral, e tem como base um documento
semelhante elaborado em 1918 pela Igreja Metodista Episcopal do Sul (EUA). O
Credo

Social

pretende

ser

uma

formulação

da

Doutrina

Social

ou

da

responsabilidade da Igreja Metodista no Brasil diante das questões socais.
O Credo Social é divido em cinco partes: 1) nossa herança; 2) bases bíblicas;
3) a ordem político-social e econômica; 4) responsabilidade civil; e 5) problemas
sociais.
Sobre a “nossa herança” – A Igreja Metodista afirma sua responsabilidade
cristã pelo bem-estar integral do ser humano em obediência a palavra de Deus, que
se constitui parte da herança confiada ao povo metodista pelo testemunho de João
Wesley. O exercício dessa missão é inseparável do Metodismo Universal,
participando assim, a Igreja da unidade cristã e serviço mundial do CMI - Conselho
Mundial de Igrejas, do Ciemal (Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da
América Latina e Caribe), e do Clai (Conselho Latino Americano de Igrejas), em

18

função disso mantém o lema: “Vamos unir ciência e piedade vital há tanto tempo
separadas” (IGREJA METODISTA – CÂNONES, 2007, p: 50).
2) As “bases bíblicas” – Cremos em Deus; cremos em Jesus Cristo; cremos
no Espírito Santo; cremos que o Deus único estava em Cristo; cremos no Reino de
Deus e sua justiça; cremos que o evangelho é poder de Deus que liberta
completamente todas as pessoas; cremos que a comunidade cristã universal é serva
do Senhor; cremos que são bem-aventurados/as todos os humildes de espírito, os
que sofrem, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os que praticam a
misericórdia, os simples de coração, aqueles que trabalham pela paz, que são
perseguidos por causa da justiça e do nome do Senhor. Cremos que a lei e os
profetas se cumprem; cremos que ao Senhor pertence a terra e sua plenitude;
cremos que o culto verdadeiro a Deus é o que manifesta a vivência do amor na
prática da justiça.
3) “A ordem político-social e econômica” – A plena realização da natureza
social do ser humano só é alcançada na vida em comunidade. A ordem econômica
como resultante do conjunto das atividades humanas, a necessidade da existência
do Estado para garantir a ordem social, como saúde, segurança, educação, moradia
e lazer, direitos de todo cidadão, cabe ao ser humano administrar a terra e todos os
seus recursos. A Igreja é chamada por Deus para estar em meio à comunidade e
estar a serviço dela. Nós, Igreja Metodista, consideramos a presente situação da
humanidade, como responsabilidade social, em que Deus criou os povos para uma
família universal promovendo uma reconciliação em Jesus que é fonte da justiça, da
paz e da liberdade entre as nações, tratando a causas da pobreza no mundo,
acabando com as disparidades culturais, sociais e econômicas. É importante
promover uma digna distribuição de renda. Para isto, a Igreja Metodista reconhece
os relevantes serviços prestados pela Organização das Nações Unidas na defesa
dos Direitos Humanos e recomenda como oportunos a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e o documento sobre Desenvolvimento e Progresso Social,
adotado pela Assembleia em dezembro de 1969.
4) Sobre a “responsabilidade civil” – Tem a Igreja Metodista a tarefa docente
de capacitar os membros de suas congregações para o exercício pleno da
cidadania, visando servir ao Brasil, sendo, desta forma, uma sociedade consciente
de suas responsabilidades. Neste propósito, a Igreja adota a Declaração Universal
dos Direitos Humanos criando meios para as ações políticas, proteção jurídica,

19

liberdade de expressão, fazendo com que família, igreja, associação recebam
proteção do Estado e a revelação da soberania de Deus encarnada em Jesus Cristo
sobre todas as autoridades e poderes da sociedade.
5) Os “problemas sociais” – Considerados como causa e efeito da
marginalização passiva ou ativa das pessoas estando diretamente relacionados às
carências básicas do ser humano. A Igreja Metodista considera o ser humano como
a imagem e semelhança de Deus, por isso, é digno de todos os valores e recursos.
Trata também de questões familiares como planejamento familiar, educação de
filhos, administração do lar. Tem no Evangelho recursos de natureza ética para
acolher casais sem o amparo da legislação vigente, tratar a prostituição, atender
crianças e adolescentes desamparados e/ou em situação de risco, rever as
questões das imagens, textos e outros meios que trazem prejuízos a formação
intelectual do ser humano, além de combater os vícios diversos que escravizam o
homem e a mulher e rever o tratamento dado aos reclusos em presídios. A Igreja
Metodista no tratamento dos problemas deseja: “Amar efetivamente as pessoas
caminhando com elas até as últimas consequências para a sua libertação dos
problemas e sua autopromoção integral” (IGREJA METODISTA – CÂNONES, 2007,
p: 60).

1.1 Credo Social - Sua história
Para ler a história do Credo Social é preciso voltar ao século XVIII, em
especial na Inglaterra, berço do movimento metodista, conforme escreve
Heitzenrater:
Os metodistas de Oxford, no início da década de 1730, quase todos homens
da universidade, haviam gasto boa parte de seu tempo, dinheiro e energia no
ministério de misericórdia para com o pobre – educando as crianças nos
albergues, levando alimento aos necessitados, fornecendo lã e outros
materiais com os quais as pessoas pudessem fazer roupas e outras coisas
duráveis para usar ou vender. Esta ênfase particular em ‘amar o próximo’ e
seguir o exemplo de Cristo (que ‘andou por toda a parte fazendo o bem’, Atos
10:38), continuou a caracterizar o metodismo, quando ele entrou no
reavivamento (HEITZENRATER, 1996, p. 125).

Durante muitos anos, as sociedades religiosas formadas sob as práticas
metodistas consideraram a assistência aos pobres como sendo parte de suas ações
missionárias, deixando claro que as marcas distintivas de um metodista eram “o

20

amor a Deus e o amor ao próximo”. Esta era a base da teologia prática de João
Wesley, numa busca constante em responder a questão: “Você ama e serve a
Deus”? Wesley escreve em seu diário, aos 80 anos de idade:
Nesta época do ano geralmente distribuímos carvão e pão entre os pobres da
sociedade. Mas agora considerava que precisavam de roupas também. De
modo que neste e nos quatro dias seguintes, eu andava a pé pela cidade e
mendiguei duzentas libras esterlinas, para vestir àqueles mais necessitados.
Mas era trabalho árduo, porque a maioria das ruas estavam cheias de neve
derretendo, que muitas vezes vinha até o tornozelo; de modo que os meus
pés ficavam ensopados de manhã até a tarde. Agüentei mais ou menos bem
até sábado à tarde; mas então fiquei com uma desinteria terrível (Journal, 41
1-1785) .

Ainda sobre o amar ao próximo, ao escrever sobre a perfeição cristã, Wesley
insistia que os crentes não ficassem apenas na contemplação, mas, ao contrário,
que se dedicassem ao envolvimento e a prática do amor, como escreve Barbieri: “do
amor que se recebe de Deus e que deve ser exercido no contato com o próximo”
(BARBIERI, 1983, p. 9). Compartilhar o amor de Deus com o próximo era uma
exigência vivenciada por Wesley, era o meio para exercer o amor proposto por
Cristo.
A valorização do amor por Wesley pode ser vista através da sua série de
sermões denominados Sermão da Montanha. Barbieri cita as observações sobre
Mateus 5:13-16, onde Jesus diz que os discípulos devem ser “sal da terra e luz do
mundo”:
Esforçar-me-ei por mostrar que o cristianismo é essencialmente uma religião
social; e que reduzi-la tão só a uma expressão solitária é destruí-la, e que
ocultar esta religião é impossível e completamente em oposição ao propósito
do seu Autor [...] Por cristianismo ou entendo o método de adorar a Deus
como foi pregado ao homem por Jesus Cristo [...] Quando digo: esta é
essencialmente uma religião social, digo que não só ela precisa da sociedade
para existir, mas que não pode subsistir, de nenhuma forma, sem ela; isto é,
que deve viver e conviver entre seres humanos [...] É do designo de Deus
que cada cristão esteja colocado em ponto visível, de onde possa projetar luz
ao seu redor, de tal maneira que possa testemunhar claramente a natureza
da religião de Jesus Cristo (WESLEY, In: Barbieri, 1983, p. 9).

A esperança de Wesley era que as Sociedades Unidas viessem a
desenvolver ações que pudessem colaborar com costumes sóbrios e éticos no
processo de transformação da “sociedade libertina, corrompida, irreligiosa, sem
senso moral pessoal e social, onde existiam, naturalmente, exceções de nível
honroso”, conforme afirma Barbieri. A obrigação do metodista era:
1

Ação Leiga e a Preocupação Social da Igreja – 11 Estudos para os Metodistas que buscam uma participação
relevante na atualidade brasileira. Secretários Gerais da Igreja – 1962. págs. 50-51.

21

A de se abster do mal e ser fator de renovação moral e espiritual na
sociedade, compartilhando e eliminando a dor, combatendo a perversão dos
valores morais, sentindo-se, também, responsável por promover o bem estar
geral. Essa vida de disciplina rigorosa foi, durante muitos anos, bastante
rígida. Cada membro das Sociedades Unidas era examinado a respeito de
sua conduta, pelo menos, cada mês. Isto era feito na ‘classe’ ou ‘bands’
(célula) onde pertencia o membro da Sociedade. Se o membro não vivia
conforme o decoro esperado, estava sujeito a ser eliminado da Sociedade
Unida (BARBIERI, 1983, p. 10).

Wesley desenvolvia junto com os demais membros do movimento metodista
ações que visavam o bem estar e a libertação da opressão experimentada pelo povo
a sua volta. Iam a lugares que não eram frequentados pelo clero da Igreja Oficial
Inglesa, geralmente encontrados em “habitações imprestáveis, nos cárceres fétidos,
entre os condenados à morte, entre os prisioneiros de guerra, entre viúvas e órfãos,
nas escolas para as crianças pobres de ambos os sexos” (BARBIERI, 1983, p. 13).
O resultado deste trabalho era quase sempre recompensador, como escreve
Barbieri...
Acharemos, com o correr do tempo, que muitos desses pobretões,
resgatados do vício e da vadiagem, redimidos por Cristo, convertiam-se em
homens e mulheres dadivosos, ganhando honestamente tudo o que
pudessem, poupando para distribuir generosamente tudo o que fosse
possível (BARBIERI, 1983, p.13).

Por causa de suas ações e ensinamentos, Wesley chegou a ser chamado de
“o apóstolo da santidade social”, e, tinha ele uma prática coerente e de destaque
segundo descreve Josgrilberg:
A partir de uma prática coerente com sua visão, Wesley faz uma síntese nas
relações do indivíduo com a sociedade. Basta atentarmos para a amplitude
da preocupação wesleyana e sua presença social por meio da educação
(escolas, escolas dominicais, bibliotecas públicas, publicações, manuais de
ensino), atendimento médico aos carentes, socorro aos pobres (famintos,
órfãos, viúvas, desempregados), expressões públicas de indignação face à
escravidão, e muitas outras formas. O significado de indivíduo e de social no
século XVIII é anterior aos desenvolvidos pela Sociologia e pela Economia
Política. É de se ressaltar, porém, que Wesley, leitor voraz como era, lera
Hobbes, Locke, Rousseau, e tinha razoável informação dos inícios dos
estudos econômicos na Inglaterra (como, por exemplo, dos fisiocratas
ingleses) (JOSGRILBERG, 2009, p: 50).

Wesley ocupou-se em apresentar uma religiosidade que promovia as pessoas
na relação com o outro, ou seja, no social, em oposição ao sistema experimentado
em seu século, em que a cultura europeia trazia a ideia de que, embora sendo um
ente social, o indivíduo seria capaz de transcender a sociedade, assim como
apresenta Josgrilberg: “O indivíduo tipificado pela Renascença e pela Época

22

Moderna é um indivíduo com direitos próprios e contratuais, o que o torna mais um
cidadão de responsabilidade legal que, uma vez satisfeita, o libera para cuidar
exclusivamente de si” (JOSGRILBERG, 2009, p:51).
O indivíduo é o centro das relações sociais para Wesley, logo o social passa
pela socialização do indivíduo e isto se daria através da educação, cuja finalidade
era formar o indivíduo para cumprir suas funções sociais. Diante disto, a escola
torna-se o espaço de promoção do aperfeiçoamento humano para a sociedade,
conforme diz Josgrilberg.
A religião social e a santidade social, em consonância com a encarnação
social do evangelho, fazem Wesley subentender que a missão do cristão está
vinculada a uma missão de cidadania: a “reformar a nação” e o “espalhar a
santidade bíblica por toda a terra” revelam que para Wesley a nação e todas
as sociedades humanas não ficam fora do processo salvífico e estão
implicadas, por conseqüência, nele; não era uma idéia totalmente estranha ao
puritanismo que um indivíduo santo poderia fermentar toda uma nação
(JOSGRILBERG, 2009, p: 58).

O social para Wesley está no processo de socialização, ou seja, o resgate da
presença social na individualidade, o viver em grupo no grupo. Para ele, a santidade
pessoal acontece quando há também santidade social. “Processo formador e
circular que vai da sociedade ao indivíduo, especialmente por meio da educação
disciplinar e outros cuidados que a sociedade garante às pessoas (saúde, por
exemplo); e o indivíduo para a sociedade por meio de associações e grupos, que
retornam

como

serviços

que

fortaleçam

a

própria

sociedade

em

sua

responsabilidade pelos indivíduos” (JOSGRILBERG, 2009, p: 61).
Antes de dar sequência nesta linha histórica segue um resumo estimativo da
obra social de João Wesley, citado por Barbieri quando escreveu sobre A Ação
Social do Metodismo Primitivo,
Wesley estava intensamente interessado em questões sociais. Isso nos
mostram os seus constantes folhetos, onde advogava medidas drásticas. No
folheto ‘Pensamento a respeito da presente escassez de provisões’,
publicado em 1773, ele descreve vividamente a miséria do povo e condena a
dissipação e o luxo como algumas das causas da escassez. Ele teria proibido
toda destilação de álcool, reprimindo por lei todo luxo, elevado os impostos
aos ricos, revisado as listas civis para eliminar todas as jubilações viciosas.
No seu folheto de 1776 sobre a guerra entre a Inglaterra e as Colônias recém
emancipadas da América do Norte, condena a maldade e a loucura de
solucionar questões internacionais por meio da guerra. A respeito das
riquezas (e o crime de conseguí-las através de meios abusivos: jogos de
azar, desonestidade, preços excessivos e concorrência desleal), ele declara:
‘Ninguém deveria obter lucros por subtrair bens do seu próximo, sem merecer
o castigo do inferno’.
A abolição da escravidão (na Inglaterra) foi o resultado do avivamento
metodista e da filantropia que inspirou por causa da ênfase que João Wesley

23

dava à doutrina da salvação universal e da igualdade de todos os homens
perante Deus. A escravidão era considerada como a soma execrável de
todas as vilezas. Uma de suas últimas cartas foi para o parlamentar inglês
Wilberforce – que estava batalhando no Parlamento pela abolição da
escravatura e quem, finalmente, obteve que assim fosse.
Ele e seu irmão (Carlos) lutaram pela reforma das prisões que eram mantidas
em condições miseráveis.
Antecipou quase todas as formas adotadas no serviço social que hoje levam
a cabo as missões urbanas do Metodismo na Inglaterra: casas para
operários, esquema de trabalho para desempregados, bancos e escritórios
para empréstimos aos pobres, consultório médicos, etc. Ele mesmo construiu,
ao longo de sua vida, com cerca de 30.000 libras esterlinas provenientes do
produto da impressão de literatura – quase toda a sua lavra. (Notas copiadas
de ‘A New History of Methodism’ Vol. I, pags. 224, 225, Hoddor and
Stoughton. London, 1909) (In: BARBIERI, 1983, p. 14-15).

O protestantismo e o individualismo cresceram juntos no Ocidente. A doutrina
da salvação por eleição divina e o conversionismo evangélico enfatizavam a
salvação individual e nela se baseavam. O Evangelho Social (Social Gospel) da
virada do século XIX para o XX foi uma reação a isso, constituindo-se na mais
significante contribuição dos EUA para o desenvolvimento da reflexão teológica e da
ação pastoral das Igrejas, assim como os movimentos comunitários que deflagraram
uma produção teológica intensa na Europa, de cuja produção a obra de Bonhoeffer2
é apenas um exemplo.
O Evangelho Social é o movimento que serviu de base para a construção do
documento que, ainda hoje, norteia as ações das comunidades cristãs frente às
questões sociais. Ele caracterizou-se por uma dupla ênfase, que são: uma função
mais ampla da Igreja e uma crítica crescente dos sistemas e ideologias da ordem
vigente. Influenciado pelo liberalismo teológico, mas distinto do mesmo em vários
aspectos, foi uma resposta à crise urbana, ocasionada pelo crescimento econômico,
pois,
Os Estados Unidos também foram palco de grandes mudanças no século
XIX. Após a Guerra de Sucessão (Guerra Civil norte-americana) e até o fim
da I Guerra Mundial, houve uma expansão muito forte do capitalismo sem
empecilho algum. Isso pode ser exemplificado com o surgimento de novas
organizações empresariais de grandes corporações, monopolizando o poder.
Com isso, também houve um crescimento demográfico rápido e
desordenado. Logo, os EUA recebem migração de diversos lugares do
mundo. Ambos se defrontaram com as igrejas despreparadas com os

2

Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 4 de fevereiro de 1906 – Berlim, 9 de abril de 1945) foi um teólogo, pastor
luterano, membro da resistência anti-nazista alemã e membro fundador da Igreja Confessante, ala da igreja
evangélica contrária à política nazista. Sua obra mais famosa, escrita no período de ascensão do nazismo foi
"Discipulado" (Nachfolge) na qual desenvolve a polêmica acerca da teologia da graça, fundamento da obra de
Lutero. (Consultado em http://pt.wikipedia.org/wiki/Dietrich_Bonhoeffer no dia 16 de março de 2010)

24

desafios de seu tempo. As regras eram prisioneiras da ideologia dominante.
3
Isso justificava um duplo contraste social.

O Evangelho Social foi um movimento de grande importância no
protestantismo norte-americano por aproximadamente cinquenta anos (1880-1930).
Walter Rauschenbusch4 (1861-1918) foi o principal teórico do movimento. Era um
pastor batista e professor de seminário e escreveu o livro O Cristianismo e a Crise
Social, que tornou-o nacionalmente famoso em 1907.
Rauschenbusch foi responsável por trazer a tona o problema social sob
enfoque cristão no início do século XX. Sem seus escritos e discursos não seria
possível transformar a forma como os cristãos e pessoas seculares concebiam o
Reino de Deus.
O Evangelho Social pretendia dar uma resposta bíblica e cristã à situação de
abandono experimentada pelos trabalhadores e imigrantes que viviam nos cortiços
das grandes cidades. Insistia em conceitos como “a implantação do reino de Deus
na terra” e a importância de uma “sociedade redimida”. O movimento tendia a dar
uma ênfase excessiva à transformação da sociedade. Via a missão cristã no mundo
principalmente em termos de ação social e tinha um otimismo pouco realista em
relação ao ser humano, o que pode ser visto claramente na citação a seguir:
Em 1892, Rauschenbusch e alguns amigos formaram um grupo chamado A
Irmandade do Reino. A carta do grupo declara que “o Espírito de Deus está
se movendo homens em nossa geração para uma melhor compreensão da
idéia do Reino de Deus na terra”, e que sua intenção era “para restabelecer
esta idéia no pensamento da Igreja, e para ajudar na sua realização prática
no mundo”. Em um panfleto, Rauschenbusch escreveu: “Porque o Reino de
Deus foi abandonado e abrangente como o principal objetivo do cristianismo,
e sua salvação, foi substituída por ela, portanto, os homens tentam salvar
suas próprias almas e egoísmo são indiferentes para a evangelização do
5
mundo”.

José Carlos de Souza em sua palestra durante a 57ª Semana Wesleyana
discorre sobre o pensamento cristão praticado por Rauschenbusch dizendo o
seguinte:
Rauschenbusch estabeleceu uma distinção entre o que chamou de “antigo
evangelho da salvação” e “o novo evangelho do Reino de Deus”. Diz ele,
“Não se trata de levar indivíduos para o céu, mas transformar a vida aqui na
terra na harmonia do céu”. Ele expressa a restauração da antiga fé que em
3

Consultado em http://josegeraldomagalhaesjunior.blogspot.com/2008/05/ii-parte-credo-social.html no dia 10
de dezembro de 2008.
4
Walter Rauschenbusch (04 de outubro de 1861 - 25 de julho de 1918) foi um teólogo cristão e ministro batista.
Ele foi uma figura-chave no Evangelho Social movimento no EUA. (Consultado em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dietrich_Bonhoeffer no dia 16 de março de 2010)
5
Consultado http:// wikipédia.org/wiki/Walter Rauschenbusch em 16 de dezembro de 2008.

25

algum processo da história se perdeu. “O povo de Deus nunca se eximiu de
sua responsabilidade ou criação em geral, mas principalmente frente aos
excluídos, pobres, mulheres, crianças, oprimidos e rejeitados. Portanto, o
6
credo social é tido como um elemento fundamental da herança cristã”.

Rauschenbusch assume em 1897 a cátedra de História da Igreja no seminário
onde havia se formado. No exercício do magistério, seu pensamento ligado as
condições de vida das pessoas menos favorecidas tomou corpo na formação do
grupo conhecido como “Fraternidade do Reino” (Brotherhood of the Kingdom), “cujo
objetivo era difundir o compromisso social e dar a conhecer à sociedade as
condições de vida da população empobrecida” (SOUZA, 2009, p: 75).
No ano de 1907, Rauschenbusch torna-se conhecido por suas ideias e suas
propostas diante do contexto social em que vivia, através de suas obras, sobretudo
Christianity and Social Crisis (1907); For God and the People: Prayers of the Social
Awakening (1910); Christianizing the Social Order (1912); e A Theology for the
Social Gospel (1917), textos que sempre aproximaram a vida devocional a uma forte
paixão social.
Em 1908, a Igreja Metodista Episcopal [IME] formula o credo social,
“originalmente com o nome: a Igreja e os problemas sociais” (RENDERS, 2007, p:
170). Era um texto composto por três partes, a saber, a introdução que a apresenta
e explica os desafios, bem como também define, a partir do pensamento neotestamentário, os critérios para o trabalho. Como mensagem central, o texto destaca
onze afirmações que expressam temas ligado às condições de trabalho e do estilo
das lutas de trabalho onde “A Igreja Metodista compromete-se com direitos iguais e
justiça completa para todos os seres humanos em cada momento das suas vidas”.
Sustentar o compromisso dentro das estruturas da igreja é o último tópico do Credo
Social aprovado em 1908. Infelizmente, nos primeiros anos do século XX, as ideias
existiram somente no papel, como um documento, sendo apenas uma proposta e
não efetivamente parâmetros para um compromisso seguro diante dos problemas
sociais da época.
No ano de 1918, a Igreja Metodista Episcopal do Sul [IMES], adotou o credo e
que passou a ser difundido em solo brasileiro através dos cânones. Em 1922 o
Credo Social foi colocado na “Parte Especial” dos cânones, passando então a ser
um documento balizador da “Comissão de temperança e serviço social”.
6

Consultado http://josegeraldomagalhaesjunior.blogspot.com/2008/05/ii-parte-credo-social.html em 10 de
dezembro de 2008.

26

Durante os primeiros anos do século XX os/as metodistas brasileiros/as foram
movidos/as por um forte desejo de se constituírem em Igreja autônoma, devido ao
fato de todas as iniciativas, decisões e responsabilidades, estarem nas m

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