RODRIGO ALENCAR São Paulo 2012

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

  Rodrigo Alencar

  Porque a guerra às drogas? Do crack na política ao crack do sujeito

  MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL São Paulo

  2012 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

  Porque a guerra às drogas? Do crack na política ao crack do sujeito Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Social, sob a orientação da Prof.ª, Drª Miriam Debieux Rosa.

  RODRIGO ALENCAR São Paulo 2012

  BANCA EXAMINADORA

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  A todos aqueles que vagam perdidos nas noites sujas.

  Agradecimentos:

  À Miriam Debieux Rosa, por ter me acolhido no extinto núcleo de estudos nomeado Violências: sujeito e política. Também por sua paciência, atenção e carinho ao longo dos trabalhos para os quais me convidou.

  À Caterina Koltai por seus comentários, suas indicações e alertas. Ao Guillermos Milán Ramos, por suas indicações, seu interesse e valorização das alusões feitas no texto.

  À Isabel Tatit, por partilhar os sonhos, o lar, a paixão pela psicanálise e, principalmente, por aceitar meu esforço em lhe dar aquilo que não tenho.

  Aos membros do Núcleo Psicanálise e Política pelos debates e contribuições. À Marta Cerrutti, Miriam Pinho e aos demais que me ajudaram na escolha dos caminhos a serem percorridos neste texto.

  Aos membros do Coletivo Desentorpecendo A Razão, pelos debates, reuniões e conversas agradáveis. Sou grato por terem me ensinado novas maneiras de lidar com velhos problemas.

  À minha avó Lídia Radis, por me ensinar os limites da razão. Aos meus pais, por me apoiarem e sustentarem o estranhamento diante de meus interesses e sonhos. À minha mãe por me ensinar o gosto pela leitura e pelo desconhecido. Ao meu pai pelos seus sábios silêncios e respeito aos diferentes modos de enfrentar às adversidades da vida.

  À minha irmã Jéssica, por seu carinho, inteligência e companheirismo, que apesar de pouco ter lhe declarado, sempre notei em suas manifestações mais sutis.

  Ao querido amigo Bruno Muniz Reis por mais de dez anos de forte amizade mesmo com tantos períodos de ausência.

  Aos amigos feitos durante o mestrado. Ao Patrick, Bruno e Alekssei, pelas longas conversas dentre inúmeros cigarros e debates políticos e filosóficos.

  À Sandra Luzia Alencar, por ter acompanhado os primeiros anos de minha formação acadêmica e por compartilharmos as intempéries da dimensão política irredutível à vida.

  À Sandra Letícia Berta, por suas preciosas supervisões que muito contribuíram para as análises presentes neste texto. Aos amigos de supervisão, Carolina Cardoso Tiussi e Roberto Propheta Marques pelo partilhar de experiências.

  À Regina Facchini, por ter me transmitido a seriedade e implicação imprescindíveis ao fazer uso das palavras. Também a agradeço por ter se tornado grande amiga.

  Aos autores das obras literárias presentes neste trabalho. Somente com a ajuda destas leituras pude me descolar da paranóia, do horror e do embrutecimento que revestem a temática do crack.

  Ao CNPQ, pelo apoio financeiro que garantiu o desenvolvimento deste trabalho.

  

Porque a guerra às drogas?

Do crack na política ao crack do sujeito

RESUMO

As drogas, ainda que sob outras coordenadas simbólicas, ocuparam

diversos lugares nas mais variadas sociedades e agrupamentos humanos. No

entanto, desde a passagem do século XIX para o século XX, seu uso e

circulação tem sido objeto de acordos internacionais. Tais acordos

estabelecem aos países participantes medidas de combate e controle,

aplicadas por meio da mobilização de aparatos militares em suas políticas

sobre drogas. Esta mobilização opera por estratégias que entrelaçam os

campos da saúde e da segurança pública, provocando certo obscurecimento

entre quem deve ser tratado e quem deve ser combatido. Portanto, neste

trabalho, nos lançamos à tarefa de identificar as operações inconscientes em

jogo no discurso da proibição. Estabelecemos enquanto recorte de objeto o

destaque dado ao crack nas políticas de atenção às drogas por o

considerarmos o episódio mais recente sobre o tema no Brasil. Pautados nesta

compreensão do problema, recorremos aos aportes da teoria psicanalítica e às

suas interpretações sobre o funcionamento grupal, bem como aos recursos

políticos que operam no escamoteamento da divisão do sujeito. Deste modo,

analisamos que as políticas de combate ao crack negam o mal-estar inerente à

vida cultural, recorrendo à apresentação desta substância como uma ameaça

para o laço social. palavras chave: drogas, inconsciente, psicologia de grupo, psicanálise.

  

Why a war on drugs?

From crack in politics to the subject’s crack

SUMMARY

  Drugs , albeit under other symbolic coordinates, have always been in the

  

most varied places, societies and human groups. However, since the turn of the

th

  

19 century, drug use and trade has been object of international treaties. These

agreements urge the signatory countries to take measures to control and

combat drugs, through the mobilization of the military in their drug policies. As a

result of this strategy, the fields of health and public safety intertwine, causing

some blurring between who should be treated and who should be fought.

Therefore, this work is dedicated to the task of identifying the unconscious

operations at stake in the game of prohibition. We establish as object

delimitation the highlight given to crack in the drug policies, since it is the most

recent episode about the topic in Brazil. Based on this understanding of the

theme, we draw on both the contribution of the psychoanalytical theory and its

interpretations of group interaction, as well as the political resources that act to

camouflage the subject’s division. Thus our analysis concludes that the policies

to combat crack deny the discontent in the cultural life, insofar as they present

this substance as a threat to the social bond . Keywords: drugs, unconscious, group psychology, psychoanalysis.

  André Dahmer / www.malvados.com.br

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ................................................................................................. 11

  1. SUBSÍDIOS PSICANALÍTICOS PARA O ENTENDIMENTO DA

POLÍTICA E DA GUERRA. .......................................................................... 19

1. 1. Aspectos metodológicos da pesquisa psicanalítica sobre os

fenômenos sociais .................................................................................. 21

  1.2. A psicanálise e a política: diferenciações necessárias ................ 23

  1.3. Psicanálise e guerra às drogas ....................................................... 28

  

2. AS DROGAS NO SÉCULO XX: SUBSTÂNCIAS E HÁBITOS DELINEIAM

O CORPO DE UM INIMIGO ......................................................................... 32

  2.1. O julgamento de Noriega ................................................................. 40

  2.2. Políticas sobre drogas no Brasil ..................................................... 42

  2.3. O Crack: observações sobre uma política de enfrentamento. ..... 48

  2.4. Da guerra às drogas ao combate ao crack .................................... 50

  3. DROGAS E PSICANÁLISE: PROBLEMATIZAđỏES NECESSÁRIAS

PARA UM ESTUDO. .................................................................................... 53

  3.1. As satisfações substitutivas do mal-estar ..................................... 54

  3.2. Toxicomania e psicanálise .............................................................. 57

  3.3. Toxicomania e laço social ............................................................... 60

  4. O CRACK DO SUJEITO CONTRA A AMEAÇA IMPOSTA PELA

POLÍTICA DO CRACK. ................................................................................ 70

  4.1. O objeto na cena ............................................................................... 71

  4.2. O proibido travestido de interdito ................................................... 77

  4.4. O sujeito e seu refinamento às avessas ......................................... 85

CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................. 89

  INTRODUđấO

  As drogas, mesmo sob diversas coordenadas simbólicas, compõem parte indissociável da vida cultural. Seja em rituais xamânicos ou em momentos recreativos, o uso de substâncias que causam alterações sensoriais parece acompanhar a humanidade desde os seus primórdios. Assim, podemos considerar que cada sociedade atribuiu às drogas determinado espaço dentre as relações de seus membros.

  Portanto, na história de nossa sociedade, substâncias de potenciais oníricos, como o vinho, participam do registro de momentos fundamentais que compõem as bases do pensamento ocidental. O Banquete, escrito por Platão, detém passagens de conotação cômica, visto que o diálogo travado sobre Eros ocorre justamente num dia posterior a uma forte embriaguez. Sob um contexto que hoje seria ordinariamente denominado de ressaca, Pausânias dá início a um diálogo que parece contemporâneo:

  • Amigos, digam-me qual lhes parece a maneira menos nociva de beber. Devo confessar-lhes que a bebedeira de ontem não me fez bem. Na verdade, necessito de repouso. Passa-se o mesmo com vocês? Todos estivemos lá. Descobrir um jeito de suave degustação é do interesse de todos.

  Soou a voz de Aristófanes:

  • Acertaste, Pausânias, temos de descobrir o acesso a um

    bebericar raso. Sou um dos afogados de ontem.

  Erixímaco, filho de Acúmeno, todo ouvidos, tomou a palavra:

  • Vocês estão cobertos de razão. Falta-me ainda a opinião

    do número um. Agaton, aguentas ingerir mais?

    - De que jeito? Estou arrasado. (PLATÃO, pág. 31).

  Assim, se iniciam os debates sobre Eros, visto que entre os presentes, poucos suportariam outra jornada alcoólica, resta-lhes enaltecer e explanar as origens do amor e suas ascendências mitológicas.

  Portanto, o debate entre o vício e a virtude nos acompanha até os dias de hoje. De modo mais empobrecido, devemos reconhecer, hoje se alguém passa por alguma adversidade em decorrência do uso de uma substância, o diálogo sobre usar ou não usar possui um tom predominante, pouco se ouve, sobre quais maneiras este uso poderia ser mais qualificado e menos danoso ao corpo, assim como almejado por Aristófanes: “descobrir um acesso a um bebericar raso” (Ibidem).

  Estas transformações em nossas relações com as drogas integram um desenvolvimento histórico no qual o estatuto que conferimos ao termo droga, como uma substância externa que a ser introduzida em um organismo interfere no seu funcionamento, já pressupõe uma longa trajetória de construções e convenções sobre corpo, exterioridade e principalmente: funcionamento. Cabendo a este último a atribuição de normalidade.

  Assim, podemos afirmar que as drogas nem sempre foram um objeto regulamentado por um regime político. Conforme desenvolveremos neste trabalho, a história nos mostra que em determinado momento, as drogas passam a ser assunto central dentre as políticas de governo. Isto implica na demarcação de uma pauta no ato de governar e no foco que esta pauta obtém em determinados momentos.

  Das convenções internacionais sobre controle do ópio à proibição das chamadas drogas sintéticas, no que diz respeito à regulação das drogas, existem verdadeiros enodamentos de interesses comerciais e políticos. Sua proibição, assim como os conflitos que envolvem sua comercialização, mantém um constante Estado de Exceção sobre as classes mais baixas, em que o porte e a circulação destas substâncias podem ser motivos para a prisão ou até mesmo a morte. A luta contra o tráfico de drogas, bem como o pouco esclarecimento sobre o que demarca a diferença entre tráfico e uso mantém diversas práticas que podemos considerar como extremamente onerosas para a vida de uma população. Tortura, extermínio, encarceramento em massa e corrupção permeiam um cotidiano de violência e descaso, orquestrados pelo combate às drogas.

  Para que não repousemos no aturdimento destas constatações, se faz necessária esta pesquisa. Ao optarmos por pesquisar a articulação política que habita o contexto das drogas ilícitas, temos de considerar, dentre os mortos e encarcerados produzidos nesta guerra, que há uma razão e um consentimento que a sustenta. Portanto, ao lidarmos com esta operação, lançamos mão da teoria freudiana e suas investigações sobre a vida inconsciente. Deste modo, podemos desconfiar do apelo por controle e comedimento, bem como sua pretensão de administrar as mais variadas formas de gozar.

  Portanto, temos como proposta viabilizar uma leitura sobre o perigo das drogas e suas intercorrências até o advento do crack e suas repercussões. Através de materiais oriundos das Ciências Sociais, História e Relações Internacionais, esta pesquisa tem por objetivo delinear e dissertar acerca do discurso que circunscreve o crack enquanto ameaça para o laço social. Deste modo, o recorte feito por este trabalho pretende trazer elementos para elucidar a política de combate as drogas.

  Para percorrer este caminho, delineamos a seguinte questão: porque 1 determinadas substâncias com suas propriedades ditas “avassaladoras” receberam o status de inimigo público a ser combatido?

  Para a abordagem desta questão, iniciaremos com ponderações metodológicas sobre a psicanálise e sua articulação com a política e a guerra. Portanto, recorremos a teóricos que estabeleceram marcos para a compreensão do que é a guerra, como o general prussiano Carl von Clausewitz (2010). Também lançaremos mão do diálogo sobre a guerra estabelecido entre Freud e Einstein (1932), cotejando este diálogo com psicanalistas que discutem a história e os posicionamentos nesta relação, dentre os quais destacamos Plon (2002), Goldenberg (2006) e Rosa & Domingues (2010). Acreditamos que com esta fundamentação possamos localizar o modo como trataremos a questão da guerra às drogas, articulando a guerra e a política a partir da perspectiva psicanalítica, assim como tecendo considerações sobre a política de drogas internacional e seus combates.

  Depois de realizarmos as primeiras considerações necessárias aos aportes teóricos, nos implicaremos em uma melhor compreensão do que constitui a guerra às drogas. Deste modo, trabalharemos com um ordenamento de histórias surreais, gafes políticas, respostas truculentas, armadilhas e 1 claudicações presentes neste processo. Estes elementos foram levantados

  De acordo com a apresentação oral de Romanini, etimologicamente a palavra avassalador através de diversos trabalhos que concentram seus esforços em registrar, compreender e analisar as abrangências sociais, políticas, e históricas da

  

Guerra às Drogas (RODRIGUES, 2003; ARBEX & TOGNOLLI, 2004;

LABROUSSE, 2010; VARGAS, 2008; CARNEIRO, 2008).

  No entanto, é de suma importância que se considere o objeto desta pesquisa enquanto construído e refinado no próprio corpo deste texto. É com base nos meandros descritos no segundo capítulo que reconhecemos um material a ser tratado e analisado. Portanto, a questão sobre a qual nos debruçaremos diz respeito aos movimentos que se reproduzem a cada nova e “perigosa” substância.

  O problema, para além do seu entrelaçamento no jogo político e institucional encontra eco no silêncio e na repercussão do estabelecimento de

  2

  uma política do medo, na qual todos em contato com a questão das drogas são afetados. Portanto, diversos apelos se entremeiam nos pormenores das políticas de assistência social, saúde e segurança pública, tecendo um embromo. Neste processo, a seletividade entre aqueles que devem ser cuidados e aqueles que devem ser combatidos, se restringe ao planejamento de políticas públicas, muitas vezes, alheias às práticas executadas no cotidiano (ALENCAR, 2008).

  Portanto, ao condensarmos tal problemática, o foco de nossa atenção recai sobre a produção discursiva da ameaça do crack. A princípio, compreendemos esta ameaça sob a hipótese de um obscurecimento dos objetivos políticos em jogo, visto que o planejamento e a execução de ações sobre esta questão se constituem de modo lento e ineficaz.

  Deste modo, ao atentaremos para a racionalidade que compõe todo esse processo de consolidação e fortalecimento de tais políticas, buscamos o ponto de não sentido que passa a operar na racionalização de ações truculentas, assim como suas repetições irrefreáveis.

  Esta repetição trágica, também será abordada no capítulo dois, que 2 descreve como a transformação de determinadas substâncias em produtos

  Consideremos em contato com a questão das drogas, não só um usuário, mas um morador de um bairro no qual há um ponto de uso de drogas e este dado interage com a relação que ilícitos desarticula os circuitos simbólicos que poderiam sustentar esta prática.

  Assim, não focamos nossa compreensão sobre a gramática dos usuários com sua droga. A repetição metódica que está sob foco é a repetição da moral proibitiva. Desse modo, valorizamos o alerta feito por Conte (2003) de que a abstinência deve ser do analista, portanto, pensamos que para tratar da problemática do crack, é necessário que a moral proibitiva se abstenha, pois, na medida em que ações de repressão são empregadas sobre o uso de drogas, o primeiro resultado alcançado é mais violência e desamparo.

  Portanto, reforçamos que a repetição da qual tratamos é a repetição da terrorificação e da propagação do medo. Assim, classificamos os resultados deste modo de abordagem da questão das drogas com a mesma palavra usada para nomear certas situações decorrentes do uso de uma substância, a saber, uma viagem fracassada. As consecutivas tentativas de proibição, eliminação e repressão ao uso de drogas produzem com frequência,

  3 verdadeiras bad trips .

  Cabe reconhecermos que de modo geral, os problemas decorrentes do abuso de substâncias e da dependência química estão longe de obterem uma 4 solução , seja pela via farmacológica; pela via repressora, ou pelas diversas

  5

  vias de atenção psicológica ou psicanalítica (ROSA, 2006), as negociações entre o uso e abstinência costumam se configurar em um jogo erotizado (MELMAN, 1992) que conhece bem o fracasso. Já o comedimento, solução proposta por Freud frente ao gozo tóxico (FREUD, 1930) como um meio de aliviar o peso do mal-estar na cultura (1930), só pode se constituir enquanto tal, tendo por referência o que está do outro lado de seus contornos, a saber: o excesso. 3 Portanto, não é objetivo deste trabalho apontar quais os melhores e

  

Termo usado para nomear consequências adversas de uma incursão à fantasia que se

mostrou malfadada, talvez por isso acessível a uma nova tentativa, ou a uma nova a-

versão. Neste trecho há uma proposta de deslocamento do termo bad trip, usado enquanto

gíria para se referir aos efeitos aversivos e/ou persecutórios da droga, para o campo

político, dos efeitos violentos e marginalizadores da política proibicionista, considerando a

4 fantasia de um ordenamento social completo e eficaz.

  Atentemos para o deslizamento deste significante: solução enquanto resposta/ solução 5 química.

  

Quando me refiro a psicológico ou psicanalítico, também me refiro a aspectos sociais, visto mais promissores meios de lidarmos com a questão das drogas, mas apontar a modalidade de discurso que generaliza, classifica e descontextualiza os modos de uso destas substancias.

  Deste modo, este trabalho visa diferenciar e destacar a imagem do

  

crackeiro presente na mídia impressa e televisiva dos problemas dos usuários

  de drogas em suas particularidades. O que há de delicado nesta diferenciação é o lugar de onde se observa. Caso nossos objetivos fossem os problemas decorrentes do uso de drogas, discutiríamos as construções e articulações presentes na fala referente aos modos particulares de seu gozo, as formas de uso e obtenção da droga, assim como as relações sociais que entremeiam ou circulam em torno de seu uso. No entanto, este não é o nosso objetivo.

  Frente às questões a serem debatidas, é necessário certo rigor por parte do uso da teoria psicanalítica, bem como de seu diálogo com os saberes oriundos da sociologia, história ou relações internacionais. Assim, é de suma importância destacar que o objeto deste trabalho é recortado pela via da leitura e interpretação de dados históricos e sociais, com interlocução da psicanálise, buscando a dimensão inconsciente na motivação e nas declarações de guerra e combate, nas formações discursivas estruturadas abaixo.

  No entanto, não podemos realizar tais análises sem uma decantação de possíveis termos que nos sirvam de ferramenta para compreender o fenômeno pela lente da psicanálise. Esta preocupação nos levou a estruturar uma compreensão necessária do uso do termo toxicomania no campo psicanalítico. A justificativa da escolha de não utilizar este termo como eixo analisador neste tema é trabalhada no capítulo três. Neste capítulo focamos a categoria

  

toxicomania no esforço implicado em um posicionamento ético e metodológico

necessários para seguir adiante.

  Em seguida, para desenvolvimento de nossa proposta, obras oriundas da psicanálise servirão de referencial principal para demarcação e delineamento do objeto da pesquisa e consequentemente para a análise dos mesmos. Estas obras são: Psicologia das massas e análise do Eu (FREUD, 1923), O Seminário: livro 10 de Jacques Lacan (1962-1963) e O Seminário: livro 17, também de Jacques Lacan (1969-1970). Tal escolha está embasada em uma indagação sobre a eficácia do discurso de “perigo das drogas” e consequentemente do crack. Assim como trabalhado por Freud em Psicologia das massas e análise do eu (1923), trabalharemos com a noção de contaminação de pânico e sua relação com a angústia. O uso destes conceitos deslocados do contexto trabalhado por Freud exige um trabalho a ser feito nesta dissertação para pensarmos o efeito de contaminação de pânico para além das instituições militares e religiosas, transladando esta compreensão para um uso político mais amplo. Esta tarefa será realizada com a ajuda de reflexões presentes no texto “O mal-estar na civilização” (1930), visto que é no trabalho com este mal-estar que a psicanálise detém sua chave interpretativa do fato social.

  Concomitante à compreensão da contaminação de pânico consideraremos outro movimento, a saber, o da produção por meio de traços identificatórios de um inimigo em comum a um grupo social e a premissa de que este inimigo deve ser combatido. Tal inimigo, como é trabalhado nesta pesquisa, comporta as características de um mal epidêmico, de tal maneira que aqueles que ingerem, produzem ou portam determinadas substâncias tendem a ser tratados como doentes ou combatidos como criminosos.

  Assim como assinalado acima, este processo se desenvolve enquanto efeito de uma formação discursiva e é para compreensão desta formação que lançamos mão do Seminário: livro 17, o avesso da psicanálise (1969-1970). Tal obra nos serve para conceituação de discurso e elucidação da operação lógica do mesmo. Entretanto, vale ressaltar que este trabalho não irá operar com os quatro discursos expostos neste seminário. Dentre os quatro discursos abordados elegemos o discurso do mestre, que será utilizado para que possamos pensar o paradigma de controle e governabilidade operados pelas campanhas de prevenção e combate.

  Por último, O seminário: livro 10, a angústia (1962-1963), foi escolhido com a finalidade de subsidiar nossas análises sobre o estranhamento humano diante das substâncias psicoativas, bem como seu fascínio, interesse e até mesmo horror a uma verdade que habita a contradição inerente à condição de sujeito.

  Deste modo, nos empenhamos em apresentar análises que contribuam para uma qualificação do debate sobre as drogas, tanto no âmbito pertencente

  à psicanálise como o da política.

1. SUBSÍDIOS PSICANALÍTICOS PARA O ENTENDIMENTO DA POLÍTICA E DA GUERRA.

  Eu preferiria não.

  Herman Melville (Bartleby, o

  escriturário) Neste capítulo discutiremos a psicanálise em sua articulação com a política. Assim, recorremos a teóricos que firmaram marcos para a compreensão do que é a guerra. Em seguida abordaremos o diálogo sobre a guerra estabelecido entre Freud e Einstein (1932). Deste modo viabilizaremos maior esclarecimento metodológico para a abordagem da guerra às drogas, articulando a guerra e a política a partir da perspectiva psicanalítica.

  Consideremos a afirmação de Clausewitz na qual “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios” (1832, pág. 27). Para que possamos estabelecer alguma compreensão sobre esta frase recorremos à definição que nos remete à compreensão da política enquanto prática de negociação. Assim como afirmado por Lacan:

  qualquer um, a todo instante e em todos os níveis é negociável, pois o que nos dá qualquer apreensão um pouco séria da estrutura social é a troca. A troca de que se trata é a troca de indivíduos, isto é, de suportes sociais, que são ademais o que chamamos de sujeitos, com o que eles comportem de direitos sagrados, diz-se, à autonomia. Todos sabem que a política consiste em negociar e, desta vez, por atacado, aos pacotes, os mesmos sujeitos, ditos cidadãos, por centenas de milhares. (LACAN, 1963-1964, pág. 13).

  Justificadamente, Paul Laurent Assoun denomina o tópico sob o qual discute a noção de política segundo Lacan, por “A política ou o sujeito negociável” (2003, pág.24).

  Portanto, podemos retornar à nossa tarefa de compreensão do fato da guerra ser uma continuação da política por outros meios. Ao compreendermos a política como operação de troca e negociação, podemos considerar que a guerra tem sua função dentro da política como estratégia e prática que define qual será este poder de negociação. É por meio dos territórios conquistados que aquele que se favorece da guerra adquire maior poder nas relações de troca. Desta forma, aquele que se impõe pela via das armas pode ditar aos seus aliados e inimigos quais são os termos que regem as operações comerciais.

  Assim, o aforismo de Clausewitz é seguido pela seguinte afirmação “vemos, pois que a guerra não é só um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios” (1832, pág. 27). Portanto, o entendimento da guerra enquanto instrumento político fortalece nossa definição.

  Iniciado nosso trabalho de clarificação do entendimento da guerra, podemos adentrar com mais segurança na troca de cartas entre Einstein e Freud sob a pergunta “Porque a guerra?” (1932).

  Neste diálogo, Einstein, incumbido pela Liga das Nações a recorrer à ciência para pensar modos de evitar o conflito que se aproxima, convoca Freud para auxiliá-lo em sua tarefa. Pautado na premissa de que Freud porta “profundo conhecimento da vida instintiva do homem” (Einstein e Freud, 1932), Einstein busca esclarecimentos sobre quais maneiras possíveis, a agressividade humana poderia ser contida. Freud atende à tarefa não sem questionar suas premissas, lembrando seu interlocutor de que chamamos de paz algo que pode corresponder à dominação pela violência nua e crua, ou ao estreitamento dos laços libidinais entre determinado grupo, baseado em um ideal de eu que sustente tais laços, ainda neste caso, tal paz pode ser considerada profundamente questionável, visto que a submissão baseada em uma fé cega, trabalhada por Freud como uma hipnose (1921), pode levar aos atos mais violentos e vis com o objetivo de garantir o amor deste líder, ou de aprovar qualquer coisa que este o faça se eximindo da responsabilidade da escolha sobre seus atos. Assim como lembrado por Freud (1932), alguém que adere às decisões de atacar outra nação ou grupo, pode ter diversos motivos, uns declarados e outros latentes que talvez nunca venham à tona. Portanto, a guerra não deve ser vista como manifestação de ódio irracional, mas como meios para atingir determinados interesses nem sempre declarados.

  Então, consideraremos as práticas bélicas como estratégias permeadas de objetivos políticos que mesmo em tempos de conflito se mantém em processo de negociação. Onde alguns interesses de seus participantes podem ser declarados e outros não (FREUD, 1932; CLAUSEWITZ, 1832).

  1. 1. Aspectos metodológicos da pesquisa psicanalítica sobre os fenômenos sociais

  Sustentamos a metodologia deste trabalho na tese de Freud sobre a impossibilidade da total separação entre uma psicologia individual e uma psicologia social. Segundo o autor:

  O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que à primeira vista pode parecer pleno de significação, perde grande parte de sua nitidez quando examinado mais de perto. É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos instintuais; contudo, apenas raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. (FREUD, 1921).

  Portanto, cabe considerarmos que ao nos referirmos a um sujeito, temos de nos referir em diversos momentos, na sua relação com o Outro. Neste sentido, os exemplos citados neste trabalho, dizem respeito a um sujeito, social, político e principalmente divido por um inconsciente. Esta divisão tende a operar justamente nas formas de resposta ao que é compreendido pelo sujeito como apelo deste Outro. Assim como, sua parte no jogo, separações e escolhas.

  Apesar de não trabalharmos com casos clínicos, quando tratamos de um desenvolvimento histórico e político, não podemos esquecer que este desenvolvimento se dá pela ação humana. Deste modo, trabalhamos com alguns posicionamentos e declarações que nos permitem dissertar sobre como estes sujeitos se posicionam e articulam o jogo político. Frente a estas informações não é descabido identificarmos os mecanismos inconscientes que operam neste jogo.

  Portanto, em nosso objeto de estudo escolhemos um recorte que se apoia nas construções da linguagem apresenta na bibliografia levantada. Para reforçar tal posição metodológica, citamos Rosa e Domingues que afirmam:

  no caso da contribuição da psicanálise ao estudo do campo social e político, não lhe cabe a pretensão de esgotar, por si só, o fenômeno: cabe-lhe esclarecer uma parcela dos seus aspectos, ainda que uma parcela fundamental. Sem pretensão de substituir a análise sociológica, cabe à psicanálise incidir sobre o que escapa a essa análise, isto é, sobre a dimensão inconsciente presente nas

práticas sociais. (ROSA E DOMINGUES, 2010).

  Cabe lembrarmos que Freud, nunca recuou frente às questões sociais, além de se mostrar assíduo leitor de pesquisas etnográficas e antropológicas, adentrou ao campo político com certa cautela, sem bradar bandeiras ou desferir ataques a qualquer funcionamento econômico. Parece-nos, ao considerarmos suas discussões sobre os impasses no campo social, que seu compromisso e sua crítica tenham se pautado sobre o desenvolvimento civilizatório. Esta prioridade de pauta em Freud é considerada por nós como uma fé ou militância com relação a este desenvolvimento. Esta promessa moderna ocupa um importante espaço em sua obra. No entanto, apesar do compromisso de Freud com sonho moderno, e inevitavelmente com o mal- estar. Este não se furtou a solapar a crença de que o homem é senhor de si. Deste modo, ao deitar o desenvolvimento civilizatório em seu divã e apontar seu mal-estar, Freud leva a psicanálise até a política. Devemos ressaltar que isto é feito sem qualquer prejuízo de sua proposta: a clínica do inconsciente. bem longe do que seria um analfabeto político. Ao contrário, ao longo de sua obra, possibilitou que seu trabalho clínico, comportasse uma significativa dimensão política de seu tempo, fecunda de debates realizados até os dias de hoje.

1.2. A psicanálise e a política: diferenciações necessárias

  Para um melhor posicionamento da psicanálise, consideramos que, metodologicamente, os questionamentos por parte da psicanálise não surgem de lugar evanescente. Deste modo, Freud, ainda que sem erguer uma bandeira e entoar palavras de ordem, reconhece a impossibilidade de ficar indiferente à barbárie. Em sua carta a Einstein, explorando os impasses do ato de questionar a guerra, afirma algo que caracteriza seu método: “poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento”. Reconhecemos nesta passagem, um esforço de Freud frente à identificação da necessidade de alheamento ao objeto de pesquisa, desde o princípio imposto pela tradição acadêmica, tem seu lugar real denunciado pelo “suposto” (Ibidem), visto que nem mesmo uma máscara, enquanto representação egoica, pode significar indiferença. Aqui se exprime a contraditória relação da psicanálise com a ciência e seu compromisso com a condição de sujeito. Esta condição, assim como no diálogo entre Freud e Einstein, tende a ser interrogada pela política, ou, na ocasião deste diálogo: pela guerra.

  Portanto, temos de nos deter em um campo comum entre a psicanálise e a política. Para isso, lançamos mão de alguns autores que se implicaram a estudar esta relação. Segundo Plon (2002) podemos tecer uma analogia entre o campo da política e o campo da psicanálise por meio do trabalho com o tempo. Assim, o autor traça uma linha entre Freud, Maquiavel e Lacan, formando uma triangulação na compreensão do trabalho analítico como algo estratégico em relação ao tempo. Visto que a política tanto no que diz respeito ao poder público quanto no que diz respeito à clínica passa pela estratégia de agir no momento certo, no reconhecimento de um momento como propício à assunção de uma verdade. Sob o dito de “o Leão pula só uma vez” (PLON apud FREUD, 2002, pág. 183) e mais adiante com uma reformulação um pouco mais generosa via Marx “[o leão] nunca salta duas vezes do mesmo jeito” (pág.183), Plon fala sobre o momento certo de uma intervenção. Para um melhor esclarecimento, atentamos para a seguinte passagem, destacada da obra de Lacan por Ricardo Goldenberg:

  não é por se referirem a algum saber organizado que os práticos da política realizam uma ação suscetível de levá-los a serem considerados ou consagrados como 'grandes' pelo fato dessa ação vir a responder a uma espera ou acalmar uma angústia, e sim porque são portadores da verdade de um momento, ou de uma conjuntura, verdade de um momento que escapa ao saber estabelecido e que reconhecem como tal aqueles que se referirão a ela como uma idealidade (2006, pág. 55).

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