Participação popular na gestão integrada dos resíduos sólidos orgânicos: experiências na Paraíba

 1  35  128

0

UFPB

UERN

UESC

UFAL

UFS

UFRN UFPI

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
PROGRAMA REGIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

FERNANDA TAVARES DE SOUZA

PARTICIPAÇÃO POPULAR NA GESTÃO INTEGRADA DOS
RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS: experiências na Paraíba

João Pessoa-PB
2013

1

FERNANDA TAVARES DE SOUZA

PARTICIPAÇÃO POPULAR NA GESTÃO INTEGRADA DOS
RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS: experiências na Paraíba

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da
Universidade Federal da Paraíba, na área de
Gerenciamento Ambiental, linha de pesquisa
“Indicadores Ambientais, Qualidade de Vida e
Desenvolvimento Sustentável”, em cumprimento das
exigências para obtenção do título de Mestre em
Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Orientadora: Profª. Dra. Maristela de Oliveira
Andrade
Co-orientadora: Profª. Dra. Maria Cristina Crispim da
Silva

João Pessoa – PB
2013

2

FERNANDA TAVARES DE SOUZA

PARTICIPAÇÃO POPULAR NA GESTÃO INTEGRADA DOS
RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS: experiências na Paraíba

Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio
Ambiente da Universidade Federal da Paraíba, como parte dos requisitos necessários para
obtenção do título de Mestre.

Aprovada em:___/___/___

Banca Examinadora:

___________________________________________
Profª. Dra. Maristela de Oliveira Andrade,
Orientadora
__________________________________________
Profª. Dra. Maria Cristina Crispim da Silva
Co-orientadora
___________________________________________
Profª. Dra. Belinda Pereira da Cunha
Membro Interno
_________________________________________
Profª. Dra. Elisangela M. Rocha
Membro Externo

3

Dedico este a todas as forças que me
alimentam.

4

AGRADECIMENTOS
À professora e orientadora Maristela de Oliveira Andrade pelo incentivo e presença
durante a realização deste trabalho, à co-orientadora professora Maria Cristina Crispim, pela
disposição e atendimento as solicitações em todas as etapas desta pesquisa.
À banca examinadora por suas valiosas contribuições para a melhoria deste trabalho.
À Universidade Federal da Paraíba por meio do PRODEMA.
Ao apoio da Capes na concessão de bolsa nos últimos seis meses deste trabalho.
À Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio
Ambiente – PRODEMA – UFPB e sua secretaria pelos trâmites administrativos.
Aos professores integrantes do PRODEMA na pessoa do Professor Roberto Sassi.
Aos alunos do PRODEMA que interagiram comigo desde a primeira (inesquecível)
turma em 1996 em nome do aluno Cleto Batista Barbosa in memorian.
Aos professores que contribuíram para a minha formação agradeço em nome do nosso
querido professor Paulo Rosas in memorian.
Aos gestores, professores e alunos da Escola Municipal de Ensino Infantil e
Fundamental Antonio Santos Coelho Neto pela parceria.
Aos moradores das comunidades da Penha, Jacarapé e do município de Pocinhos pelo
rico aprendizado ao longo deste trabalho.
Aos técnicos, feirantes e comerciantes da EMPASA que dispensaram seu tempo em
meio às vendas para contribuir com esta pesquisa e em especial à Silvana Alves dos Santos,
responsável pelo programa de compostagem na empresa.
Ao Dr. José Farias, Vlamir Brasil, Caio Marcelo e Alex, equipe técnica de Meio
Ambiente do Ministério Público Estadual da Paraíba pela permissão, “caronas” e
conhecimento ambiental, ao acompanhar o trabalho realizado em Pocinhos – PB.
À Secretaria de Mulheres da Prefeitura Municipal de João Pessoa no nome de Nézia
Gomes pelo aprendizado durante o ano de 2011 e a dispensa das horas necessárias a
realização desta pesquisa.
Aos @migos de todas as horas, meus, e dos meus filhos, Nino e Iuri, que são fontes de
energia para os meus movimentos, em especial a amiga/irmã Severa do Carmo.
À minha família, especialmente à minha mãe, que sempre me apoiou nessas e outras
“investidas”, contribuindo para que eu alcance meus objetivos com alegria.
Por fim, ao Guilherme Faulhaber que contrariando a teoria de que os casais se separam
durante uma dissertação, se uniu a mim, neste período, quebrando este “paradigma”.

5

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.
Paulo Freire

6

RESUMO
SOUZA, Fernanda Tavares de. PARTICIPAÇÃO POPULAR NA GESTÃO INTEGRADA
DOS RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS: experiências na Paraíba. 2013. 128 f.
Dissertação (Mestrado em Meio Ambiente) – Programa de Pós-Graduação em
Desenvolvimento e Meio Ambiente, UFPB, João Pessoa, PB, 2013.
O gerenciamento de resíduos sólidos urbanos não vem contemplando a coleta dos resíduos
orgânicos para um aproveitamento, nem orientando a população sobre o seu tratamento. A lei
12.305/2010 que trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos veio impulsionar este estudo,
em razão da necessidade de diminuir em 40% o volume de resíduos direcionado atualmente
para os aterros, através de ações voltadas para a separação de resíduos sólidos orgânicos
(RSO) pela população, que em geral perfazem mais de 50% do total dos resíduos sólidos. Ao
analisar diferentes realidades na Paraíba, visando à implantação da gestão integrada de
resíduos sólidos, com ênfase nos resíduos orgânicos, esta pesquisa examinou 03 experiências
de gestão de RSO em: uma Empresa de Abastecimento e Serviços Agrícolas de João Pessoa;
no município de Pocinhos no Estado da Paraíba e na Associação dos Produtores de Frutos do
Mar da Praia da Penha. A metodologia adotada da pesquisa participante mostrou-se
apropriada em contextos como Pocinhos, assim como na Escola Municipal Antonio Santos
Coelho Neto e na Associação de Moradores e Amigos de Jacarapé, onde foi feita uma
sensibilização e um estudo de percepção ambiental. Este tipo de pesquisa permite que a
população participante se torne sujeito dos conhecimentos passando assim a perceber e
detectar seus próprios problemas, levantando alternativas para saná-los ou amenizá-los. Por
meio do diagnóstico socioambiental foi possível observar a percepção ambiental heterogênea
dos segmentos participantes da pesquisa. Os resultados da pesquisa apontaram para a
importância da participação social no processo de mudança, e da educação ambiental de
forma constante e abrangente, de maneira a atingir os diversos públicos envolvidos na gestão
e/ou gerenciamento de resíduos sólidos. Com relação à legislação, verificou-se não só a
negligência relativa ao seu cumprimento, como a tentativa de estender os seus prazos. Ao
final nas áreas estudadas, percebeu-se que a gestão dos resíduos sólidos exige uma gestão
participativa, com base na educação ambiental, participação social e infra-estrutura pública,
funcionando de maneira integrada, com ações tanto no nível individual como no coletivo.
Palavras-chave: Resíduos orgânicos. Gestão participativa. Educação ambiental.

1

ABSTRACT
Fernanda Tavares de SOUZA. POPULAR PARTICIPATION in the INTEGRATED
MANAGEMENT OF ORGANIC SOLID WASTE: experiences in Paraiba. 2013.128 f.
Dissertation (Master's Degree in Environmental Science) - Graduate Program in Development
and Environmental Sciences, UFPB, João Pessoa, PB, 2013.
The management of municipal solid waste has not been including the collection of organic
waste to recycling, nor instructing the population about its processing. The law 12.305/2010
that establishes the National Solid Waste Policy came to support this study, because of the
need to decrease to 40% the volume of waste currently directed to landfill, through actions
geared toward organic solid waste separation by the population, which typically makes up
more than 50% of the total solid waste. To analyze different realities in Paraiba, aiming at the
implementation of integrated solid waste management, with emphasis on organic waste, this
research studied 03 experiences or attempts of solid waste separation management at: João
Pessoas’s Agency of Supply and Agricultural Services; the municipality of Pocinhos in the
State of Paraíba; and the Association of Seafood Producers from Praia da Penha. The method
chosen, the participant research, proved to be suitable for contexts like the one found in
Pocinhos, as well as in the Municipal School Antonio Santos Coelho Neto and the
Association of Residents and Friends of Jacarapé, where awareness and a study of
environmental perception were performed. This type of research allows the participant
population to become subject of knowledge thus realizing and detecting their own problems,
raising alternatives to solve them or reducing them. Through the socio-environmental
diagnosis it was possible to observe the heterogeneous environmental perception of the
research participants. The survey results pointed to the importance of social participation in
the process of change, and of constant and comprehensive environmental education, in order
to reach the various stakeholders involved in solid waste management. Regarding legislation,
we noted not only negligence concerning its enforcement, but also the attempt to extend its
deadlines. At the end, in the studied areas, we noted that solid waste management requires a
participatory management, based on environmental education, social participation and public
infrastructure, working in an integrated way, with actions both at the individual scale as well
as at the collective scale.
Key-words: Organic waste. Participatory management. Environmental education.

2

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABAL - Associação Brasileira do Alumínio
ABRELPE - Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais
CAOPMAPAS - Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça e Meio Ambiente do
Patrimônio Social do Estado
CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais
CEMPRE - Compromisso Empresarial para Reciclagem
EMEPA - Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária S.A.
EMPASA - Empresa Paraibana de Abastecimento e Serviços Agrícolas
EMLUR - Autarquia Municipal de Limpeza Urbana
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
PGIRSU - Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Urbanos
PMJP - Prefeitura Municipal de João Pessoa
PNRS - Política Nacional de Resíduos Sólidos
PRONAF - Programa Nacional de Agricultura Familiar
PROHORT - Associação de Produtores Agroecológicos de João Pessoa
SEE - Secretaria de Educação do Estado da Paraíba
SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SEDESP - Secretaria do Desenvolvimento Sustentável da Produção
SERHMACT - Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, Meio Ambiente, Ciência e
Tecnologia
SINIMA - Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente
SINISA - Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento
UFPB - Universidade Federal da Paraíba
UGIRSU - Unidade de Gerenciamento Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos

3

LISTA DE FIGURAS

Figura 01: Público pesquisado........................................................................................... 19
Figura 02 a: Composteira na Agência de Uberlândia........................................................ 36
Figura 02 b: Composteira no CRIU - Uberlândia............................................................. 36
Figura 03 a: Composto orgânico - em Ituiutaba............................................................... 37
Figura 03 b: Detalhes da construção e aeração – Ituiutaba............................................... 37
Figura 04: Material orgânico separado para composto na Praia da Penha........................ 38
Figura 05: Compostagem pronta na Praia da produção de composto na Praia
da Penha.............................................................................................................................. 38
Figura 06: Culturas algais em larga escala, produzidas na Praia da Penha a partir
de composto........................................................................................................................ 39
Figura 07: Separação de resíduos orgânicos para as composteiras, para a produção
do composto, na EMPASA – JP......................................................................................... 40
Figura 08: Mobilização dos ACS – Pocinhos – PB...........................................................54
Figura 09: Estudo de Gravimetria no lixão de POCINHOS – PB, realizado
pela equipe........................................................................................................................... 59
Figura 10: Separação do lixo doméstico feita pela população de Pocinhos – PB.............. 62
Figura 11: Nova área destinada à segregação dos RSU em Pocinhos - PB....................... 63
Figura 12: Chegada ao galpão de caminhão adaptado à coleta seletiva
em Pocinhos – PB................................................................................................................ 63
Figura 13: Caminhões adaptados à coleta seletiva em Pocinhos – PB, com divisórias
para cada tipo de resíduo..................................................................................................... 64
Figura 14: Separação dos resíduos a partir do transporte em POCINHOS – PB.............. 64
Figura 15: Recepção dos resíduos pelos catadores em Pocinhos – PB............................. 65
Figura 16: Visão da nova área destinada à segregação dos resíduos
pelos catadores em Pocinhos – PB..................................................................................... 65
Figura 17: Caminhão destinado à coleta dos resíduos sólidos de Pocinhos – PB............. 66
Figura 18: Chegada do caminhão ao lixão de POCINHOS – PB...................................... 67

4

Figura 19: Esquema descritivo com as atividades desenvolvidas nas duas
comunidades: Jacarapé e Escola Municipal Antonio Santos Coelho Neto........................ 70
Figura 20: Estufa de flores em Jacarapé............................................................................ 75
Figura 21: Reuniões realizadas, na Associação de mulheres de Jacarapé,
no âmbito do projeto.......................................................................................................... 76
Figura 22: Feira de trocas, realizadas como atividade final das reuniões........................ 77
Figura 23: Buraco feito por moradores de Jacarapé para depósito do lixo
por falta de coleta pelo poder municipal............................................................................. 80
Figura 24: Reaproveitamento de recicláveis no processo de produção caseiro,
em casa de moradora em Jacarapé...................................................................................... 81
Figura 25: Casa de moradora, em Jacarapé, que já realiza aproveitamento
de resíduos, incluindo os orgânicos.................................................................................... 81
Figura 26 a e b: Apresentação do projeto aos alunos envolvidos na pesquisa................. 86
Figura 27: Entrada da EMASCN...................................................................................... 86
Figura 28: Placa de reforma da EMASCN........................................................................ 86
Figura 29: Alunos em visita à EMPASA.......................................................................... 87
Figura 30: Leiras na EMPASA.......................................................................................... 87
Figura 31: Alunos em visita ao Aterro Sanitário................................................................88
Figura 32: Explicação técnica sobre o Aterro Sanitário......................................................88
Figura 33: Composteiras domésticas..................................................................................99

5

LISTA DE MAPAS

Mapa 01: Localização do município de POCINHOS - PB no Estado da Paraíba............. 56
Mapa 02: Localização geográfica da comunidade de Jacarapé em parte
do município de João Pessoa............................................................................................... 71
Mapa 03: Localização do bairro da Penha......................................................................... 84

6

LISTA DE QUADROS

Quadro 01: Apresentação da NBR 10.004 relativa à classificação
do resíduo segundo a sua periculosidade............................................................................ 50
Quadro 02: Responsabilidade pelo gerenciamento por cada tipo de lixo......................... 50

7

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 01: Deposição de resíduos sólidos pelos municípios brasileiros.......................... 23
Gráfico 02: Composição dos resíduos sólidos nos municípios brasileiros........................23
Gráfico 03: Destinação Final de RSU no Estado da Paraíba (t/dia)................................... 29
Gráfico 04: Distribuição percentual dos RSD do município de Pocinhos - PB,
dados coletados em 09 e 11/07/2012................................................................................... 60
Gráfico 05: Resultado das respostas obtidas pelo grupo de mulheres
de Jacarapé quando indagadas sobre o que é meio ambiente.............................................. 78
Gráfico 06: Percepção do que é o meio ambiente pelo grupo das mulheres
de Jacarapé........................................................................................................................... 79
Gráfico 07: Percepção dos problemas ambientes pelas mulheres do grupo
de Jacarapé........................................................................................................................... 79
Gráfico 08: Resultado das respostas obtidas pelos alunos participantes
da pesquisa quando indagados sobre o que é meio ambiente.............................................. 89
Gráfico 09: Resultado dos alunos participantes da pesquisa ao responderem
uma palavra que represente o meio ambiente...................................................................... 89
Gráfico 10: Percepção dos problemas ambientais pelos alunos participantes
da pesquisa........................................................................................................................... 90
Gráfico 11: Resultado das soluções dadas aos problemas ambientais que
os incomodam, pelos alunos participantes da pesquisa....................................................... 90
Gráfico 12: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes
da pesquisa na EMASCN quando indagados sobre o que é lixo......................................... 91
Gráfico 13 a: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados sobre uma palavra que represente resíduo sólido........... 91
Gráfico 13 b: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados sobre o que é resíduo sólido............................................92
Gráfico 14: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados a separação dos RSU nas suas residências..................... 92
Gráfico 15: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados sobre a frequência da coleta em suas residências.......... 93
Gráfico 16: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa

8

na EMASCN quando indagados sobre o aproveitamento dos seus resíduos orgânicos..... 93
Gráfico 17: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados sobre o destino dados as folhas das suas residências..... 94
Gráfico 18: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa
na EMASCN quando indagados sobre a existência de horta em suas residências............. 94
Gráfico 19: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa na
EMASCN quando indagados sobre a pretensão de ter uma horta em suas residências....
95
Gráfico 20: Resultado das respostas dadas pelos alunos participantes da pesquisa na
EMASCN quando indagados sobre o desejo de participarem de projetos de Educação
Ambiental............................................................................................................................ 95

9

LISTA DE TABELAS

Tabela 01: Participação dos Materiais no Total de RSU Coletado no Brasil....................24
Tabela 02: Coleta e Geração de RSU no Estado da Paraíba............................................. 25
Tabela 03: Destinação final de resíduos sólidos orgânicos em Minas Gerais................... 35

10

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO....................................................................................................... 13
CAPÍTULO 1
RESPONSABILIDADE CIDADÃ E GESTÃO COMUNITÁRIA
DOS RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS: DA INVISIBILIDADE
AO TRATAMENTO ADEQUADO............................................................................... 20
1.1 Gestão Integrada e o Lugar da Participação........................................................... 25
1.2 Destinação de Resíduos Sólidos Orgânicos: Mundial e Brasil............................... 33
1.3 Experiências de Gestão dos Resíduos Orgânicos no Brasil.................................... 34
1.4 Reaproveitamento de Resíduos Orgânicos em João Pessoa................................... 37
1.5. Avaliação do Projeto 1............................................................................................... 45
CAPÍTULO 2
UM NOVO CAMINHO PARA A GESTÃO MUNICIPAL DOS RESÍDUOS SÓLIDOS:
LEGISLAÇÃO E CONTRIBUIÇÃO DO MPPB.......................................................... 47
2.1 Legislação e Responsabilidade pelo Gerenciamento de Resíduos Sólidos............ 47
2.2 O Papel do MPPB na Formulação dos PGIRSU nos Municípios Paraibanos
e as Diretrizes que Fundamentam o PGIRSU de Pocinhos - PB.................................. 52
2.3 Parceria Institucional e a Participação Social na Implementação
de uma Política Pública em Pocinhos - PB: Projeto 2.................................................... 52
2.4. Avaliação do Projeto 2............................................................................................... 68
CAPÍTULO 3
PERCEPÇÃO AMBIENTAL EM RELAÇÃO AOS RESÍDUOS ORGÂNICOS
EM DOIS ESPAÇOS COMUNITÁRIOS PROJETOS 3 E 4........................................ 69
3.1 Percepção e Sensibilização para a Questão dos Resíduos Sólidos
e Orgânicos na Comunidade de Jacarapé, no Cinturão Verde
de João Pessoa: Projeto 3.................................................................................................. 70
3.2. Resultados.................................................................................................................. 79
3.3 Avaliação do Projeto 3................................................................................................ 83

11

3.4 Sensibilização para a Questão dos Resíduos Sólidos e Orgânicos
na Escola Municipal Antonio Santos Coelho Neto: Projeto 4...................................... 83
3.5. Avaliação do Projeto 4............................................................................................... 96
CAPÍTULO 4
PROPOSTAS PARA CONTRIBUIR COM A GESTÃO DE RESÍDUOS
SÓLIDOS NO MUNICÍPIO DE JOÃO PESSOA, COM BASE NA PNRS
E OS PROCESSOS PAUTADOS EM PRINCÍPIOS ECOLÓGICOS,
DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL E PARTICIPAÇÃO SOCIAL.......................... 97
4.1 Conclusão..................................................................................................................... 97
4.2 Propostas...................................................................................................................... 99
4.3 Propostas: ação individual e ação pública de participação................................... 104
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 107
REFERÊNCIAS..................................................................................................... 109
APÊNDICES............................................................................. ............................. 115
ANEXOS..........................................................................................................................119

12

13

INTRODUÇÃO
As cidades têm como grande desafio resolver o problema do lixo, desde a sua
geração, acondicionamento até o tratamento, através da adoção de estratégias eficientes para a
coleta, transporte e destinação final dos diversos resíduos de forma adequada e exigida por lei.
Mas, a implantação eficaz de um programa de gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos
requer a participação social, de modo que os gestores públicos devem promover campanhas
de sensibilização e de educação ambiental que leve os seus cidadãos a compreenderem e
tratarem os seus resíduos.
A pesquisa participante embasou este estudo e segundo Brandão (2006, p.43) este
método tem por objetivo possibilitar uma maior interação entre pesquisador profissional e
população pesquisada. Nesta metodologia a população participante torna-se sujeito dos
conhecimentos passando assim a perceber e detectar os seus próprios problemas, levantando
alternativas para saná-los ou amenizá-los.
Ao descrever este tipo de pesquisa Brandão (2006, p.52) afirma que a mesma permite
que o profissional pesquisador se envolva com o meio social possibilitando uma maior
interação entre ele e a população participante, contudo, é a população que vai expor os seus
problemas, o que as incomoda, para que junto com o pesquisador busquem possíveis soluções
para as demandas levantadas.
No Brasil, a lei Federal: 12.305, de 02/08/2010 que trata da Política Nacional de
Resíduos Sólidos tem por objetivo traçar ações estratégicas que viabilizem processos capazes
de agregar valor aos resíduos, aumentando a capacidade competitiva do setor produtivo,
propiciando a inclusão e o controle social, norteando Estados e Municípios para a adequada
gestão de resíduos sólidos, visando à redução da quantidade de resíduos descartados em
aterros ou lixões.
As políticas públicas podem ser definidas como ações de governo e podem ser
divididas em atividades diretas de produção de serviços pelo próprio Estado e em atividades
de regulação, que influenciam econômica, social, ambiental, espacial e culturalmente
(LUCCHESE, 2004). Por outro lado, há (todo) um comportamento social que está interligado
de forma sistêmica às políticas vigentes e às práticas individuais e coletivas, que a maioria das
vezes tem de ser mudado e adequado.
Para Cardoso (2002), o processo participativo na gestão da limpeza urbana contribui
para construir e reforçar vocações locais, e a consequência direta desta participação, poderá
resultar em redução na geração de lixo, manutenção dos logradouros limpos, no

14

acondicionamento e disposição para a coleta adequada. Ainda, como resultado final, tem-se
uma operação dos serviços menos onerosa, o que contribuirá sobremaneira para o interesse
governamental em programas de parcerias, favorecendo a melhoria da qualidade de vida.
De acordo com Beck e Giddens (1997, p.64) “faz-se necessário refletirmos
continuamente sobre nossas próprias práticas, inclusive sobre aquelas que estão intimamente
ligadas ao nosso cotidiano”, a exemplo da ausência da coleta seletiva, do tratamento e da
destinação do lixo que produzimos.
Segundo Silva (2006), os índices e indicadores existentes em âmbito mundial sobre
qualidade ambiental e qualidade de vida, privilegiam a vida na cidade, em detrimento da vida
no campo ou no setor peri-urbano. Sendo assim, é importante considerar as populações que
habitam o campo e contemplá-las com pesquisas sobre a qualidade ambiental e de vida
contextualizada ao meio rural, pois desta forma, estas populações configuram-se como
lacunas a serem preenchidas pela pesquisa científica e ações governamentais.
Conforme a NBR nº 10.004, da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT,
os resíduos sólidos podem ser entendidos como, “Resíduos nos estados sólido e semissólido,
que resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar,
comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nessa definição os lodos
provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e
instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particularidades
tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d’água, ou exijam,
para isso, soluções técnica e economicamente viáveis, em face à melhor tecnologia
disponível.
Para Barros Júnior e Barros (2003), a matéria orgânica representa um grande potencial
de resíduos geradores de impacto e é um elemento orgânico (biodegradável) causador da
maioria dos problemas em aterros sanitários, como a liberação de gases e líquidos tóxicos, a
com elevada capacidade de dispersão. O gás metano, produzido em aterros é um gás
inflamável e contribui de maneira forte para o aumento do efeito estufa. Além disso, a
produção do lixiviado vai aumentar a eutrofização em corpos de água.
Considerando a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a qual contribui para
que os lixões sejam extintos no país até o final de 2014, bem como a composição do lixo
brasileiro, e as dificuldades para que esta lei se cumpra, vê-se a importância da pesquisa em
função da contribuição para a reflexão da população e gestores públicos acerca do
aproveitamento dos resíduos sólidos orgânicos, que para além de vantagens ambientais, traz
associado melhorias sociais, em especial na saúde pública.

15

Segundo a Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (EMLUR) grande parte
desse crescimento se deve à intensificação no trabalho de coleta de entulhos e fiscalização do
descarte de resíduos da construção civil (RCDs). Foram recolhidas 425.131,716 toneladas de
resíduos sólidos em João Pessoa até 25 de dezembro de 2012, a capital produziu 413.304,285
toneladas, representando um aumento de quase mil toneladas na média mensal. A coleta de
entulhos teve um crescimento médio de 8%, passando de 147 mil toneladas, em 2011, para
mais de 158 mil toneladas este ano.
Como o foco da nossa pesquisa são os resíduos orgânicos, destacamos os dados a
seguir: 98% dos municípios paraibanos têm destino irregular (lixões a céu aberto ao invés de
aterros sanitários). De acordo com entrevista (apêndice) realizada com o coordenador de
resíduos finais da EMLUR, Edmilson Fonseca, apenas a região metropolitana de João Pessoa
possui aterro, atendendo a 05 municípios: João Pessoa (69%), Santa Rita, Bayeux, Cabedelo e
Conde. Vale salientar que este aterro, embora publique que funciona dentro das exigências
ambientais, não possui manta porque o solo é impermeável, como pudemos observar na visita
técnica realizada em setembro de 2012 com os alunos. Segundo informação de técnico do
aterro há uma instalação de tubulações para coleta do lixiviado e da produção de gás, que não
é aproveitado, embora obtenha ganhos no mercado de carbono.
A relevância da presente pesquisa dá-se em função da urgência de encontrar meios de
reduzir em 40% os resíduos como um todo além da obrigatoriedade e do prazo para que se
cumpra a adequação dos aterros municipais à nova política nacional de resíduos sólidos,
considerando que a pesquisa chama a atenção para a quantidade de resíduos orgânicos
produzidos e sua destinação, sendo uma experiência acadêmica inédita no Estado da Paraíba.
Dessa forma, pretende-se realizar uma análise sobre os processos participativos, como
condição para o sucesso da política de cooperação entre o setor público e a comunidade,
investigando os níveis de participação de diferentes segmentos sociais nas experiências
detectadas e acompanhadas pela pesquisa em espaços sociais distintos, e alternativas de
tratamento dos resíduos orgânicos.
Com base nestes dados, pretende-se contribuir para aprofundar a discussão em torno
da sociologia ambiental, bem como das práticas sócio-políticas relativas à coleta seletiva,
como alternativa para reverter o quadro de comprometimento ambiental em que se encontra a
maioria das cidades brasileiras. A educação ambiental, deve ser inserida neste processo, para
se desenvolver coletivamente uma consciência ecológica voltada para a separação do lixo
úmido e seco e o seu aproveitamento.

16

De acordo com Ambiente Brasil (2012), João Pessoa teve um acréscimo de 11.827
toneladas na quantidade de resíduos coletados, entre 1º de janeiro e 25 de dezembro de 2012,
em relação ao mesmo período de 2011.
A política desenvolvida atualmente no Estado não favorece o conhecimento
tecnológico das populações periurbanas, bem como de cidades de pequeno porte do semiárido
paraibano, com relação à importância da produção, separação e tratamento dos resíduos
orgânicos. Para isso, esta pesquisa realizou-se em diferentes contextos, entre os quais uma
experiência em espaço comunitário e duas experiências de caráter público, sendo uma parte
para diagnóstico e acompanhamento, e outra parte de intervenção, através de pesquisa
participante, em uma comunidade e uma escola pública.
No final deste estudo, esperamos comprovar as seguintes hipóteses:
H1 – A quantidade de resíduos orgânicos nos resíduos domésticos por ser a maior
parte do peso, deve ser o foco da gestão, para alcançar o objetivo da legislação de diminuir em
40% o material descartado nos aterros.
H2 – A participação da população na gestão dos resíduos sólidos é indispensável
(possível).
H3 – Mesmo diante da importância da coleta seletiva para a preservação do meio
ambiente, no município de João Pessoa não há orientação acerca do que a população deve
fazer com os resíduos orgânicos, a não ser depositá-los em sacos para a coleta, junto com os
resíduos comuns, que em seguida serão enviados ao aterro sanitário.

17

 OBJETIVOS
O objetivo geral do estudo foi analisar dentro de espaços específicos, as soluções para
a gestão de resíduos sólidos, em especial os orgânicos.
Os objetivos específicos estão elencados abaixo:


Elaborar um diagnóstico de modelos de aproveitamento de resíduos
orgânicos implantados no município de João Pessoa



Sensibilizar o público de uma comunidade escolar do cinturão verde de
João Pessoa, a Escola Municipal Antonio Santos Coelho Neto para a
construção e adoção de um modelo de gestão de resíduos orgânicos.



Investigar a implantação do plano integrado de gestão integrada de
resíduos sólidos no município de Pocinhos - PB no Cariri Paraibano;



Avaliar o efeito da produção de composto orgânico com relação ao
aumento da vida útil do aterro sanitário, considerando a disposição
somente dos rejeitos;



Acompanhar e avaliar o processo perceptivo e participativo das
comunidades envolvidas nos modelos de gestão de resíduos para detectar o
que deu certo e o que não deu certo na pesquisa realizada;



Propor um conjunto de sugestões sobre possíveis conteúdos para um
programa de EA para sensibilizar moradores urbanos e rurais para a
compostagem do lixo orgânico.

A dissertação foi dividida em 04 (quatro) capítulos, que enfocaram momentos distintos
da pesquisa, começando com um capítulo de referencial teórico sobre a problemática dos
resíduos sólidos a partir de sua conceituação, e envolvendo a gestão pública com a inclusão da
participação social. Um levantamento do panorama de outros países e experiências do Brasil
ensejou a primeira etapa da pesquisa, que enfocou a experiência de um modelo participativo
de gestão de resíduos sólidos com ênfase nos orgânicos na Empresa Paraibana de
Abastecimento e Serviços Agrícolas em João Pessoa.
O segundo capítulo trata da legislação pertinente à gestão municipal dos RSU e a
dimensão da participação social, conforme dispõe a Política Nacional dos Resíduos Sólidos
para fundamentar a experiência da iniciativa do Ministério Público da Paraíba através do

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projeto “Construção de Cidadania Socioambiental”, constituindo a etapa seguinte da pesquisa
que enfocou a construção e implantação do plano integrado de gerenciamento de resíduos
sólidos da cidade de Pocinhos - PB.
No terceiro capítulo, são apresentadas duas experiências de gestão comunitária em
João Pessoa de implantação de gestão participativa de resíduos sólidos como proposta de
pesquisa participante e observação direta em uma comunidade escolar no bairro da Penha Escola Municipal Antonio Santos Coelho Neto e no grupo de mulheres “Flores de Jacarapé”
de uma associação de moradores em Jacarapé. O processo envolveu uma sensibilização
através de atividades, incluindo visitas de campo com os alunos ao aterro sanitário municipal
e a EMPASA e uma análise da percepção ambiental dos diversos públicos envolvidos na
pesquisa. E, por último, no quarto capítulo, apresentam-se com base na pesquisa realizada,
duas propostas de gestão de RSU: a primeira que pode ser realizada individualmente e a
segunda para que se desenvolva coletivamente.
Os resultados obtidos na pesquisa estarão discutidos e apresentados por meio de
tabelas, gráficos, relatos qualitativos e registro fotográfico.

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 Metodologia
Adotou-se a observação direta e a pesquisa participante em 03 (três) das 04 (quatro)
áreas estudadas: Jacarapé, Penha, Pocinhos – PB. Para denominar os diferentes contextos
empíricos da pesquisa, os definiremos respectivamente como: projeto 1, 2, 3 e 4 para
identificá-los ao longo do texto, considerando que são propostas distintas de gestão de RSU.
Abaixo se apresenta um quadro com as áreas estudadas e os grupos pesquisados em
cada uma delas, sendo a metodologia específica descrita ao longo dos capítulos.

ESPAÇOS ESPECÍFICOS
EMPASA-PB

Município de Pocinhos-PB

Grupo de Mulheres
Flores de Jacarapé
Escola Antônio Santos Coelho Neto
Figura 01: Público pesquisado
Fonte: Dados da pesquisa, 2012.

GRUPOS



Feirantes e comerciantes da EMPASA
Técnicos da EMPASA



Técnicos envolvidos na implantação do plano de GRS de
Pocinhos-PB
Agentes de Saúde de Pocinhos-PB
Professores e Técnicos da Escola de Ensino Fundamental
Afonso Campos






Alunos do 9° ano do Colégio Municipal Padre Galvão
Catadores



Mulheres do Grupo “Flores de Jacarapé”





Professores e Técnicos
Alunos do 8° ano B (manhã)
Alunos dos Ciclos 3 e 4 (noite)

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CAPÍTULO 1
RESPONSABILIDADE CIDADÃ E GESTÃO COMUNITÁRIA DOS RESÍDUOS
SÓLIDOS ORGÂNICOS: DA INVISIBILIDADE AO TRATAMENTO ADEQUADO
Neste capítulo será feita uma análise sobre resíduos sólidos considerando experiências
relevantes, e que valorizam, em especial, a compostagem. No que diz respeito à
responsabilidade cidadã, serão descritas algumas experiências de gestão comunitária, a
primeira contempla a nível internacional (Índia e um panorama da Europa), seguida de
experiências da gestão de resíduos no Brasil, incluindo João Pessoa.
Nas últimas décadas, a busca por melhores meios de subsistência e qualidade de vida
tem promovido a migração de muitos habitantes do campo para os centros urbanos. Esse
aumento populacional vem acompanhado do aumento do padrão de consumo de produtos dos
mais diversos segmentos. Se por um lado, as pessoas adquirem novos hábitos de consumo, há
que se supor que adquiram também hábitos corretos de descarte de resíduos. No entanto, não
é o que se verifica em grande número de cidades brasileiras, nas quais, os resíduos são
depositados em “lixões” de forma inadequada, ou mesmo nas ruas, becos ou terrenos baldios.
Desta forma, muitos problemas urbanos gerados são de cunho socioeconômicoambiental, desde a desfiguração da paisagem até o comprometimento da saúde pública, por
meio do sub-emprego e propagação de doenças, incluindo grande número de crianças como
catadores informais, e os impactos na água, solo e ar, demandando mais recursos financeiros
para a mitigação, correção ou eliminação destes impactos.
Sabe-se, então, de maneira sucinta, quais as principais consequências do descarte de
resíduos de maneira inadequada e sem obedecer aos critérios das políticas públicas que tratam
sobre o tema em âmbito nacional e, para que seja possível estabelecer um estudo sobre a
dinâmica que envolve o fluxo de descarte de resíduos faz-se necessário que a seguir citemos
uma definição conceitual de “Resíduo”, objeto deste estudo.
Resíduo sólido é todo aquele material produzido por atividades humanas, ou animais
em alguns casos, que freqüentemente é descartado como algo indesejado ou inútil. Pode-se
dizer que se trata de uma massa heterogênea de materiais descartados pela comunidade
urbana, da mesma forma os rejeitos pela agricultura e pela indústria (SANTANA, 2005). As
comunidades rurais também os geram, mas de uma forma geral, reaproveitam mais os
resíduos orgânicos, em virtude das criações de animais.
As principais fontes de resíduos sólidos são provenientes de atividades domésticas,
comerciais, industriais e agrícolas. Nos termos da lei, rejeitos e resíduos sólidos também são

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conceitos distintos. Conforme consta do inc. XV, do art. 3º, da Lei nº 12.305/10, a definição
de rejeitos é mais restrita e refere-se aos resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as
possibilidades de tratamento e recuperação, não apresentem alternativa além da disposição
final ambientalmente adequada, ou seja, a distribuição segura e ordenada em aterros.
Os rejeitos domésticos e os rejeitos comerciais, às vezes, são considerados juntos
como “Rejeitos Urbanos”. Já os processos industriais produzem rejeitos sólidos e ou semisólidos e podem ser explosivos, tóxicos ou radioativos. Indústrias de Processamento Químico
produzem rejeitos orgânicos ou inorgânicos, que são misturas com variações na concentração
de seus componentes.
No mundo, são descartados diariamente dois milhões de toneladas de resíduos
domiciliares, cifra que ao longo de um ano fornece um total de 730 milhões de toneladas
(WALDMAN, 2010). Todavia, observe-se que a maior parte dos resíduos sólidos urbanos
(RSU) advém dos descartes das moradias, categoria conhecida com Resíduos Sólidos
Domiciliares (RDO). Superando folgadamente os Resíduos Públicos (RPU) e as sobras do
comércio, este rejeito, também rubricado como lixo domiciliar, é o principal do meio urbano.
Waldman chama a atenção para os aspectos sociais (2010, p. 31),
quando o assunto em pauta são os resíduos, o conceito de sociedade suscita
múltiplas conjunturas propensas a impulsionar a reflexão. Dentre outras, a temática
sugere atenção para as interfaces como as conjunturas históricas, padrão
civilizatório, gostos culturais, fatores ecológicos, estilos de vida, contradições
sociais e exercício de poder.

A constituição física dos RDO apresenta três grandes frações: a fração orgânica,
úmida ou molhada, a fração inorgânica ou seca, e além destas, restos considerados inservíveis.
Segundo Waldman, (2010) a fração orgânica, úmida ou molhada, corresponde à maior parte
dos RDO, é basicamente composta por lixo culinário. Nela encontram-se: comida deixada no
prato, grumos, gorduras, grãos recusados, talos, sementes, cascas, folhas, palha, borra de café,
alimentos estragados, óleo de fritura, migalhas, ossos, sebo e ademais, restos de poda de
jardim, dejetos de animais, etc. A fração úmida pode ser reincorporada aos ciclos de matéria e
energia da natureza através da compostagem, processo que transforma a massa orgânica dos
RDO em um recompositor de solos agrícolas.
De acordo com Heitzmann Jr. (1999), “a grande maioria das cidades e dos municípios
brasileiros possui uma coleta regular de lixo doméstico, mas não necessariamente uma correta
disposição final de seus resíduos”. Ainda segundo o mesmo autor somente 18% de todos os
municípios realizam técnicas de manejo do lixo, pela incineração, reciclagem e deposição

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segura em aterros sanitários. Os outros 82 % depositam seus resíduos em locais irregulares,
denominados de lixões.
A constituição dos resíduos sólidos é o material não aproveitado em processo
produtivo, sendo caracterizado como restos de atividades humanas, e composto em sua
maioria por resíduos orgânicos. No entanto, de acordo com o Compromisso Empresarial para
Reciclagem – CEMPRE (2012), a composição do lixo no Brasil está dividida em: 51% de
matéria orgânica, 35% de recicláveis e 14% de outros, destes, destacamos os chamados
resíduos orgânicos, que compõem mais de 50% dos resíduos sólidos totais.
No entanto pouca atenção tem sido dada aos resíduos orgânicos produzidos nas
residências, escolas, restaurantes, empresas e pela própria natureza, sendo de origem vegetal
ou animal. Estes resíduos são também restos de alimentos (carnes, vegetais, frutos, cascas de
ovos), madeira, ossos, sementes e etc. Segundo dados do CEMPRE (2012), cerca de 4% do
lixo sólido orgânico urbano gerado no Brasil em 2010 foi reciclado, e 211 municípios
brasileiros têm unidades de compostagem, estando a maior concentração nos estados de
Minas Gerais (78) e Rio Grande do Sul (66) unidades. Isto demonstra a necessidade de se
aumentar estes espaços, e disseminá-los pelo restante do país.
Os resíduos orgânicos ao se biodegradarem produzem lixiviado e gases, sendo o maior
percentual de metano, de maneira a contribuírem gravemente para a poluição ambiental. Por
outro lado, a compostagem que é o processo de decomposição biológica da matéria orgânica
presente no lixo, por meio da ação de microorganismos existentes nos resíduos, em condições
adequadas de aeração, umidade e temperatura, pode contribuir sobremaneira para a
diminuição de impactos negativos para o meio ambiente. Segundo o CEMPRE (2012), o
processo de compostagem pode resultar em adubo de alta qualidade, na proporção de 500
quilos de composto orgânico por cada tonelada de lixo doméstico.
O Relatório do Banco Mundial para a América Latina, realizado em 1990
(PROIN/CAPES; UNESP/ICGE, 1999) já apontava a Região Nordeste do país como aquela
que pratica a disposição de resíduos mais inadequada para a conservação da natureza e
qualidade de vida das pessoas. Acredita-se que esse cenário pouco tenha mudado nos dias de
hoje, pois é possível verificar-se in loco a quantidade de lixo acumulado de forma
desordenada em muitos pontos das maiores cidades nordestinas.
Segundo a última versão do documento Panorama ABRELPE (2011), os municípios
brasileiros destinaram os resíduos coletados conforme representação abaixo.

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Gráfico 01: Deposição de resíduos sólidos pelos municípios brasileiros
Fonte: Pesquisas ABRELPE 2010 e 2011.

Sendo que, conforme termos percentuais houve um discreto aumento na destinação
final ambientalmente adequada de RSU, em relação ao ano de 2010. Em termos quantitativos,
no entanto a destinação inadequada cresceu 1,4% isto representa 23,3 milhões de toneladas de
RSU dispostos em lixões e aterros controlados.
Desta maneira, destaca-se a representatividade de trabalhos e estudos voltados para
uma melhor adequação da gestão dos resíduos sólidos no Brasil. No Gráfico 02, apresenta-se
a composição gravimétrica média dos RSU coletados no Brasil, de acordo com o resultado
das Audiências e Consulta Pública para Conselhos Nacionais, citado pala ABRELPE (2012).

Gráfico 02: Composição dos resíduos sólidos nos municípios brasileiros
Fonte: ABRELPE (2012).

A Tabela 01 permite observar a participação de diferentes materiais na composição
total dos RSU. Esta composição, no entanto, mostra-se de maneira bastante diversificada nas
diferentes regiões, estando diretamente relacionada com características, hábitos e costumes de
consumo e descarte da população local.

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Material

Participação

Quantidade (t/ano)

Metais

2,9%

1.610.499

Papel, Papelão, TetraPak

13,1%

7.275.012

Plástico

13,5%

7.497.149

Vidro

2,4%

1.332.827

Matéria Orgânica

51,4%

28.544.702

Outros*

16,7%

9.274.251

Total
100,0%
55.534.440
Tabela 01: Participação dos Materiais no Total de RSU Coletado no Brasil
Fonte: Pesquisa ABRELPE 2011 e Plano Nacional de Resíduos Sólidos - Versão pós Audiências e Consulta
Pública para Conselhos Nacionais (Fevereiro/2012)

(*) OUTROS - Incluem-se:
 rejeitos inertes de difícil reciclagem (entulho, por exemplo);
 lixo hospitalar;
 outros resíduos domésticos variados (óleos, lubrificantes, tintas, pesticidas, etc).
Na análise da tabela 01 pode-se observar que grande quantidade, cerca de 31,9%, do
lixo produzido no Brasil é potencialmente utilizável para reciclagem, soma-se a isso a
estimativa de produção de resíduo orgânico, 51,4%, que se presta a ser transformado em
composto, o que diminuiria significativamente o volume de material que vai para os aterros
sanitários, aumentando dessa forma o seu tempo de vida.
No que diz respeito à coleta seletiva no Brasil, dos 5.565 municípios, 3.263 (58,6%)
indicaram a existência de iniciativas de coleta seletiva, em 2011, segundo a ABRELPE, como
pode-se observar no Mapa 01, vê-se ainda as quantidades destas iniciativas nas diversas
r

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