Dissert.Mestrado_20-08-2002.pdf

  Universidade de Brasília Faculdade de Educação

  Mestrado em Educação Tecnologias na Educação

  As Relações de Poder no Ensino Presencial e no Ensino a Distância

  Aloísio Fritzen Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em

  Educação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília sob a orientação do professor Dr Gilberto Lacerda santos, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em

  Educação Universidade de Brasília Faculdade de Educação

  Mestrado em Educação Tecnologias na Educação

  

D i s s e r t a ç ã o d e m e s t r a d o

  As Relações de Poder no Ensino Presencial e no Ensino a Distância

  

Au t o r :

  Aloisio Fritzen

  

B a n c a E x a m i n a d o r a :

  Professor Dr. Gilberto Lacerda Santos (orientador) Universidade de Brasília

  Professora Drª Raquel de Almeida Moraes (examinadora) Universidade de Brasília

  Professor Dr. Mauro Pequeno (examinador externo) Universidade Federal do Ceará

  

S u p l e n t e

  Professora Drª Vânia Lúcia Quintão Carneiro (examinadora suplente) - Universidade de Brasília

  

R A S Í L I A

  B

  R e s u m o

  propósito fundamental desta dissertação é analisar e compreender as manifestações de poder que ocorrem na relação professor/alunos no

O

  ensino presencial e no ensino a distância. O estudo revelou que no convívio humano as relações de poder estão presentes na evolução da própria história e representam a organização das pessoas na sociedade. O processo de formação dos indivíduos é influenciado pelo modelo social vigente e, ao mesmo tempo, as instituições de ensino oferecem possibilidades de resistência e transformação da realidade na qual está inserido. Para compreender o exercício do poder, mais especificamente na relação professor/aluno, foram pesquisados dez alunos e quatro professores do Sistema Faesa de Educação de Vitória no Espírito Santo. Os participantes integram simultaneamente atividades presenciais e a distância. As entrevistas, que antecederam à aplicação do questionário, foram realizadas com o objetivo de aproximar os participantes do tema. A partir das informações obtidas, constatou-se que as relações de poder entre professor e alunos predominam no ensino presencial. O espaço de sala de aula permite manifestações de poder mais explícitas. Os mecanismos utilizados pelo professor para exercer o poder sobre os alunos nesta modalidade de ensino estão regulamentos. O ensino a distância, por sua vez, não está isento desse controle e pode manifestar-se pela observação do número de acessos, tempo de conexão, tipo de resposta e links visitados. No ensino virtual, no entanto, o aluno organiza o tempo de estudo e escolhe as fontes de informação, tornando-se responsável pela aprendizagem.

  Abstract

T

  he main purpose of this dissertation is to analyse and understand the manifestations which occur in the teacher/student relationship in the traditional teaching and learning. This study revealed that among humans the relationship of power have always been present in the evolving of history itself and represent people’s organization in society. The upbringing of an individual is influenced by the social pattern of the time and Educational Institutions have offered the possibility of resistance and transformation of the reality in which this individual is placed. In order to understand the exercise of power more specifically in the teacher/student relationship, ten students and four teachers from FAESA, and educational institution located in Vitória, ES, Brazil, were interviewed. These participants take part in both the traditional teaching and learning and the online distant teaching and learning activities. The interviews, which were held prior to the application of the questionnaire, had the objective of bringing the participants closer to the object of the research. The results showed that the relationship of power between teacher and students is more evident in the traditional teaching and learning settings. In this modality of teaching, the setting, which is the classroom, allows, more explicit manifestations of power. The mechanisms used by the teacher to exert power over the students are based on the control through discourse, gestures and ruling. The online distant teaching and learning, on its turn, is not exempt from this type of control which can be done by checking the number of accesses, the duration of connection, type of answer in the educative practice can be either authoritarian or democratic depending on the pedagogical conception which is based on the political-ideological guidelines adopted by the educational system.

  Ag r a d e c i m e n t o s lhando para o passado, muitas pessoas e instituições mereceriam estar registradas neste espaço.

  O

  Com destaque, aos meus pais que não tiveram o privilégio de avançar nos estudos, o que não lhes impediu de olhar para o futuro e compreender a possibilidade de ser promissor aquele que sonha, idealiza, caminha...

  Ao professor orientador Profº Dr. Gilberto Lacerda Santos, pela constante exigência e apoio.

  À Professora Drª Raquel Moraes pelo acompanhamento e sugestões.

  À professora Hilda Lobo da Silva pela atenção e valiosas recomendações.

  À Sabrina Batista Garcia pela presteza e dedicação na organização dos textos.

  Em especial à minha família - Leane, Ismael e Sarah - que

sempre esteve próxima, ao compreender a ausência nos

momentos de recolhimento para o estudo.

  

“Ninguém é, propriamente falando,

titular do poder; e, no entanto, ele

sempre se exerce em determinada

direção, com uns de um lado e

outros do outro; não se sabe ao

certo quem o detém; mas se sabe

quem não o possui”. Foucault

  Índice Resumo Abstract Agradecimentos Lista de Gráficos Lista de Tabelas Introdução, Capítulo 1 O problema da pesquisa,

  1.1. Relevância do estudo,

  1.2. Objetivos,

  Capítulo 2

Aporte teórico,

  2.1. As relações de poder,

  2.1.1. O poder de resistência,

  2.2. O poder ideológico na relação educativa,

  2.2.1. A transposição do poder ideológico para a prática educativa,

  2.2.2. A relação educador x educando,

  2.2.3. A comunicação educativa,

  2.3. Relações interativas e o ensino a distância

  2.3.1. A utilização integrada das tecnologias

  2.4. Do poder transmissor à dinâmica dialógica

  2.4.1. Indicações para a superação da relação de poder no Ensino presencial e a distância

  Capítulo 3 Metodologia de pesquisa

  3.1. Coleta de dados

  3.2. Análise dos resultados

  3.2.1. Das entrevistas

  3.2.2. Do questionário

  3.2.2.1. Dados de identificação dos respondentes

  4.2.2.2. Das respostas dos pesquisados

  Conclusão Referências Bibliográficas Anexos

  Lista de Gráficos Gráfico 1

  Distribuição dos sujeitos por faixa etária

  Gráfico 2

  Distribuição dos sujeitos por escolaridade Distribuição dos sujeitos por disciplina que

  Gráfico 3

  estuda/ ministra

  55

  Lista de tabelas Tabela 1

  Distribuição dos sujeitos por atividade

  Tabela 2

  Distribuição dos sujeitos por faixa etária

  Tabela 3

  Distribuição dos sujeitos por gênero

  Tabela 4

  Distribuição dos sujeitos por escolaridade

  Tabela 5

  Distribuição dos sujeitos por disciplina que estuda/ ministra

  Introdução s relações de poder estão presentes no contexto histórico da humanidade, construídas pela experiência de vida dos diferentes grupos sociais.

A

  Para Foucault (1995), o poder é inerente às relações humanas e está associado ao modelo social vigente, representado pela concepção e organização da própria sociedade. Aspectos econômicos, sociais e culturais, somados aos meios de comunicação e à dinâmica das instituições de ensino, permitem identificar a incidência do poder nas relações sociais.

  De modo mais amplo, as relações de poder podem ser percebidas, no âmbito da sociedade, mas também estão relacionadas a situações mais específicas da formação social, como na escola. O poder, tanto na sociedade quanto na escola, neste particular, na relação que se estabelece entre professor e alunos, apresenta uma perspectiva de compreensão do funcionamento das instituições. Resende (1995), considera que o poder acompanha os indivíduos ao longo de suas vidas ao afirmar que “ter poder e submeter-se a ele cobrem, assim, as

  

pois todo grupo social pode ser considerado como um feixe de

relações de poder”. Ainda, segundo Ponce (1982), “o homem

enquanto homem é social, isto é, está inserido num ambiente

histórico do qual não pode ser separado”.

  A escola, na sociedade capitalista, tem se caracterizado por um modelo autoritário que gera o individualismo, a competição e a dependência, cujas conseqüências mais visíveis manifestam-se no bloqueio da criatividade, na distância entre teoria e prática e na restrição do espaço para a efetiva participação e construção da cidadania. Saviani (1995) reforça esta posição ao vincular o surgimento do Estado à legitimação da estrutura social em favor da classe dominante.

  “o poder era respaldado pela educação imposta pela classe proprietária e deveria cumprir as finalidades de ampliar e consolidar a condição de domínio dessa classe. Por isso, o ideal pedagógico já não poderia ser o mesmo à todos e, portanto, tem a missão de impringir aos dominados a aceitação das desigualdades” (Saviani,

  1995).

  Na busca de alternativas para o modelo atual de relações de educação. Diversas teorias e práticas buscam afirmar posições sobre conteúdos mais ajustados para uma sociedade reivindicada como ideal. No entanto, a ruptura com modelos autoritários ainda presentes na educação, demonstra uma caminhada lenta.

  O processo de transposição da lógica do sistema de educação para modalidades inovadoras, utiliza metodologias, conteúdos e discursos que justificam a relativização dos resultados, enquanto não forem acompanhadas de uma nova concepção de homem e de sociedade. No contexto escolar estão refletidas as dimensões e significados para a compreensão histórica e social do próprio homem. A educação é tomada como base responsável pela difusão do pensamento desejado pelo sistema de relações econômicas e sociais. Vale afirmar que o modelo educacional representa as relações manifestadas pelo ser humano na sociedade.

  Para Althusser (1985), a escola não está isenta do complexo jogo de poder. Por isso, participa, de forma subordinada, da estrutura das relações entre as classes, tornando-se socialmente determinada. A dinâmica das relações sociais integra as formas de organização, as práticas, os objetivos, os conteúdos de e das exigências político-ideológicas das classes que estão no poder.

  A prática pedagógica tradicional, segundo Freire (1999) se caracteriza pela transmissão de conteúdos e considera o aprender uma atividade de memorização ou repetição das informações fornecidas pelo professor, sofre críticas a partir das novas concepções de ensino e aprendizagem, que atribuem ao professor a função de agente facilitador, enquanto o aluno assume papel mais ativo no processo de construção de conhecimento.

  O processo de globalização contribui para impulsionar a utilização das novas tecnologias de comunicação nos mais diferentes campos sociais. Na perspectiva de ampliar o acesso à educação nos diversos níveis de ensino, emergiu de maneira vertiginosa a educação a distância, defendida, por um lado, como fator importante para projetar a democratização e o acesso ao ensino formal, e de outro, vista como mecanismo de industrialização e comercialização da educação. A expansão desta modalidade de ensino encontra apoio na estratégia desenvolvida por sistemas e instituições que se propõem oferecer educação a setores ou grupos da população que, por razões diversas, têm dificuldade de acesso ao sistema de formação presencial.

  Muitos educadores resistem à adoção de uma nova postura solicitada no contexto virtual, persistindo nos hábitos, regulamentos e controles praticados no ensino presencial. O grande desafio para o professor consiste em romper com a prática centralizadora que desencadeia relações alienadas e autoritárias, e passar a desenvolver um processo de formação baseado nas relações interativas.

  Na educação a distância o recurso tecnológico é acrescido ao processo de ensino e aprendizagem, somando-se aos componentes já inerentes ao ensino presencial, ou seja, professor, aluno e o conteúdo. A utilização do computador como recurso intermediário da relação professor/aluno, possibilita o acompanhamento além da sala de aula e implica mudança de mentalidade e de atitude do professor que atua como mediador, enquanto o aluno assume, com maior autonomia, a busca de conhecimento.

  As relações de poder despertam interesse no cenário educacional e seguidamente motivam debates com o objetivo de manifestam nas instituições escolares, especificamente entre professor e alunos Os sujeitos envolvidos tecem um conjunto de idéias na busca de explicação e no intuito de construir convicções em torno do tema. Diante da ausência de um conhecimento sistematizado e diretamente aplicável na atividade educacional, o presente estudo acena com a perspectiva de entendimento do exercício do poder que acompanha a relação professor/aluno e como esta relação de poder se manifesta no ensino a distância.

  Percorrer a dimensão do poder na busca de compreensão dos fatos que ocorrem no contexto escolar, justifica-se pela inserção desse tema nas diferentes áreas da organização social. A prática educativa reflete o desenvolvimento social, assim, torna-se dependente do sistema de relações que regem os indivíduos na sociedade. O presente trabalho visa estudar as formas e a repercussão do poder na prática educativa e compreender a manifestação desse poder através de comportamentos e atitudes dos educadores.

  O fenômeno do poder encontra espaço nas diversas formas de comunicação, nas imagens, expressões e na própria cultura que representa a soma de experiências de cada indivíduo. fenômeno, contribui para aproximar a compreensão dos fatos e das relações que se estabelecem no cotidiano de suas vidas e no mundo que os cerca. Situar a atividade dos educadores, inserida nas complexas relações inerentes à manifestação de poder e estimular a comunicação entre si para elaborar comportamentos inovadores, constitui também razão para o presente estudo. A reação e o comportamento manifestados por professores e alunos, somado à própria experiência ao longo da formação acadêmica e atividade profissional na área da educação, são aspectos que subsidiam a compreensão das relações de poder que envolve a prática educativa.

  As relações de poder construídas pela sociedade afetam a todos de algum modo. Também no espaço democrático, onde os resultados estão baseados na participação e no consenso, existe uma autoridade para tomar decisões. No âmbito político, assim ocorre com o governo eleito pelo povo. Na prática educativa os professores têm poder para definir seu plano de ação com determinada autonomia. A manifestação do poder na relação entre professor e alunos ocorre com uma dinâmica peculiar, na medida que a postura, atitudes e reações podem ser reavaliadas e redirecionadas para atender determinado contexto, que abrange o ensino presencial e o ensino a distância.

  O interesse pelo presente estudo fundamenta-se no pressuposto de que existe uma limitação por parte dos educadores para a compreensão do sentido e da influência do poder nas relações sociais e na prática educativa, representado na ação docente no ensino presencial e a distância.

  Identificados estes aspectos, a questão a ser abordada situa-se nas relações de poder que ocorrem entre professor e alunos no ensino presencial e em que medida também se manifestam no ensino a distância.

  A estrutura do trabalho, além da introdução e conclusão, segue com três capítulos: o problema da pesquisa, o aporte teórico e a metodologia.

  O primeiro capítulo é dedicado à delimitação do contexto da temática proposta e o desenvolvimento dos objetivos e argumentos que justificam o interesse pela compreensão das relações de poder.

  A fase seguinte do trabalho apresenta o marco teórico. Este capítulo está organizado em quatro partes, a saber: as relações de poder; o poder ideológico na relação educativa; relações educativas e o ensino a distância; do poder transmissor à dinâmica dialógica.

  As relações de poder, na visão de Foucault (1995) não estão concentradas apenas nas situações de confronto mas ocorrem de forma anônima em que não se sabe exatamente a sua origem. W eber (1970), define poder como probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências.

  No âmbito da educação, o poder está associado às normas, procedimentos e se manifesta nas relações interpessoais adotadas pela instituição de ensino. A escola, enquanto legitima as relações de poder da estrutura social em defesa dos valores e normas da classe dominante, também oferece espaço para a resistência e a mudança.

  A segunda parte, focaliza o poder ideológico na relação educativa e refere-se aos fatores subjetivos que revestem o processo de ensino e aprendizagem. Na visão marxista, a ideologia constitui-se de um sistema de pensamento, um modo de conceber o mundo, formando um conjunto de idéias. A ideologia não é neutra e tem o poder de mascarar e ocultar os verdadeiros propósitos da classe dominante. Para o educador é importante compreender o poder ideológico através do discurso, alunos. A educação, de certo modo, é influenciada pela sociedade, que fornece um modelo a ser desenvolvido, ou seria a educação que cria o modelo para a sociedade na qual está inserida? Para Gramsci (1984), a classe dominante exerce de forma hegemônica a função de monopolizar as instituições, especificamente a escola, para através dela, difundir sua concepção de mundo. A escola está encarregada de suscitar a colaboração e o consenso entre a classe dominada para impedir a circulação de contra-ideologias e minar as resistências. Paulo Freire (2000), explica que a educação utiliza a domesticação para reproduzir o modelo de sociedade vigente. Em sentido contrário, a educação baseada no processo dialogal de ensino, fortalece a visão transformadora da sociedade. Evidentemente, são dois modelos que apontam para metas opostas, direções contrárias, mostrando o conflito, entre a mudança e a permanência.

  Na abordagem das relações interativas no ensino a distância, Lévy (1999), admite a interatividade quando ocorre participação ativa do beneficiário no processo de transmissão da informação. As facilidades apresentadas para as relações interativas, utilizando como suporte os recursos tecnológicos, tornam-se aparentes ao julgar que a máquina possui o poder de a mensagem. A expansão do ensino a distância fortalece o argumento de que o professor passa a adotar uma postura mediadora. No entanto, pode ser verificado no contexto virtual que persistem as estratégias, regulamentos e as relações alienadas construídas no processo de ensino presencia.

  Segue a última parte do quadro teórico que trata da passagem do poder transmissor à dinâmica dialógica. A experiência na prática educativa tem revelado uma preocupação constante dos professores sobre alternativas metodológicas a serem utilizadas para melhorar o desempenho docente, e, conseqüentemente, a aprendizagem dos alunos. O desafio permanente do exercício da docência é estabelecer uma dinâmica construtiva de conhecimento, especificamente na relação com os alunos em sala de aula. A superação da simples transferência de conteúdos para o estágio de produção participativa de conhecimento requer a reflexão crítica, a curiosidade, o questionamento exigente, a incerteza e a ação, aspectos indispensáveis atribuídos ao professor. Esta disposição dinamizadora é a própria transformação do professor juntamente com os alunos. Por isso, todo professor que foi aluno um dia, se destaca na medida que, além de ser um bom professor, continua sendo um bom aluno.

  O terceiro capítulo apresenta os aspectos metodológicos da pesquisa, a caracterização da instituição pesquisada, a coleta de dados e a análise dos resultados. Propõe ainda, indicações pertinentes à superação das relações de poder no ensino presencial e no ensino a distância.

  Por fim, seguem as referências bibliográficas e, na parte dos anexos, o instrumento de coleta de dados.

  Capítulo 1

O problema da Pesquisa momento histórico evidencia profundas transformações sociais, econômicas e tecnológicas. No contexto educacional, segundo

O

  Demo (2001), a velocidade da informação provoca novas estratégias para a construção de conhecimento, voltada para o desenvolvimento pessoal e profissional visando atender a inserção no mercado de trabalho. Nesse ritmo acelerado de inovações, os ambientes de aprendizagem vêm sendo dotados de recursos tecnológicos, mesclando modalidades de ensino presenciais e a distância. Em ambas as modalidades, o professor tem um papel fundamental, não só porque é essencial como orientador, mas sobretudo porque torna-se ator importante na emancipação do aluno para a construção de conhecimento.

  Nesse processo de interatividade, a relação entre professor e alunos pode constituir-se de forma centralizadora, onde o professor assume a prática retransmissora dos conteúdos ou, também, podem ser desenvolvidas atividades dinamizadoras, tornando o aluno sujeito participante na busca de conhecimento.

  À luz dessas considerações, a origem do presente estudo cotidiano escolar. Como educador, a trajetória profissional permite vislumbrar os mecanismos que permeiam as relações de poder no contexto das instituições de ensino. Fortaleceu-se também a compreensão de que a dinâmica do poder na esfera escolar é inseparável da estrutura econômica e política da sociedade (Althusser, 1985).

  Para Freire (1992), as instituições de ensino são suscetíveis aos conflitos e diálogos e se caracterizam simultaneamente pela dinâmica transformadora e conservadora. Na prática educativa, os procedimentos que envolvem relações de poder são freqüentemente revestidos de cumplicidade e tratados de forma velada, como se a instituição tivesse reservas para expor ações de controle.

  Lidar com o fluxo do poder nas mais diversas formas no processo educativo, requer uma percepção acurada. A comunicação oral e gestual, aparentemente neutra e considerada de menor importância, pode explicitar interesses e comportamentos vigentes na estrutura organizacional da instituição de ensino.

  O enfoque sobre as relações de poder nos espaços deste estudo constitui-se, portanto, na investigação das manifestações de poder que o professor exerce sobre os alunos no ensino presencial e se existe transposição dessas relações para o ensino a distância.

  No sistema de educação, as relações que se estabelecem, têm sido foco de crescente atenção para estudiosos, visando compreender e qualificar o processo de ensino e aprendizagem. As transformações sociais provocam mudanças de comportamento, cujos reflexos podem ser observados no ambiente escolar. Neste espaço ocorre a possibilidade de reelaboração do pensamento e das ações através do questionamento e da reflexão. Esta interação desencadeia incertezas que, por sua vez, fortalecem o debate sobre padrões e metodologias vigentes.

  A relação entre professor e aluno não permite isenção ou neutralidade. O processo de ensinar passa pelo modelo que o professor utiliza para relacionar-se com os seus alunos. É nestes aspectos, no trato, na atitude e no comportamento diante dos . alunos, que o professor referencia o seu perfil docente É no âmbito metodológico que os professores evidenciam o caráter ou o caráter dialógico, que se caracteriza pela dinamicidade do processo de construção de conhecimento (Freire, 1999).

  A utilização de recursos tecnológicos possibilita diversificar as metodologias de ensino. Os alunos, por outro lado, manifestam-se pela aprovação ou inconformidade em relação ao desempenho docente que passa a ser avaliado permanentemente e que permite ao professor reelaborar os procedimentos em sala de aula.

  Esta perspectiva não é tão simples à medida que o professor transmite o conjunto de crenças e valores construídos ao longo de sua formação pessoal e profissional. Reforçadas pela pedagogia transmissora de conteúdos, sancionadas pelas próprias instituições e aprovadas pelos colegas de trabalho, as crenças e valores legitimam o processo de ensino centrado no professor. É muito provável que o professor acabe lecionando da forma que aprendeu, o que muitas vezes explica a intransigência e a dificuldade para romper com o ensino tradicional. Mais difícil torna-se a tarefa de mudança quando nem mesmo os professores acreditam na necessidade e na validade das reflexões, pois concretamente não alteram suas posturas metodológicas na esfera da sala de aula. Os educadores também possuem a tendência de cristalizar suas concepções originárias cujas teorias e aprendizagens foram construídas no percurso da própria formação, instalados como verdades difíceis de serem superadas.

  Os fatos que ocorrem atualmente são profundamente dinâmicos e trazem para o seio da escola situações que não devem ser ignoradas, verdades que não podem ser encobertas. Ao contrário, necessitam ser discutidas à luz dos conteúdos e de acordo com o nível permitido pelos alunos (Resende, op. cit.).

  Lidar em parceria com os recursos tecnológicos parecia resolver toda esta questão. No entanto, a persistência do professor em revestir os procedimentos de ensino com valores arraigados ao longo da formação, explica, em grande parte, as reivindicações sistemáticas feitas pelos alunos para que se instaure uma relação educativa mais interativa, dinâmica e contextualizadora.

  A modalidade de ensino a distância ajuda e facilita a tarefa do professor no processo de ensino-aprendizagem? Distante fisicamente, estaria o professor ileso da interferência que exerce sobre a atividade do aluno, que lhe é permitida no modo presencial de ensino? Os ambientes utilizados no ensino a distância favorecem a comunicação dialógica, através da cooperação e da colaboração entre professor e alunos? personalização dos roteiros de estudo, como síntese da aprendizagem flexível e aberta através das novas tecnologias interativas?

  Ou estaria o modelo virtual de ensino também sendo carregado com o perfil e as características que apóiam o professor no ensino presencial? A dificuldade para dar respostas às questões suscitadas e o interesse para despertar possibilidades de reflexão sobre o assunto constituem a razão principal deste trabalho.

  É nesta amplitude de idéias que se ampara a importância do estudo sobre o fenômeno das relações de poder. A abordagem desta temática converge para a área de educação, concentrando interesse especial nas manifestações de poder que decorrem das relações entre professor e alunos. Considerando que os educadores estão diretamente envolvidos com atividades que supostamente expressam o exercício do poder, o estudo tem a perspectiva e o intuito de contribuir na identificação e análise das práticas que constituem as relações de poder. Enfim, desenvolver a questão do poder que se manifesta entre professor e alunos no ensino presencial e se existe transposição do exercício deste poder para o ensino a distância, visa relevância em razão do benefício que as reflexões, ao longo do estudo, podem oferecer aos educadores dispostos a buscar, através da atuação educativa, melhorar a qualidade no processo de ensino / aprendizagem.

  O objetivo mais amplo consiste em analisar as manifestações de poder na relação professor/aluno no ensino presencial e a distância.

  Diante deste propósito e na perspectiva de compreender as relações de poder foram destacados os seguintes objetivos específicos:

  • Identificar as formas de manifestação do poder na relação professor/aluno no ensino presencial e a distân
  • Analisar a incidência de manifestações de poder que

  ocorrem entre professor e aluno no ensino presencial com relação ao ensino a distância.

  A partir dos objetivos, com base na investigação bibliográfica e na realização da pesquisa, pretende-se obter indicativos para compreender melhor a dimensão do fenômeno

  Capítulo 2 um desafio constante no contexto educacional, pensar na dinâmica que o poder assume na escola, as formas pelas quais se manifesta no trabalho

  É

  pedagógico, essencialmente na relação entre professor e aluno, uma vez que se torna instrumento de forte expressão para submeter e criar vínculos de obediência.

  Este estudo, não tem a intenção de concentrar a análise do poder sob o aspecto jurídico ou legislativo ou mesmo percorrer toda história da filosofia política. Ele visa delinear o poder inserido nas relações educativas. Para melhor compreensão restringir algumas evidências que cercam as relações de poder. É comum vincular o poder a uma imagem negativa, revestida por um sentido de imposição feita através de uma autoridade. Torna- se compreensível o fato que alguns queiram conquistá-lo ou combatê-lo e que o poder seja destacado ou temido. O que não é fácil de ser compreendido são as relações de poder numa categoria abstrata, algo que não se detém como uma coisa, portanto, impossível de ser palpado ou contido, condições que induzem para que essa forma de manifestação do poder muitas vezes não seja percebida ou seja subestimada.

  Habitualmente, são evidenciadas as características atribuídas ao poder, seus efeitos e modos de funcionamento, visando o seu fim, relacionado aos órgãos de coerção e repressão instituídos pelo Estado, deixando de mencionar a sua própria natureza. Também é comum pensar no poder sempre vinculado a alguém que o detém, uma pessoa, uma autoridade, um grupo ou uma instituição que determina seus limites e seu modo de articulação em detrimento de outros que obedecem. A representação do poder, segundo W eber (1970), tem sua origem em práticas sociais que envolvem os indivíduos e explicam o poder enquanto capacidade das pessoas imporem sua vontade a outras.

  Por mais isolada que se encontre a estrutura social, por mais simples que seja a organização da sociedade, de um grupo ou mesmo de uma instituição social, as relações de poder estarão presentes.

  Segundo Foucault (1995), o poder não é explicado apenas por sua função repressiva ou por inspiração do modelo econômico, mas permeia as relações do ser humano. Assim, não é observado somente nas situações em que ocorre o confronto, mas também nas relações anônimas em que não se sabe exatamente quem o detém. Não há necessidade de existir determinadas estruturas no sistema social para que o poder perpasse as relações pessoais ou grupais. A origem do poder se localiza no conjunto das organizações que se formam em todo corpo social.

  “Ninguém é, propriamente falando, titular do poder; e,

  no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui” (Foucault, 1995).

  O poder exercido nas instituições educativas através de apenas sob o aspecto da dominação. Para compreender melhor as ações provenientes das relações estabelecidas entre os envolvidos no processo educacional, é necessário buscar o entendimento mais elevado do conceito de poder. Na medida em que nos debruçamos a desvelar as formas negativas ou positivas do funcionamento do poder na escola, confrontado pelas próprias relações que determinam ou limitam o espaço de atuação, teremos uma compreensão mais ampla desse fenômeno.

  As relações de poder estão presentes desde o início da humanidade e se manifestam pelas interdições, regras e recomendações que determinam a organização social. Nas comunidades primitivas as relações de poder e o controle mútuo eram menos visíveis, decorrente da distribuição e troca de tarefas sem a submissão e exploração de alguns sobre outros.

  Baseadas na política da economia coletiva, as funções tanto de homens quanto das mulheres eram socialmente necessárias.

  Na idade média a estrutura social repousava sobre a autoridade e o poder da Igreja e do Império, isto é, no plano espiritual e temporal. Na idade Moderna, ocorre a secularização da consciência onde o recurso da razão prevalece sobre as explicações religiosas. Essa mudança aparece em diversas áreas

  A idéia de que todo poder emana de Deus, se contrapõe à teoria da origem social do pacto feito sob o consentimento dos homens. A origem e a legitimação do poder não mais vem da divindade, mas se encontra na força do próprio homem que o instituiu.

  No entanto, a sociedade atual, que envolve um complexo sistema organizacional, desenvolveu uma ampla rede que dissemina o poder nas relações. Em nossa cultura, o modo de produção capitalista orienta as relações que se estabelecem baseadas na dominação dos meios de produção centrados na minoria que explora através do trabalho e mantém o controle sobre a maioria que dispõe apenas da força de trabalho como condição de sobrevivência. Em decorrência do acesso desigual aos frutos do trabalho, surgem grupos sociais que decidem, dirigem e controlam as ações e outros que são submetidos à obediência.

  Embora haja inúmeros estudos e definições sobre poder, ele é genericamente caracterizado como relação pela qual os indivíduos ou grupos, através de uma força ou meios que permitem influir no comportamento de outras pessoas, dirigem produzir efeitos. Para que alguém exerça o poder é preciso que tenha um instrumento de força. A idéia de força repercute normalmente como violência física e coerção, mas na verdade estes são apenas alguns dos instrumentos para a incidência do poder. A força não significa necessariamente a posse de meios violentos de coerção, mas de formas que permitem a autoridade instituída obter a adesão das pessoas, grupos ou organizações, e, conseqüentemente, influir no seu comportamento.

  O poder não é um objeto, coisa ou propriedade, mas expressa uma relação e não se fixa em lugar determinado da estrutura social, porém, envolve os grupos que a formam. Existem com maior ênfase as práticas ou relações de poder e não um poder central. Na lição de Foucault (1995), “O que faz

  

com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente

que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato

ele pr

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