AVALIAÇÃO DE PÓS- OCUPAÇÃO: QUESTÕES E IMPLEMENTAÇÃO

  AVALIAđấO DE PốS-

OCUPAđấO: QUESTỏES E

  

IMPLEMENTAđấO

  

Tradução feita por Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, professor da Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília .

  Os Estados Unidos da América do Norte estão conduzindo o maior programa federal de construção desde a Segunda Guerra Mundial, edificando cerca de 160 novos tribunais, ao custo de 10 bilhões de dólares. Depois que cada um dos projetos é concluído, uma equipe faz a Avaliação de Pós- Ocupação – APO - através de surveys, conduzindo entrevistas e observando as atividades no edifício. Essas após são utilizadas para que sejam melhoradas as diretrizes contidas no U.S. Courts Desing Guide – Guia de Projeto para os Tribunais Norte-Americanos – um documento que se tornou fundamental para o diálogo entre juízes, arquitetos, gerentes de projetos e consultores no processo de planejamento dos novos tribunais (Administrative Office of the U.S. Courts, 1997).

  A companhia de entretenimento Disney avalia tudo, o tempo todo. Essa companhia estuda a experiência dos seus clientes enquanto eles usam seus parques e outras atrações, monitora o relacionamento entre decisões críticas de projeto e seu desempenho – tais como os aspectos da Rua Principal dos seus parques: quão larga deve ser para que todos se sintam confortavelmente 1 entremeados nas atividades da rua, durante os períodos de freqüência regular -,

  

Nota do Autor: “Gostaria de agradecer a Bill Bordass, Arza Churchman, Joanne Green, Martin

Symes, e Richard Wener por seus ponderados comentários. Uma parte deste material foi

apresentada num formato diferente no Simpósio sobre Avaliações de Desempenho de Edifícios:

As práticas Correntes e em Desenvolvimento nos Programas de Avaliações de Pós-Ocupação,

realizado pelo Conselho de Recursos Federais (Federal Facilities Council), em Washington, DC,

2 em março de 2001".

  Título Original: Postoccupancy Evaluation: Issues and Implementation. Capítulo 20 do livro além de registrar o desempenho de milhares de materiais e produtos. O resultado é que suas equipes de engenharia industrial podem transformar rapidamente objetivos de projeto em parâmetros físicos. Como resultado, eles têm-se tornado parceiros de enorme importância, formando um departamento denominado Imagineering – algo como “Imagenharia” – no trabalho de planejar e projetar novas soluções (Weis, comunicação pessoal, 1999).

  Um grupo de pesquisadores ingleses, na área de arquitetura, e de cientistas na área de edificações, reuniram-se em torno da publicação Building

  Services Journal para apresentar 4 avaliações por ano, de edificações [de

  escritórios e negócios] inovadoras quanto à sua sustentabilidade. Os edifícios escolhidos tinham seus respectivos projetos publicados na revista no mesmo período em que começaram a funcionar, sendo avaliados 3 anos depois. Cada avaliação envolvia questionários dirigidos aos usuários, bem como a auditoria técnica do consumo de energia e do desempenho geral do edifício. Esses pesquisadores desenvolveram um conjunto progressivo de medidas e padrões para as suas análises, sendo que o desempenho de edifícios individuais era relatado no contexto de resultados obtidos numa amostra mais ampla de edifícios similares (Cohen, Standeven, Bordass, & Leaman, 2001a).

  A Avaliação de Pós-Ocupação desenvolveu-se a partir de uma extraordinária confluência de interesses entre cientistas sociais, projetistas e planejadores ao longo dos anos 1960 e 1970 (sobre isso, ver Friedman, Zimring, & Zube, 1978; Preiser, Rabinowitz, & White, 1988; Shibley, 1982). Robert Bechtel estima que até os dias de hoje mais de 50.000 APOs foram completados; numa busca pela Internet, via Google, trouxe à tona nada menos de 2.700 sites que fazem a menção à frase postoccupancy evaluation. Enquanto muitas APOs são conduzidas como estudos acadêmicos, numerosas agências públicas desenvolveram seus próprios programas de APO, tais como o U.S.

  General Services Administration, Administrative Office of the U.S. Courts, U.S.

Department of State, U.S. Department of Commerce, U.S. Postal Service, Public

Works Canada, Califórnia Department of Corrections, State of Minnesota, the government of New Zealand, e muitos outros. O Califórnia Department of General Servicesestá iniciando um programa chamado IANUS, que liga a

  avaliação dos edifícios com a prestação de serviços públicos, dando foco na especificação de indicadores que mostrem a diversidade de interesses e perspectivas relacionadas aos diferentes atores, nas avaliações do ambiente construído relacionadas a determinadas políticas públicas (Symes & Robbins, 2001). O U.S. National Research Council’s Federal Facilities Council (sic) recentemente conduziu um simpósio sobre APO no setor federal (Stanley & Little, 2001). E, apesar de não denominarem a seus programas como “Avaliações de Pós-Ocupação”, muitos clientes privados têm avaliado sistematicamente o desempenho dos edifícios onde têm interesses.

  As Avaliações de Pós-Ocupação têm sido conduzidas por um amplo conjunto de praticantes, visando objetivos enormemente diferenciados, e não há baseado em Weiss (1997), quando propôs, por sua vez, uma definição de avaliação do programa:

  “Avaliação de Pós-Ocupação é uma análise sistemática

do processo de produção de edificações ou de outras situações

projetadas, ou do desempenho dessas situações, tal como são

efetivamente usados, ou ainda ambos os aspectos, em comparação com um determinado conjunto de critérios

implícitos ou explícitos, com a intenção de melhorar o processo

ou as situações projetadas”.

  Há 5 aspectos-chave nessa definição:

  1. Por sistemático eu significo que a APO segue uma metodologia explícita, aceita pelos profissionais, desenvolvida para os objetivos da própria APO ou derivada do acervo disciplinar das ciências sociais, da ciência da construção, da arquitetura, do planejamento, ou de alguma outra disciplina. Essa metodologia por ser quantitativa ou qualitativa;

  2. Apesar de as APOs terem freqüentemente avaliado edifícios, também podem avaliar os processos de produção dos edifícios, inclusive seu planejamento, sua programação, seu projeto, a determinação de seu custo, o seu processo construtivo, o gerenciamento de suas instalações, equipamentos e sistemas prediais, seu reuso;

  3. As APOs avaliam os edifícios enquanto eles estão em pleno uso, por isso os avaliadores podem estimar o seu desempenho; a APO complementa outras práticas, tais como a programação arquitetônica, a confecção de modelos físicos, a avaliação de pré-ocupação, entre outras;

  4. Os padrões de desempenho nem sempre são explícitos; eles podem estar implicitados, compreendidos na própria metodologia utilizada na avaliação, mas são sempre tomados de forma objetiva – ou, pelo menos intra-subjetiva, no sentido de que são partilhados. Muitos avaliadores vêem o desempenho como sendo multidimensional, refletindo as necessidades ou as perspectivas de um determinado conjunto de interessados, tais como: a organização que ocupa o edifício, e as pessoas que o usam, ou que são afetadas pelo uso do edifício, ou por sua presença. (O relacionamento entre diferentes critérios de desempenho é um aspecto crucial das APOs, e ocorre quando se tenta entender e conciliar os custos de construção com os custos dos tempo de vida útil do edifício, ou o custo de

  5. Eu reservo o termos Avaliação de Pós-Ocupação para estudos que são aplicados; apesar de os trabalhos de APO produzirem uma certa compreensão conceitual, e apesar de alguns pesquisadores denominarem alguns de seus trabalhos, claramente teóricos, como APO, isso somente contribui para tirar a clareza do que seja essa modalidade de avaliação, que essencialmente visa o melhoramento do ambiente construído. (Ainda assim, eu argumento que a Avaliação de Pós-Ocupação deva se basear em teorias acerca do funcionamento dos edifícios, e em teorias do aprendizado e da mudança organizacional; exploraremos esse ponto adiante).

  Este capítulo enfoca especialmente este último aspecto: como a APO tem contribuído para a melhoria dos edifícios e do próprio processo de produção de edifícios. Eu me concentro na distinção entre dois tipos de aplicações de APOs: nas avaliações que se destinam a dar suporte a um projeto específico (em geral o principal projeto dentre todos os que estão sendo coordenados, para uma edificação, ou um desses projetos complementares sob coordenação), versus as avaliações que têm como objetivo informar futuros projetos (Zimring & Reizenstein, 1981). Eu enfatizo esse último modo de “alimentar o futuro” [feed-

  forward, em contraste com feedback], um papel que tem as após, que não tem

  merecido, até agora, tanta discussão quanto o seu papel de suporte a projetos específicos (ver Horgen, Joroff, Porter, & Schon, 1996; Schneekloth & shibley, 1995).

  Eu dou uma particular atenção às potenciais dificuldades enfrentadas por grandes empresas ligadas à produção de grandes edificações, quando usam os recursos da APO para a aprendizagem organizacional. Dado que a indústria da construção civil é extremamente fragmentada entre muitos pequenos clientes, escritórios de projeto, consultores e empreiteiros, essas grandes organizações são relativamente pouco numerosas, e podem ter um impacto desproporcionalmente significativo na qualidade dos edifícios produzidos.

  ANTECEDENTES

  A seção a seguir oferece uma breve introdução à Análise de Pós- Ocupação. Discussões mais detalhadas podem ser encontradas em outras obras, como Friedman et al. (1978); Grannis (1994); Horgen et al. (1996); Kincaid (1994); Parshall & Peña (1983); Preiser, Rabinowitz, & White (1988); Preiser & Schramm (1997); e Shibley (1982).

  HISTÓRIA, TERMINOLOGIA, OBJETIVOS E MÉTODOS

  A Avaliação de Pós-Ocupação desenvolveu-se inicialmente como o numa ampla frente constituída por cientistas sociais, projetistas e planejadores, interessados em compreender a experiência dos usuários, bem como na inclusão daquele “cliente-que-não-nos-paga” (Zeisel, 1975). As primeiras Avaliações de Pós-Ocupação foram conduzidas por acadêmicos, que se concentraram nos exemplos que lhes eram mais acessíveis, tais como em habitações, dormitórios universitários, instituições de vizinhanças urbanas (Preiser, 1994). Ao longo dos anos 1980, muitas agências públicas estabeleceram formas mais estruturadas para a organização de informações e tomada de decisões em seus processos de produção de novas edificações. Na medida em que práticas como as da programação arquitetônica iam se tornando cada vez mais regulares e normatizadas, sendo aceitas rotineiramente, repartições como a Public works Canada, e o U.S. Postal Service consolidavam a avaliação de seus edifícios, definindo esta avaliação como uma nova etapa de administração e inteligência (Kantrowitz & Farbstein).

  Esse desenvolvimento da prática de APO ocorreu enquanto uma outra, a prática da avaliação de programas, também se expandia com rapidez. Campbell e muitos outros já vinham argumentando desde os anos 1960, que os programas públicos [de construção] podiam ser tratados como experimentos sociais, e que o uso de abordagens racionais, técnicas, poderiam contribuir – ou mesmo substituir – todo o desordenado processo político de tomada de decisões (Campbell, 1999). Um argumento similar foi aplicado à Avaliação de Pós- Ocupação, onde as declarações acerca do desempenho esperado, tal como contidas pelos programas arquitetônicos, podiam ser vistas como hipóteses, que a Avaliação de Pós-Ocupação poderia testar.

  Terminologia

  O termo Avaliação de Pós-Ocupação foi proposto para refletir o fato de que uma estimativa de qualidade somente pode ser feita depois que o cliente ocupou o edifício. Isso é colocado em contraste direto com alguns concursos de projeto, em que não há a consideração de edificações pré-existentes, ou que não se comprometem em avaliar a edificação vencedora, depois de construída e utilizada, bem como outros tipos de abordagens de avaliação, tal como a da engenharia de avaliação (value engineering), que opera a revisão de projetos antes mesmo de serem construídos. Ao longo dos anos, muitos teóricos e praticantes se viram numa situação de desconforto com o termo Análise de Pós- Ocupação. Seu significado literal parece sugerir uma avaliação feita depois que a edificação é abandonada pelas pessoas, bem como parece sugerir que se trata de uma avaliação pontual, feita num momento particular da vida da edificação. Friedman e outros (1978) propuseram termos tais como “auditoria ambiental” (environmental audit) ou “avaliação de edificação-em-uso” (building-

  in-use-assessment, Visher, 1996). Mais recentemente, os termos “avaliação de

  edifício” (building evaluation) e “avaliação do desempenho de edifício” (building

  McIndoe, 1996). Apesar da diversidade de sua prática, o termo Avaliação de Pós-Ocupação permanece em utilização universal por razões históricas, e eu o uso neste capítulo por razões de clareza.

  O Âmbito da APO

  Alguns pesquisadores têm argumentado que a APO é apenas um componente de uma abordagem para a tomada de decisão em projetos de arquitetura e urbanismo, que se baseia na informação e na negociação. Por exemplo, Bechtel tem enfatizado a importância da avaliação de “pré-ocupação” (Bechtel, em comunicação pessoal, março de 2000). Outros autores têm sugerido que a APO não pode ser discutida seriamente como uma prática em si, isolada, mas que deve ser considerada como um dos aspectos dos grupo mais amplo de abordagens que incluem o “fazer-o-lugar” (place-making, Schneekloth & Shibley, 1995) e a “arquitetura de processos” (process architecture, Horgen, Joroff, Porter, & Schon, 1999). Essas abordagens serão discutidas mais adiante.

  Tem-se registrado vários exemplos bem-sucedidos, onde a APO foi incorporada em amplos processos de programação arquitetônica, de análise e desenvolvimento de guias de orientação de projetos físicos, todos orientados pelas necessidades do usuário (Shibley, 1982). Por exemplo, o departamento de engenharia do exército dos E.U.A. iniciou um ambicioso trabalho de programação e avaliação de seus edifícios e espaços que resultou em 19 manuais de projeto destinadas a determinadas edificações, variando desde centros de arte até barracas de campo e estações de polícia militar (Schneekloth & Shibley, 1995; Shibley, 1982, 1985). Recentemente, a APO tem sido considerada parte de um conjunto de práticas voltadas à compreensão de critérios projetuais, à predição da qualidade de novos esquemas de projeto, à revisão de projetos completos, ao apoio do início das operações de uma edificação, e ao seu gerenciamento (Preiser & Schramm, 1997).

  MÉTODOS DA A.P.O.

  Na medida em que os métodos de APO se tornam mais sofisticados, pelo menos duas tendências gerais se tornaram aparentes: (1) os métodos se tornaram mais diversificados, e (2) métodos padronizados em “pacotes” aplicativos tornaram-se disponíveis.

  Grande Diversidade de Métodos

  Apesar de algumas poucas exceções, muitas APOs de uma primeira geração enfatizaram fundamentalmente a avaliação da satisfação do usuário, avaliações do conforto proporcionado pelo edifício, de sua funcionalidade, e dos comportamentos dos usuários, pelo uso de métodos de auto-relato, tais como As práticas mais recentes de APO passaram a concentrar-se na performance técnica dos diversos sistemas do edifício, no seu custo, e em outros fatores (Bordass & Leaman, 1996; Cohen, Standeven, Bordass, & Leaman, 2001a, 2001b; Leaman, Cohen, & Jackman, 1995; Raw, Roys, & Leaman, 1990). Recentemente, Judith Heerwagen sugeriu que a APO deveria empregar uma abordagem mais equilibrada, como numa tabela de compensações (balanced

  

scorecard), que considere aspectos como o desempenho financeiro da operação

  do edifício, o impacto do edifício nas atividades de negócios que abriga, a satisfação e aprimoramento funcional e pessoal dos trabalhadores nos seus ambientes, o impacto que ocorre no amplo círculo dos investidores, locatários e outros interessados no funcionamento do edifício (Heerwagen, 2001). Essa abordagem da tabela de compensações de Heerwagen será novamente discutida, adiante.

  O Desenvolvimento de Métodos Padronizados

  Na medida em que as técnicas de APO foram se desenvolvendo, desde um estágio que enfatizava o conforto e a satisfação dos usuários cotidianos, procedimentos mais padronizados e especializados foram delineados, aplicados e desenvolvidos, visando tipos específicos de edifícios, tais como escolas (Ornstein, 1997), estabelecimentos assistenciais de saúde (Carpman & Grant, 1993), ambientes para crianças (Moore, em comunicação pessoal, julho de 2000), ambientes de comércio (Foxall & Hackett, 1994; Underhill, 1999), habitações (Anderson & Weidemann, 1997), e prisões e penitenciárias (Wener, Farbstein, & Knapel, 1993; Zimring, Munyon, & Ard, 1988). Não surpreende que as avaliações dos ambientes de trabalho dos executivos e repartições tenham se avolumado, conformando uma das mais ativas áreas de trabalho em APO (Brill, Margulis, Konar, Buffalo Organization for Social and Technological Innovation, & Westinghouse Furniture Systems, 1984; Cooper, 1992; Raw et al., 1990; Spreckelmeyer, 1993; Stokols, 1988; Wineman, 1996). Vischer, por exemplo, criou um instrumento de survey padronizado para ser usado em populações usuárias de edificações em pleno uso, que avalia auto-relatos de satisfação, conforto e produtividade (Vischer, 1996).

  Alguns pesquisadores também desenvolveram métodos padronizados para avaliar a performance técnica de edifícios, como no caso de sua performance térmica e de uso de energia. Os estudos PROBE (“Revisão de Pós- Ocupação de Edifícios e sua Tecnologia”, ou Post-occupancy Review of

  Buildings and their Engineering) descritos acima empregam um questionário

  padronizado e técnicas de avaliação rigorosas (Bordass, Bromley, & Leaman, 1995; Cohen e outros, 2001; Leaman e outros, 1995). A equipe PROBE conduziu 18 avaliações de edificações que foram publicadas no Building

  Services Journal, como exemplificações de edifícios tecnicamente inovadores.

  Aproximadamente 3 anos depois desses trabalhos, e equipe retornou aos de sua utilização, e ainda monitorou o desempenho dos sistemas de aquecimento, de ventilação, de condicionamento do ar, de registro do uso de energia, conduziram testes relacionados à barometria (pressure tests) em diferentes ambientes, entre outras medidas. Os critérios de avaliação são parte dos métodos de um conjunto de métodos padronizados, que permitem à equipe fazer ligações entre o projeto dos edifícios e suas conseqüências. A equipe PROBE chegou a identificar um conjugado de variáveis que são boas preditoras de satisfação por parte do usuário, bem como de sua produtividade auto- relatada. Por exemplo, eles descobriram que os leiautes de andares que permitem maior acesso às janelas, bem como maiores níveis de controle pessoal sobre os níveis de iluminação, de aquecimento [ou de refrigeração], e de ruído, são fortes preditores de satisfação auto-relatada. Outros métodos de avaliação padronizada concentram-se em aspectos mais específicos do desempenho dos sistemas técnicos da edificação, tais como o questionário de

  Survey Revisora do Ambiente de Trabalho (ou ROES, Revised Office

Environment Survey), que avalia a resposta dos usuários face à qualidade do ar

  no interior da edificação (Raw, 1995, 2000). Esse procedimento ROES concentra-se nos relatos dos usuários acerca de saúde, conforto e produtividade. Trata-se de uma escala que tem sido usada repetidas vezes e que consolidou normas para a sua aplicação.

  MODELOS DE AVALIAđấO DE PốS-OCUPAđấO Os metodólogos de APO vêm oferecendo um grande volume de modelos conceituais e metodológicos concernentes à avaliação. Por exemplo, vários autores têm enfatizado a importância de se articular diferentes níveis de APO com diferentes magnitudes de atividades desempenhadas e de recursos necessários (Friedman e outros, 1978; Preiser e outros, 1988). Em seu influente livro, Preiser advoga 3 níveis de APO: a) concisos estudos indicativos; b) APOs investigativas e mais detalhadas e; c) estudos diagnósticos que têm como objetivo correlacionar medidas ambientais com as respostas subjetivas dos usuários (Preiser e outros, 1988).

  Apesar de não existirem muitas teorias concorrentes acerca da Avaliação de Pós-Ocupação, muitos autores têm preferido usar fundamentações teóricas amplas, de forma a auxiliá-los na organização de seus trabalhos. Há alguns anos atrás, Friedman e outros (1978) sugeriram que as APOs deveriam adotar uma fundamentação teórica característica de sistemas abertos, que identificasse um “problema focal” e um sistema mais amplo que lhe desse suficiente contexto, baseado na consideração de inter-relações entre 5 elementos dos processos de produção dos espaços edificados: o próprio edifício, os usuários, o processo de projeto, o contexto ambiental proximal, e o contexto sócio-cultural. Preiser sugeriu que os critérios de APO deveriam se basear numa fundamentação que enfatizasse a habitabilidade, e mais recentemente fez um adendo a essa critérios de desenho universal (Preiser, 1994; Preiser & Schramm, 1997). Como mencionamos anteriormente, Heerwagen argumentou que uma tabela de compensações (balanced scorecard), tal como proposta originalmente por Kaplan e Norton (1996) poderia ser usada em uma APO (Heerwagen, 2001). A abordagem da tabela de compensações é um processo de várias etapas, onde uma visão organizacional e uma estratégia são traduzidas em objetivos e metas, com alcances quantificáveis. A tabela de compensações é “de compensações” na medida em que inclui tanto resultados financeiros quanto não-financeiros, e pode concentrar-se tanto em processos rotineiros quanto em performances acima da média. Heerwagen sugeriu que uma tabela de compensações aplicada à APO pode concentrar-se em vários resultados: financeiros, no processo de fazer negócios, no pessoal da empresa, no desenvolvimento profissional, nos investidores externos.

  Recentemente, vários autores fizeram críticas a determinadas abordagens do processo de produção de espaços edificados, bem como às abordagens de sua avaliação, sobretudo quando essas abordagens enfatizam a estandardização de normas e critérios, bem como um certo tipo de acumulação de informações. Em vez disso, argumentam, cada processo de tomada de decisões envolvido deveria ser socialmente construído pelos participantes. Por exemplo, Schneekloth e Shibley (1995) propuseram um procedimento dialogal para “produzir lugares” (placemaking), caracterizado por um processo de construção altamente interativo de projeto de edificações e de sua avaliação, cujo escopo incluiria o apoio a determinadas transformações em organizações e grupos organizados. Eles argumentam que os trabalhos de programação, de projeto e de avaliação podem ajudar em desenvolvimentos e transformações de organizações, mas somente no caso de os consultores genuinamente entenderem os valores e as perspectivas dos interessados – e não no caso das abordagens que impõem soluções de projeto preexistentes, formuladas em modelos de soluções tidas como corretas, a priori. Por exemplo, Schneekloth e Shibley elaboraram vários projetos para uma mesma instituição bancária. Cada um desses projetos apresentou significativas diferenças, pois tiveram diferentes participantes, que trouxeram para o processo de projetação suas expressões próprias em termos de necessidades, de valores, de relações de poder.

  Horgen e seus colaboradores adotaram um quadro teórico algo similar, em sua discussão de uma “arquitetura processual” (process architecture, em Horgen e outros, 1999). Eles criticaram a abordagem “técnico-racional” prevalecente na arquitetura e no design em geral, enfatizando que o processo de projetação pode ser visto como um jogo, em que o papel dos consultores e da avaliação é o de auxiliar os jogadores compreender o impacto que seus movimentos no jogo têm para cada um dos demais jogadores.

  Em resumo, ao passo que muitos pesquisadores estão contribuindo para o avanço do campo através de métodos especializados ou estandardizados, que enfatizam determinadas tipologias arquitetônicas e organizacionais, outros sugerem que a Avaliação de Pós-Ocupação se fará mais efetiva num enfoque de práticas discursivas, que se modifiquem de projeto a projeto.

  SUMARIZANDO

  Os procedimentos de Avaliação de Pós-Ocupação tornaram-se mais diversificados na medida em que suas aplicações foram demandadas. As APOs incluem, na atualidade, uma ampla gama de práticas, e se envolveram no grande debate acerca da produção do conhecimento e de métodos nas ciências sociais e nas humanidades. No entanto, como discutimos anteriormente, a APO é, por definição, uma prática aplicada, e ainda não se tem clareza se temos sempre obtido os saudáveis impactos pretendidos com esses trabalhos. Várias organizações de grande porte têm sustado seus programas de APO, e muitos projetistas têm desvalorizado sua utilização. As seções que se seguem concentram-se nos impactos que a Avaliação de Pós-Ocupação acarretou e, particularmente, nos papéis que assumiu nos processos de aprendizado de indivíduos e de organizações.

  APRENDENDO COM A A.P.O.

  A APO pode tanto beneficiar um determinado empreendimento de projeto quanto pode contribuir para uma base mais ampla de aprendizado ambiental (Preiser e outros, 1988; Shibley, 1982; Zimring, 1981). As seções seguintes discutirão esses potenciais impactos.

  Aprendizado Baseado em Projetos

  A Avaliação de Pós-Ocupação pode auxiliar no esclarecimento de importantes decisões acerca de um projeto em exame, ou pode contribuir para a programação ou para o desenvolvimento de um projeto subseqüente. Pelo menos 5 tipos de decisões baseadas em projetos emergiram conspicuamente nas práticas de APO: (1) ajustamentos finos; (2) diagnóstico de como ajudar numa situação problemática ou disfuncional; (3) decisão acerca de quando e como iniciar a expansão de possibilidades de uma tecnologia ou projeto existente; (4) decisão de como abordar uma questão programática de especial, estratégica importância para o projeto; (5) manutenção de patamares de qualidade, existentes ou ao alcance, através de programas de incentivo orientados para o desempenho.

  Ajustamento Fino

  A imediata experiência de um novo edifício pode apresentar um impacto significativo para a subseqüente satisfação dos usuários e da organização que o ampla e duradoura. A Avaliação de Pós-Ocupação tem sido utilizada como uma forma de entender como se dá a ocupação de uma nova edificação, e como se pode reduzir problemas de adaptação. Por exemplo, os gerentes de projetos no município de Santa Clara, Califórnia (county, unidade político-administrativa de Estados norte-americanos) já não suportavam torrentes de solicitações feitas por usuários quando havia mudanças em repartições públicas de um para outro prédio. Em alguns casos, as demandas surgiam algumas semanas de uso efetivo depois da mudança ou de término reforma, restringindo-se a solicitações de itens complementares de pequena importância (mobiliário, quadros de aviso, etc.); em outros casos contatava-se problemas mais graves, com a própria construção do edifício, ou mesmo ocorria de a organização ter sofrido alterações superficialmente consideradas durante a etapa de projeto e de construção – daí que o espaço precisava ser significativamente reconfigurado, para ajustar-se a demandas de uso bem diferentes daquelas inicialmente previstas em projeto. Essas solicitações vinham em uma seqüência aleatória, desordenada, e o gerenciamento de projetos, de construtoras e prestadores de serviços tornava- se de difícil controle. O county de Santa Clara contratou os consultores Cheryl Fuller e Craig Zimring para criar o que chamaram de “Survey de Resposta Rápida” (quick response survey), ou QRS, que teve como objetivo organizar e ordenar as prioridades dos usuários cerca de três meses depois da ocupação dos edifícios. Todos os usuários responderam ao questionário de apenas uma página, e os gerentes de projetos procederam a uma série de entrevistas e observações envolvendo todas as atividades em curso no edifício, em companhia do responsável por sua administração e de representantes das repartições da organização usuária. A partir desse trabalho, os gerentes de projetos elaboraram uma lista de demandas dos usuários, por ordem de prioridade, e novamente realizaram reuniões com os setores demandantes. A partir desse episódio, o Departamento de Serviços Gerais do Estado da Califórnia está desenvolvendo melhoramentos no QRS, com a construção de uma base de dados fornecidos por avaliadores, com ênfase nas sucessivas experiências de aplicação do instrumento de survey.

  APO como instrumento de Diagnóstico

  Ocasionalmente, um edifício torna-se objeto de reclamações e controvérsia; a Análise de Pós-Ocupação pode auxiliar no diagnóstico da fonte de problemas e na priorização de soluções. Por exemplo, a nova biblioteca pública da cidade de São Francisco foi uma celebrada realização arquitetônica quando foi inaugurada em 1996, mas não deixou de levantar uma forte controvérsia. Seu projeto criou polêmica desde o seu conceito inicial – enormes arranjos de computadores ocupariam os espaços tradicionalmente dedicados aos livros, uma decisão que acirrou os ânimos entre os membros de comunidade de biblioteconomistas e bibliófilos -, ao que se somou um volume que o usual encontrar os livros procurados, bem como da equipe de bibliotecários, que reclamou das dificuldades de lidar com o volume de materiais bibliográficos. Como resultado, o prefeito da cidade indicou uma comissão auditora que, por sua vez, recomendou a realização de uma Avaliação de Pós- Ocupação, que foi liderada, por sua vez, pela arquiteta Cynthia Ripley, e acompanhada por uma outra comissão de notáveis (blue-ribbon evaluation

  team), que incluía o diretor-geral do sistema de bibliotecas públicas de Los

  Angeles. Depois de conduzir grupos temáticos orientados por problemas (focus

  groups), reunindo pessoas da equipe da biblioteca e de usuários, com

  procedimentos de avaliação do uso do edifício, e de análise de seus registros de atendimento e funcionamento geral, a equipe encarregada dessa APO efetivamente encontrou um conjunto composto por um bom número de problemas sérios. A configuração adotada para os espaços tornava difícil a operação da biblioteca. Livros que deveriam estar juntos, muito relacionados entre si, encontravam-se espalhados por vários blocos do conjunto da biblioteca, devido ao sistema de catalogação adotado, e uma quantidade significativa de tempo e pessoal era empregada no trabalho de encontrar e recolocar essa variedade de livros e materiais, utilizando-se um procedimento notável por causar-lhes danos. Uma comunicação visual confusa associava-se a um leiaute prolixo tornava o conjunto da biblioteca um labirinto, onde era difícil localizar-se e encontrar os caminhos através dela. Apesar de o relatório final fazer elogios à qualidade de alguns aspectos da arquitetura da biblioteca, definiu-se um grande programa de recuperação, em várias fases, para reorganizar o leiaute interno, os fluxos de público, a guarda de livros e a programação de vários espaços interiores, atingindo um custo de U$ 30.000.000,00 (Flagg, 1999; Ripley Architects, 2000).

  Em um outro exemplo, a firma de arquitetura Hugh Stubbins e Associados estava recebendo reclamações acerca de um edifício de escritórios recentemente ocupado, que havia sido projetado por ela. Os escritórios eram mal-ventilados e quentes, em especial. A firma conduziu uma Avaliação de Pós- Ocupação e descobriu que toda a rede de dutos de ar condicionado nunca for a conectada aos equipamentos de ventilação, aquecimento e refrigeração. Feita essa “descoberta” prontamente solucionaram o principal problema apresentado (Zimring & Welch, 1988).

  Em Ottawa, um grupo de trabalhadores em escritórios mobilizou-se e denunciou um grande edifício público, declarando que o edifício estava “doente”. O Departamento de Obras do Canadá moveu-se em resposta, e contratou uma avaliação realmente ampla e detalhada, que incluía pormenorizados questionários, procedimentos de monitoração da qualidade do ar, da iluminação, dos materiais, etc. O estudo mostrou que as reclamações dos usuários eram justificadas: a qualidade do ar era ruim, sobretudo em muitos lugares em que os compartimentos haviam sido seguidamente repartidos, sem que se observasse a distribuição inicial dos pontos de fornecimento de ar. Muitos outros aspectos ambientes, desde leiautes confusos, até a deficiente manutenção e administração do edifício, e outros fatores organizacionais (Vischer, 1996).

  Usando a Avaliação de Pós-Ocupação para Testar Inovações

  A Avaliação pode ser decisiva se desejamos considerar se soluções inovadoras para uma edificação, para seus sistemas prediais, para seus novos componentes, podem ser aplicadas de forma mais ampla. Por exemplo, o Departamento de Recursos Naturais – DNR -, do Estado de Minnesota, E.U.A., recentemente mudou seus procedimentos quanto à gestão ambiental. Em vez de organizar seu pessoal por área disciplinar, passaram a usar um sistema de matriz de gerenciamento, onde as decisões passaram a ser tomadas por equipes de composição multidisciplinar, organizadas agora por ecossistema. Esse departamento está criando novos centros regionais que incluem biólogos para pesquisas em campo, especialistas nas condições do ar e da água; esses centros foram concebidos para incentivar o trabalho multidisciplinar, e para serem sustentáveis, buscando atingir metas de baixo consumo de energia e de baixo impacto ambiental. O DNR contratou uma equipe universitária liderada por Julia Robinson para avaliar dois desses projetos iniciais. Apesar do sucesso inicial dos centros, essa equipe fez diversas recomendações para que se ajustassem melhor a determinadas demandas de suas atividades, que perduraram como linhas de orientação para os futuros projetos. Quando o DNR decidiu construir um terceiro centro. E solicitou recursos dos cofres do Estado de Minnesota, a Avaliação de Pós-Ocupação feita pela equipe de Julia foi incluída como um anexo, obtendo-se a integralidade dos recursos solicitados para o novo projeto e contração, algo sem precedentes na história dessa organização. Os responsáveis pelo orçamento estadual explicaram à equipe do DNR que essa generosa concessão se deveu fortemente aos argumentos delineados pela Avaliação de Pós-Ocupação: ela demonstrava um avançada compreensão da proposta dos centros. Bem, apesar desse sucesso, o trabalho não deixou de evidenciar algumas tensões entre a equipe externa que conduziu a Avaliação de Pós-Ocupação e a equipe do DNR. Uma avaliação externa pode implicar em recursos especializados em APO, em um estudo de marcada objetividade, mas também pode ser vista como uma atividade que não responde a diversas necessidades das equipes clientes, de usuários desempenharão algumas atividades em decorrência da avaliação. Nesse caso específico, os funcionários e técnicos do DNR demonstraram sua preocupação com respeito às recomendações sobre a sustentabilidade dos centros. Esse foco de preocupação teve que ser trabalhado por uma outra equipe, contratada especificamente para criar diretrizes em um trabalho com a direta participação dessa equipe interna (Wallace, 2000).

  Utilizando a Avaliação de Pós-Ocupação para a Tomada de Decisões Estratégicas

  Algumas decisões de projeto são estratégicas no sentido de que elas influenciam muitas outras, tomadas posteriormente, dentro de um dado projeto. Essas decisões são, amplamente, alvos das Avaliações de Pós-Ocupação. Por exemplo, o Departamento Correcional da Califórnia – CDC – esteve a considerar a adoção da prática de compartilhamento de áreas para o preparo e para o consumo de alimentos por 2 celas (unidades habitacionais prisionais, de um modo mais amplo). Esse conceito levaria a uma economia de milhões de dólares dos cofres do Estado, mas provavelmente implicaria numa perda de controle sobre os presos, bem como em significativas dificuldades para a troca de pessoas entre celas. O CDC e a firma Kitchell CEM, que foi contratada para gerenciar o programa de construção de prisões, realizaram entrevistas com funcionários e observaram o funcionamento dessas unidades habitacionais prisionais partilhadas. Sua avaliação revelou que a partilha funcionava bem, e foi utilizada, repetida e aperfeiçoada nas novas prisões californianas (Fuller, 1988).

  Enquanto uma Avaliação de Pós-Ocupação como essa – e muitas outras

  • – centram seu foco no modo como decisões estratégicas alcançam um conjunto definido de objetivos – o que Argyris e Schon (1978) chamaram de “aprendizado em um só lance” (single-loop learning) – temos que as APOs também podem ser usadas para o exame dos objetivos em si mesmos, o que foi denominado de “aprendizado em dois lances” (double-loop learning) por Argyris e Schon (1978). Por exemplo, Zimring, Munyon, e Ard (1988) fizeram a avaliação de uma prisão inovadora na cidade de Martinez, Califórnia, onde os presos e os guardas passavam todo o seu tempo em pequenas unidades habitacionais prisionais que incluíam áreas para alimentar-se e para a prática de exercícios físicos. Nesse caso, a “decisão estratégica” consistiu em descentralizar serviços e alimentação, visitantes e educação para os presos, em vez de movê-los de um lado para o outro. O estudo inclui aspectos de “aprendizagem de um só lance” – qual o desempenho da prisão quanto aos objetivos básicos de um alto controle dos presos e de um baixo custo de manutenção – bem como a avaliação de como uma organização menos estressante poderia auxiliar na mudança dos objetivos do encarceramento, recolocados em termos de reabilitação, em vez de simplesmente reforçar e restrição da liberdade e a punição severa do preso.

  Manutenção da Qualidade

  A Avaliação de Pós-Ocupação é, em alguns casos, usada para que se possa alcançar determinados objetivos de controle de qualidade. Por exemplo, a companhia farmacêutica Ciba-Geigy contratou a firma de arquitetura e engenharia HLW e a empresa construtura Sordoni Skansa com base numa espécie de aposta, uma interessante condição de risco: seus lucros líquidos

Mostre mais