A INDÚSTRIA DE PROVEDORES DE SERVIÇOS LOGÍSTICOS NO BRASIL: ANALISANDO OFERTA E DEMANDA DE SERVIÇOS

  

A INDÚSTRIA DE PROVEDORES DE SERVIÇOS LOGÍSTICOS NO BRASIL: ANALISANDO

OFERTA E DEMANDA DE SERVIÇOS Paulo Fleury Abril de 2004

  ILOS - Instituto de Logística e Supply Chain

  INTRODUđấO

  A indústria de Provedores de Serviços Logísticos – PSLs no Brasil vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos. Entre 2000 e 2003, a receita total dos PSLs pulou de R$ 1,56 bilhões para R$ 6,02 bilhões, em termos nominais, o que corresponde a um crescimento médio de 57% ao ano, ou 286% em três anos. Como conseqüência, a receita média dos PSLs saltou de R$ 16 milhões para R$ 53 milhões, o equivalente a um crescimento médio anual de 49%, ou de 231% em três anos. Por outro lado, o número de PSLs cadastrados como operadores logísticos, cresceu apenas 16% no período, ou 5% ao ano, em média. Interessante observar que no último ano, ou seja, entre 2002 e 2003 o número de PSLs sofreu uma redução, passando de 124 para 114. Este fato está a indicar o início de um processo de concentração do setor, fato já amplamente observado nos mercados mais desenvolvidos da Europa e América do Norte. Nos últimos 12 meses ocorreram algumas aquisições de PSLs nacionais por empresas estrangeiras, assim como o encerramento de operações de provedores nacionais, o que reforça a hipótese da concentração do setor. O desenvolvimento desta indústria no Brasil parece ser um fenômeno ancorado em bases sólidas. São vários os indícios neste sentido. Recente pesquisa junto a uma amostra de 93 empresas industriais brasileiras, pertencentes ao conjunto das 500 maiores, indicou que 45% pretendem aumentar, 48% manter, e apenas 7% reduzir a participação dos PSLs no total de suas despesas logísticas. Por outro lado 81% destas mesmas empresas se dizem satisfeitas ou muito satisfeitas com a decisão de contratação de PSLs. Este é um percentual bastante elevado, que se encontra em um patamar equivalente a de países com tradição em terceirização logística muito maior do que a nossa. Apenas como exemplo vale ressaltar que o percentual de satisfeitos ou muito satisfeitos com a decisão de terceirização logística é de 89% na América do Norte, 81% na Europa e 89% na Ásia.

  Para melhor entender a dinâmica desta indústria no país este artigo se propõe analisar os perfis de oferta e demanda, envolvendo tipos de serviço, setores industriais envolvidos, e tecnologias de informação utilizadas.

  Tipos de serviços: comparação entre oferta e demanda

  A análise do portfólio de serviços oferecidos pelos PSLs ao mercado brasileiro revela convergências e desencontros quando confrontados com as necessidades e prioridades de seus atuais e potenciais clientes. A figura acima apresenta o percentual de PSLs que oferecem um determinado tipo de serviço.

  A O exame da figura mostra a existência de 15 diferentes tipos de serviços ofertados por mais da metade dos PSLs brasileiros. Nove dentre os 15 são oferecidos por 90% ou mais dos provedores. Destes, se destacam as atividades de armazenagem, controle de estoques, e transportes de distribuição e transferência, ofertados por quase todos os provedores, e que compõem o núcleo central da gestão integrada da logística. Dentre os itens com menor índice de oferta se destacam atividades mais sofisticadas como milk run, JIT, gerenciamento intermodal, logística reversa e montagem de kits. Chama atenção o fato de 92% dos PSLs ofertarem o serviço de desenvolvimento de projetos e soluções, uma das atividades mais sofisticadas dentro do portfólio de serviços logísticos e ainda muito pouco terceirizado no Brasil.

  Uma comparação com alguns indicadores obtidos junto às 500 maiores, mostra fortes indícios de que existem claros descompassos entre oferta e demanda, ou seja, a oferta de serviços parece ser excessiva quando comparada com os requisitos e necessidades dos embarcadores. Perguntados sobre a importância relativa de 13 diferentes critérios utilizados para a seleção de PSLs, os executivos de logística consideraram a variedade de serviços oferecidos o menos importante de todos, com uma pontuação de 2,8 numa escala de 1 a 5 conforme pode ser observado na figura abaixo. Entre os três critérios considerados mais importantes, destacam-se o preço, a experiência anterior na atividade a ser terceirizada, e a qualidade técnica do quadro de pessoal do PSL. Estes dados estão a indicar que os embarcadores estão buscando provedores focados e experientes, ao invés de fornecedores que ofereçam uma ampla gama de serviços.

  Um exame mais detalhado de algumas atividades ofertadas é ainda mais revelador do descompasso entre oferta e demanda. Vejamos por exemplo as atividades de montagem de kits, e milk run. No caso da montagem de kits, embora 90% dos PSLs ofereçam este serviço, apenas 58% dos grandes embarcadores possuem este tipo de atividade. Entre aqueles que possuem esta atividade apenas 18% já terceirizaram a totalidade de suas necessidades, enquanto 22% terceirizaram apenas parte de suas necessidades. Restam, portanto, 18% dos embarcadores que possuem esta atividade, mas ainda não se decidiram pela terceirização. No caso do milk run, embora 69% dos PSLs ofertem este serviço, apenas 20% dos embarcadores possuem este tipo de atividade. Entre aqueles que praticam o milk run,15% já terceirizaram a totalidade de suas necessidades, enquanto 3% terceirizaram apenas parte de suas necessidades. Restam portanto, 2% dos embarcadores, que embora possuam esta atividade ainda não se decidiram pela terceirização.

  Uma outra maneira de comparar oferta e demanda é examinar sua evolução ao longo do tempo. A figura a seguir mostra a evolução da demanda por certos serviços num período de 5 anos, que vai de 1998 a 2003.

  O exame da figura acima indica de forma clara que as atividades que mais tem crescido em termos de demanda são as mais sofisticadas, tais como, desenvolvimento de projetos, gestão de estoques, montagem de kits e milk run. É importante lembrar que embora estas atividades sejam as de maior taxa de crescimento, ainda possuem os mais baixos índices de terceirização, no conjunto de todas as atividades terceirizadas. O exemplo mais marcante é o desenvolvimento de projetos, que embora tenha crescido 335%, é terceirizado por apenas 29% das empresas, assim mesmo de forma parcial. O fato de que 92% dos PSLs ofertam este serviço está a indicar uma antecipação da oferta em relação a demanda.

  Quando se examina a evolução da oferta de serviços pelos PSLs, se verifica que as atividades que mais tem crescido são também as mais sofisticadas, tais como a logística reversa, serviços JIT, montagem de kits e gerenciamento intermodal, como mostram os dados da figura a seguir.

  A comparação da evolução da oferta, com a evolução da demanda, indica convergências e divergências. A montagem de kits e o gerenciamento intermodal são classes de serviços com crescimentos relevantes tanto de demanda quanto de oferta. Por outro lado, a armazenagem e o controle de estoques tiveram forte crescimento da demanda, mas praticamente nenhum crescimento da oferta, conseqüência do fato de que estes serviços já eram há bastante tempo oferecidos pela quase totalidade dos PSLs.

  Examinando o futuro próximo, e levando em consideração o percentual de empresas que pretendem terceirizar ou aumentar o grau de terceirização de determinadas atividades nos próximos dois anos, verifica-se as maiores oportunidades para os operadores logísticos, no que diz respeito aos serviços a serem oferecidos. A tabela a seguir apresenta a lista das atividades que representam as maiores perspectivas de crescimento da terceirização nos próximos dois anos.

  Verifica-se pela análise da tabela acima que das quatro atividades com maiores oportunidades de crescimento para os PSLs, três são atividades sofisticadas e uma intermediária, ou seja a atividade de armazenagem que apresenta a maior perspectiva de crescimento nos próximos dois anos.

  Dimensionamento da demanda potencial: os setores mais atrativos Existem diversas alternativas para classificar os setores em função de sua atratividade com base no tamanho da demanda.

  Uma primeira alternativa é utilizar o percentual de PSLs que prestam serviços para um determinado setor. Segundo esta alternativa, os cinco setores mais atrativos seriam: químico e pretroquímico, automotivo, alimentos, higiene e limpeza, eletroeletrônico. Uma segunda alternativa é considerar o gasto total com logística, ou seja, a soma dos gastos internos com os gastos incorridos com os provedores de serviços logísticos. Segundo este critério os cinco principais setores seriam químico e petroquímico, alimentos, automotivo, papel e celulose, e siderurgia e metalurgia.

  A terceira alternativa, e provavelmente a mais objetiva, é considerar o valor gasto com terceiros na execução das atividades logísticas. Com base neste critério os setores mais atrativos seriam química e petroquímica, alimentos, automotivo, siderurgia e metalurgia, e papel e celulose. A comparação dos 3 critérios indica uma razoável consistência entre eles. Química e petroquímica, alimentos, e automotivo aparecem como os três principais setores independentemente do critério considerado. Além disso, os setores de papel e celulose, e siderurgia e metalurgia aparecem entre os maiores, em dois dos três critérios considerados A figura abaixo indica os setores industriais que são, atualmente, os maiores usuários de PSLs, medido pelo percentual de provedores que prestam serviços a eles. A tabela a seguir indica o tamanho dos principais setores, medidos tanto em relação às despesas totais com logística, quanto às despesas com Provedores de Serviços Logísticos.

  

Gastos totais com Logística e gastos com PSLs das 500 maiores

empresas industriais agrupadas por setor (em R$ bilhões) Setores Gastos totais Setores Gastos PSLs (R$ bilhões) (R$ bilhões) Químico e Petroquímico

  11,7 Químico e Petroquímico 7,6 Alimentos 5,53 Alimentos 4,16

  Automotivo e auto peças 3,85 Automotivo e auto peças 2,35 Papel & celulose 1,34 Siderurgia e metalurgia

  1,29 Siderurgia e metalurgia 1,59

  Papel & celulose 1,27 Bebidas 1,26

  Higiene & Limpeza 0,64 Tecnologia e

  Telecom 1,13 Tecnologia e Telecom

  0,56 Eletro eletrônico 0,75 Bebidas 0,52 Higiene e Limpeza

  0,73 Eletro eletrônico 0,5

  

Fontes:Terceirização Logística no Brasil: CEL – Coppead, 2003;

Revista Valor 1000, 2003

  A análise da tabela acima revela algumas informações interessantes. O setor de química e petroquímica responde, sozinho, por 43% dos gastos logísticos e 41% dos gastos com provedores de serviços logísticos. Além disso, é o setor que tem o maior número de PSLs trabalhando para ele, ou seja, um em cada 3 PSLs presta serviço para alguma empresa do setor. Em conjunto os setores químico e petroquímico, alimentício e automotivo são responsáveis por 77% do total das despesas logísticas e 76% dos gastos com provedores de serviços logísticos. Estes dados estão a indicar uma forte concentração da demanda por

  Uso de Tecnologia de Informação, e a contribuição dos PSLs

  Segundo a literatura internacional, uma das mais importantes contribuições dos PSLs, é a capacidade de aportar modernas ferramentas de TI voltadas para o aperfeiçoamento das operações de seus clientes. De fato em países mais desenvolvidos na Europa e na América do Norte a capacitação em soluções de TI é considerada um dos principais requisitos para um PSL se manter competitivo no mercado. No caso do Brasil, o quadro parece ser bastante diferente. A grande maioria das empresas não enxerga o PSL como fonte de capacitação em tecnologia de informação. Perguntados sobre o papel dos PSLs em relação a TI, 75% das empresas responderam que os vêem como usuários, 20% como implementadores, e apenas 12% como desenvolvedores de tecnologia de informação. Como conseqüência, apenas 30% dos embarcadores tem como um dos motivadores para a contratação de PSL o objetivo de melhorar a utilização de TI. Importante destacar que 85% dos embarcadores tem como motivador a redução de custos.

  A baixa expectativa em relação ao PSL no que diz respeito à melhor utilização de TI parece se justificar pela pequena contribuição que tem sido dada ao longo do tempo. A tabela anterior mostra o percentual de empresas que utilizam determinadas TIs, assim como de quem é a propriedade / licença das tecnologias utilizadas. Chama atenção, antes de tudo, o grau relativamente modesto de utilização de TI voltada para a logística. Dentre as ferramentas de transporte, o rastreamento de veículos é a mais utilizada, com um percentual de apenas 60%. Ferramentas de roteirização e de auditoria de frete são utilizadas por pouco mais da metade das empresas pesquisadas. O uso de ferramentas voltadas para a gestão de armazenagem também deixa a desejar. Tecnologia de rádio freqüência é utilizada por 44% das empresas, separação / picking por 54%, código de barras por 56% e endereçamento por 63%. Verifica-se apenas duas exceções ao limitado uso de TI voltada para logística: sistemas de processamento de pedidos e sistemas ERP, que são utilizados por 96% e 81% das empresas, respectivamente. Este quadro está a indicar claras oportunidades de implementação de soluções de TI nos embarcadores. Estas oportunidades poderão ser capturadas pelos PSLs no futuro, desde que estejam atentos e preparados para tanto. No entanto, os dados da tabela anterior indicam que até o presente momento estas oportunidades têem sido pouco exploradas por eles. Basta examinar o que vem acontecendo com as soluções voltadas para atividades de armazenagem. Nos 62% dos casos onde se utilizam soluções de TI para endereçamento, em apenas 13% das situações a propriedade / licença da tecnologia pertence ao PSL. Situação semelhante ocorre transporte a situação é um pouco diferente. Embora nos casos de auditoria de fretes e programação de embarques o quadro anterior se repita, o mesmo não acontece para a roteirização e rastreamento de veículos, onde a participação dos PSLs é superior a dos embarcadores.

  Conclusões

  Após uma fase de desenvolvimento e rápido crescimento, a indústria de provedores de serviços logísticos no Brasil parece estar evoluindo para uma fase de consolidação. Esta evolução costuma ter importantes implicações sobre a dinâmica do mercado. Clientes se tornam mais exigentes e seletivos, PSLs buscam foco e segmentação do mercado, margens tendem a ficar mais apertadas, e aumentos de produtividade tornam-se uma necessidade. Os dados da pesquisa, mostrados anteriormente, indicam claras necessidades de adaptação das estratégias comerciais utilizadas atualmente pelos PSLs. Existe um claro descompasso entre oferta e demanda por serviços.

  Enquanto os embarcadores buscam provedores focados e eficientes, os PSLs buscam oferecer uma ampla gama de serviços para um grande conjunto de setores. O uso de tecnologias de informação ainda deixa muito a desejar, principalmente quando se considera sua importância vital para o aumento da produtividade e redução de custos. A contribuição dos PSLs para a implementação de TI ainda é muito limitada. Tudo isto está a indicar um ambiente de ameaças e oportunidades para os provedores de serviços logísticos atuando no Brasil. Aqueles que conseguirem entender as novas exigências e estiverem dispostos a investir nas mudanças aumentarão sua chance de sobrevivência e crescimento. Os que se mantiveram estáticos correrão sérios riscos de serem atropelados pela dinâmica do mercado.

  Referências Bibliográficas

  Gordon, Benjamin H.; The Changing Face of 3rd Party Logistics. Supply Chain Management Review – March / April 2003, pp 50 – 58 Chapman, Paul; Broken dream. Logistics Europe – September 2003, pp 34 – 42 Coppead UFRJ – Centro de Estudos em Logística; Panorama Logístico: Terceirização Logística no Brasil – Julho 2203

  

ARTIGOS - A INDÚSTRIA DE PRESTADORES DE SERVIÇOS LOGÍSTICOS NO BRASIL: CARACTERIZANDO OS

PRINCIPAIS OPERADORES Data: 15/08/2001 Paulo Fleury e Aline Ribeiro RESUMO

  Este trabalho teve como principal objetivo analisar as características do setor de operadores logísticos no Brasil. De forma a também obtermos uma avaliação comparativa do mercado brasileiro com o dos Estados Unidos - país mais desenvolvido no que diz respeito à logística -, os resultados também foram comparados com os de pesquisas semelhantes realizadas nos Estados Unidos, assim como com a literatura recomendada. A pesquisa constou de entrevistas realizadas com 8 empresas prestadoras de serviços logísticos que se encaixavam dentro do que foi considerado, pelo presente trabalho, como operador logístico. Parte dos resultados é coincidente com o que a literatura prega e com o que está ocorrendo nos Estados Unidos. Há, no entanto, algumas discrepâncias importantes, principalmente no que diz respeito aos problemas, como a complexidade dos impostos e a péssima infraestrutura dos modais no Brasil, e ao que está ocorrendo dentro do setor, como as melhorias apontadas nos sistemas de informação brasileiros.

  INTRODUđấO

  O mercado de prestação de serviços logísticos vem crescendo muito rapidamente em todo o mundo e, por conseqüência, também no Brasil. São várias as evidências deste fenômeno. Boyson (1999) mostrou que, na indústria química norte americana, o número médio de atividades logísticas terceirizadas, por empresa, cresceu de 1,5 para 5,5, no período entre 1989 e 1995, indicando uma forte tendência de aumento do escopo de serviços logísticos terceirizados. Na mesma época, uma reportagem da revista Fortune indicava que 60% das 500 maiores empresas por ela listadas terceirizavam pelo menos uma das atividades que compõem seu processo logístico, uma evidência do nível de difusão da prática de terceirização logística. Em outra pesquisa envolvendo os mercados Europeu e Norte Americano, Sink (1997) mostrou que 78% dos gerentes europeus, e 46% dos americanos entrevistados afirmaram estar comprometidos com a terceirização de suas atividades logísticas, e que a tendência era a de aumentar o número de atividades terceirizadas.

  O resultado de tudo isto tem sido o rápido crescimento da indústria de prestadores de serviços logísticos, como bem mostram os levantamentos da Armstrong & Associates (1). Entre 1996 e 1998, a receita operacional dos 56 maiores prestadores de serviços logísticos norte americanos aumentou de US$ 28,5 bilhões para US$ 39,6 bilhões, o que corresponde a uma taxa média de crescimento de cerca de 18% ao ano. No Brasil, apesar do processo de terceirização das atividades logísticas ainda ser relativamente recente, e de não existirem estatísticas confiáveis, o potencial de mercado parece ser elevado. Estudo do Banco Mundial estima que somente os gastos com transportes no país sejam equivalentes a 10% do PIB, o que corresponderia a cerca de US$ 60 bilhões. Os grande prestadores de serviços logísticos internacionais parecem ter percebido este potencial. A partir de 1997 empresas como Ryder, Penske Logistics - em joint venture com a Cotia Trading, Mc Lane (do grupo Wall Mart) -, Mark VII, Emery Worldwide, Hellmann Logistics, Danzas e Mosolf passaram a desembarcar no país, se juntando a um crescente número de empresas brasileiras, como Columbia, Cometa, Metropolitan, Delara, Marbo, Mercúrio, Hércules e Delta, que já vinham tendo crescimento substancial neste mercado. Embora bastante recente, a indústria de Prestadores de Serviços Logísticos (PSL) vem evoluindo rapidamente no Brasil. Uma das conseqüências desta evolução, tem sido o surgimento de vários formatos de atuação, que tem levado a uma dificuldade de categorização dos prestadores de serviços logísticos. Pouco também se conhece sobre as principais barreiras e oportunidades para atuação destas empresas no Brasil. As possibilidades de terceirização das atividades logísticas são inúmeras. Por esta razão, nos países onde as atividades dos PSL estão mais desenvolvidas, a segmentação do mercado vem aumentando, incluindo desde a simples terceirização de atividades de transporte até a contratação de terceiros para operar todo o processo logístico. Devido ao aumento da importância e complexidade das terceirizações logísticas, vem aumentando a preocupação com um melhor conhecimento destas atividades. No entanto, a maioria dos estudos conhecidos, tem examinado o setor sob perspectiva das empresas contratantes. Em geral, estes estudos englobam os passos necessários à terceirização destas atividades, as situações em que se deve terceirizar e o que pode se esperar dela. A literatura que trata dos problemas e características dos prestadores de serviços logísticos, no entanto, é razoavelmente escassa. Questões como pré-requisitos necessários para ser considerado um prestador de serviços logísticos integrados (os chamados operadores logísticos), os diferentes formatos existentes, perspectivas da indústria e tendências de adição de valor ao cliente são muito pouco discutidas.(Berglund, 1999). Este trabalho busca contribuir para um maior entendimento desta indústria, e sua situação no Brasil, a partir de estudo de 8 casos, selecionados dentre os maiores e mais conhecidos prestadores de serviços logísticos integrados, com operação no Brasil.

  DIFERENTES DENOMINAđỏES E FORMATOS DOS PSL

  São várias as denominações encontradas na literatura internacional para as empresas prestadoras de serviços logísticos. Aqui serão destacadas algumas destas denominações e seus significados mais comuns. Expressões como provedores de serviços logísticos terceirizados (third-party logistics providers ou 3PL), provedores de logística integrada (integrated logistics providers), empresas de logística contratada (contract logistics companies) e operadores logísticos (logistics operators) são alguns dos termos comumente usados na literatura internacional para denominar empresas prestadoras de serviços logísticos. A nível internacional, a primeira denominação, ou seja, 3PL, é claramente a mais utilizada. No Brasil, existe uma forte tendência a se utilizar a denominação “operador logístico”. Segundo Gardner (1994), o termo third-party logistics (3PL) começou a ser utilizado na década de 80 como um sinônimo de “subcontratação de elementos do processo logístico”. Apesar do termo 3PL significar, para um grande número de autores, nada mais do que uma empresa que provê qualquer tipo de serviço logístico para terceiros, alguns associam este nome somente a empresas capacitadas a executar um conjunto mais amplo de serviços logísticos. Nos anos 80, a tendência à integração das atividades logísticas – duas ou mais atividades executadas de forma coordenada - foi ficando mais freqüente, levando alguns autores a associar a expressão 3PL às empresas com capacidade de fornecer mais de um tipo de serviço logístico de forma integrada. Berglund (1999), por exemplo, associa a expressão 3PL à empresa que oferece, através de contrato, no mínimo, os serviços de gerenciamento e operação de transporte e armazenagem. Segundo ele, o contrato de um 3PL com um cliente deve ser de, no mínimo, um ano e também deve prever atividades de gerenciamento, análise e projeto. Ressalta, ainda, a possibilidade de adição de atividades como administração de estoques, da informação - como o acompanhamento e rastreamento de pedidos - e oferta de atividades que agreguem valor como uma 2a embalagem ou instalação de produtos, ou mesmo o gerenciamento da cadeia de suprimentos. Já para Lieb (1996), a denominação 3PL se aplica tanto às empresas que prestam todos os serviços ligados ao processo logístico, quanto àquelas que fornecem apenas uma atividade específica deste processo. Apesar de concordar com a definição acima, Sink (1997), acredita que todas as atividades devem ser conduzidas de forma coordenada e integrada e que, assim como indica Berglund (1999), os 3PLs, para se denominarem como tal, devem oferecer, no mínimo, dois tipos de serviços. Imporante lembrar que são inúmeros os tipos de serviços que podem ser prestados pelos 3PLs. Lieb (1996), por exemplo, identificou 13 diferentes tipos de serviços como sendo os mais comumente executados pelos 3PLs: gerenciamento de armazém; consolidação de carga; sistemas de informação; operação ou gerenciamento de frota; negociação de frete; seleção de transportadora; emissão de pedido; importação/exportação; retorno de produtos; processamento de pedido; montagem ou instalação de produtos; desconsolidação de produtos para clientes; reposição de estoque.

  No Brasil, recente estudo sobre PSLs, realizado conjuntamente pela Associação Brasileira de Logística, Fundação Getúlio Vargas e Associação Brasileira de Movimentação e Logística, e fornecedor de serviços logísticos, especializado em gerenciar e executar todas ou parte das atividades logísticas nas várias fases da cadeia de abastecimento dos seus clientes (...) e que tenha competência para, no mínimo, prestar simultaneamente serviços nas três atividades básicas de controle de estoques, armazenagem e gestão de transportes. Os demais serviços, que por ventura sejam oferecidos, funcionam como diferenciais de cada operador.” Esta definição é bastante semelhante àquela utilizada para os 3PLs, excetuando-se o fato de que esta última menciona a integração das atividades como elemento presente no seu conceito. Verifica-se portanto, que diferentes autores utilizam diferentes critérios para caracterizar os

  3PLs. Alguns são mais rigorosos, exigindo que para que seja classificado como 3PL, um prestador de serviços logísticos deveria realizar um amplo conjunto de atividades, de forma integrada, ter capacidade de projeto, operação e gerenciamento, e possuir contratos de longo prazo com seus clientes. Outros são menos rigorosos e consideram que qualquer empresa que realize alguma atividade logística, sob contrato, para terceiros, com capacidade de planejamento, operação e gerenciamento, deve ser considerado um 3PL.

  AS DIFERENTES ORIGENS DOS OPERADORES LOGÍSTICOS

  Uma análise histórica dos 3PLs indica que são várias as origens destas empresas. Basta examinar alguns dos mais conhecidos operadores internacionais: a Exel Logistics teve origem na atividade de armazenagem, a Cartepillar Logistics como departamento de logística da Caterpillar, empresa fabricante de equipamentos pesados, e a FedEx, como empresa de entrega expressa (Gardner, 1994).

  O amplo movimento de terceirização, patrocinado pelas empresas industriais e comerciais a partir da década de 80, a crescente importância do serviço ao cliente, novos padrões de relacionamento nas cadeias de suprimento, conjugado com a maior disponibilidade de tecnologia de informações para aplicações logísticas, contribuíram fortemente para o crescimento da indústria de 3PLs. O aumento da complexidade da cadeia de suprimentos fez com que fossem cada vez mais necessários investimentos em logística, uma área que, muitas vezes, não fazia parte do core business das empresas. Nestes casos, várias delas preferiram terceirizar todas ou algumas destas atividades e se concentrar no seu negócio principal. Abriram-se, portanto, amplas oportunidades para prestadores de serviços logísticos, resultando no surgimento de um grande número de operadores O crescimento do número de 3PLs e as inúmeras possibilidades de atuação, resultaram numa segmentação da indústria. Pesquisa realizada por Sink (1996) com representantes de diversos setores industriais norte-americanos permitiu a identificação de diversas dimensões de segmentação dos provedores de serviços logísticos. De uma maneira geral, os 3PLs podem ser segmentados com base em pelo menos cinco dimensões básicas: serviços oferecidos, escopo geográfico de atuação, tipos de indústrias que atendem, infraestrutura disponível (propriedade dos ativos), atividade de origem. Sob o ponto de vista dos tipos de serviços prestados, os 3PLs podem ser classificados em dois grandes grupos básicos: os especialistas operacionais e os integradores. O primeiro grupo corresponde às empresas que oferecem serviços específicos como, por exemplo, o transporte, a armazenagem, a consolidação ou a etiquetagem. Neste caso, apesar de executar somente uma atividade básica, há a possibilidade de se adicionar valor ao cliente incorporando serviços extras como processamento de pedido, reparo e controle de estoque. A competência básica deste grupo é a excelência operacional. No segundo caso, a empresa é capaz de prover uma solução logística completa, uma vez que abrange uma grande gama de serviços planejados e gerenciados de forma integrada. Também neste caso, é possível oferecer atividades extras, fora do conjunto de serviços básicos, como fazem algumas empresas de consultoria ao desenvolverem projetos logísticos complexos para clientes específicos. Berglund (1999) verificou que existem diferença significativas entre os dois grupos, em algumas dimensões de desempenho, conforme tabela a seguir: A grande diferença de desempenho entre os dois grupos de empresas contribui para o entendimento dos motivos de crescimento dos 3PLs integrados. Esta comparação também ressalta o que representa uma das características de grande parte dos 3PLs integrados: o alto grau de subcontratação. Para Berglund (1999), esta característica é resultado do foco deste segmento no aspecto conceptual, como a análise da cadeia de suprimentos e o conhecimento de conceitos logísticos inovadores (como cross-docking e merge-in-transit) para a elaboração e

  No que se refere ao escopo geográfico, percebe-se claramente uma tendência dos principais provedores a ampliarem o espaço de atuação como forma de conseguir maior uso para seus ativos e de evitar a perda de contas domésticas de clientes com atuação internacional (Lieb, 1997).

  A política de segmentação por tipos de clientes é uma outra tendência identificada pelo mesmo autor. Uma primeira dimensão de segmentação por cliente é seu tipo de indústria, visando uma maior especialização setorial e customização. Exemplos típicos de indústrias prioritárias para segmentação são a automotiva, alta tecnologia (informática, telecomunicações), alimentos e papel. Percebe-se também, tanto nos EUA como na Europa, uma tendência à segmentação com base no tamanho do cliente. Nos EUA, este tipo de segmentação está bem definido, de forma que os grandes provedores atendem, quase que exclusivamente, às grandes contas. Embora os pequenos clientes estejam, cada vez mais, terceirizando suas atividades logísticas, o fazem para especialistas como transportadores ou armazenadores. Verifica-se, contudo, que na Europa alguns grandes provedores já são responsáveis pela logística de empresas de menor porte, e que este pode vir a se tornar um bom nicho de mercado para os grandes provedores. Segundo Africk (1994), o mais geral de todos os tipos de segmentação é aquele que divide os operadores em baseados ou não em ativos - o que Sink(1996) chamou de propriedade dos ativos. Um outro tipo de operador identificado por Africk (1994) são os híbridos, isto é, aqueles que possuem ativos próprios mas também se utilizam da subcontratação de ativos de terceiros. Segundo ele, estas empresas são, em geral, um grupo onde as “empresas-filhas” possuem os recursos humanos qualificados e os sistemas de informação, e as “empresas-mães” os ativos físicos. Nesta situação, encaixam-se empresas como a Ryder e a Exel, por exemplo. Ainda quanto à propriedade dos ativos, segundo Africk (1994), os contratos com provedores baseados em ativos podem ser estruturados com base em capacidade dedicada ou ativos dedicados. No primeiro caso, o provedor se compromete a atender a determinado volume e níveis de serviço especificados pela contratante, mas utilizará os ativos para diversos clientes. Já no segundo caso, o provedor disponibiliza seus ativos para um único cliente, aumentando, assim, a garantia de cumprimento ou superação das especificações.(Afrik, 1994) Muller (1993), chama atenção para o fato de que não há, em princípio, um tipo de operador melhor do que o outro; o que há são tipos de operadores mais adequados às necessidades de empresas específicas. .

  

PROBLEMAS E OPORTUNIDADES PARA OS PRESTADORES DE SERVIÇOS

LOGÍSTICOS

  Um dos principais entraves ao crescimento dos provedores de serviços logísticos é o receio dos potenciais clientes em perder o controle de sua logística e, consequentemente, do nível de serviço prestado. No entanto, Kao (1993) ressalta que estas inseguranças, ou mesmo as com relação aos danos aos produtos, podem ser superadas com o estabelecimento de padrões de desempenho que levem estes pontos em consideração. Segundo Lieb (1998), há uma série de outros problemas enfrentados pela indústria, incluindo o complexo e caro processo de venda dos serviços, as dificuldades na obtenção de pessoal qualificado, o custo associado ao desenvolvimento de sistemas de informação (apesar de estar em processo de barateamento, ainda é um das maiores fontes custos do setor) e, concordando com Laarhoven (1994), as intensas pressões por redução de preços.

  Os custos incorridos na preparação e negociação de propostas e no desenvolvimento de soluções customizadas, principalmente naquelas planejadas antecipadamente aos grandes bids, acaba resultando em gastos da ordem de milhões de dólares, segundo CEOs de empresas do setor.(Lieb, 1998) A questão do recrutamento e seleção de pessoal qualificado torna-se crítica pela necessidade de rápida contratação para a execução de um contrato recém fechado. Um CEO descreveu a situação para Lieb (1998): “Estas pessoas não estão simplesmente sentadas perto dos nossos escritórios esperando que bids sejam ganhos. Quando ganhamos um, temos que adicionar pessoal rapidamente, e isto é um problema.” (p.75). Uma solução utilizada para contornar o problema é a contratação de pessoal da empresa cliente que, em geral, enxuga seu quadro ao terceirizar. Outras práticas, segundo Lieb (1998), são: a contratação de recém-formados ou de funcionários de empresas concorrentes. Uma conseqüência destas dificuldades é que, em um ano, os presidentes de nove dentre as vinte e cinco maiores provedores de serviços logísticos mudaram de emprego. Em uma indústria onde os contratos de parcerias tendem a ficar cada vez mais longos, isto pode ser uma fonte de problema. A questão do treinamento é vista por Lieb (1998) como outra grande geradora de problemas. Segundo ele, devido à necessidade de rápida entrada em operação, não sobra muito tempo para que o funcionário receba um treinamento adequado. Sendo assim, apesar de ainda nem estar familiarizado com a organização do provedor, ele já passa a trabalhar com o cliente. Esta política de contratação gera problemas de comunicação, coordenação e integração.

  Independente da indústria escolhida, Lieb (1998) chama atenção para as transformações ocorridas em relação aos sistemas de informação, que estão deixando de ser fatores de diferenciação, para se transformar em um pré-requisito ou necessidade básica. Mesmo as empresas que não pretendem ser líderes nesta área, têm investido maciçamente em tecnologia de informação. Como forma de minimizar o impacto desta tendência nos custos dos operadores, diversas destas empresas têm realizado parcerias com empresas TI (Tecnologia de Informação). Exemplo disto, é a parceria da Ryder com a IBM e com a Andersen Consulting. Considerando a variedade de denominações e definições a respeito dos 3PLs, e a necessidade de defini-las claramente, tomou-se a decisão de adotar a denominação operadores logísticos, amplamente utilizada no Brasil, para caracterizar os prestadores de serviços logísticos integrados, ou seja, os Integradores, segundo Berglund (1999). Para fins deste estudo, operadores logísticos são os provedores de serviços logísticos capacitados a realizar, no mínimo, a execução e o gerenciamento, de forma integrada, da armazenagem, do transporte, assim como o controle de estoques.

  METODOLOGIA

  Este trabalho teve como objetivo principal responder à seguinte pergunta geral de pesquisa: Como se caracteriza a indústria de operadores logísticos no Brasil? Com o fim de operacionalização da pesquisa, a pergunta geral foi dividida em quatro perguntas secundárias, apresentadas a seguir:

  • Quais as características gerais das empresas pesquisadas?
  • Quais os serviços oferecidos e sua relação com os requisitos atuais do mercado?
  • Qual a infraestrutura existente nas empresas ?
  • Quais as barreiras e oportunidades para o desenvolvimento da indústria no país? Para responder a estas perguntas foram entrevistados, pessoalmente, executivos pertencentes a 8 diferentes empresas, selecionadas a partir de uma amostra de conveniência, envolvendo os maiores e mais conhecidos operadores logísticos no Brasil. Um questionário de pesquisa semi estruturado, baseado na revisão da literatura internacional, foi desenvolvido e utilizado durante as entrevistas. As entrevistas tiveram uma duração média de 3,5 horas, variando entre 2 e 5 horas. Considerando o método utilizado, os resultados desta pesquisa não podem ser generalizados para a indústria como um todo, permitindo no entanto levantar hipóteses que poderão ser testadas numa pesquisa mais ampla, cuja amostra seja representativa da indústria como um todo.

  As empresas analisadas nesta pesquisa têm uma experiência relativamente pequena como operadores logísticos no Brasil. O tempo médio de operação no país é de cinco anos, sendo que a mais antiga está no mercado há 13 anos, e as duas mais novas a apenas 2 anos. Tal fato era de se esperar, dado que o fenômeno dos operadores logísticos é relativamente recente no Brasil. Verifica-se, no entanto, que, na sua grande maioria, estas empresas já possuíam larga experiência como prestadoras de serviços logísticos especializados, ou mesmo como operadores em seus países de origem. Das 8 organizações pesquisadas, 4 se originaram de empresas de armazenagem, 3 de empresas de transporte, e uma de empresa de entrega rápida (courier). Quanto ao país de origem, 5 são empresas tipicamente nacionais, e 3 tiveram sua origem no exterior.

  O faturamento médio das empresas foi de R$ 30 milhões em 1999, mas existem diferenças significativas entre as mesmas. A maior delas obteve um faturamento de R$ 120 milhões, enquanto a menor faturou apenas R$ 1,0 milhão no mesmo ano. Estes dados, no entanto, merecem reparos, pois enquanto algumas empresas possuem uma divisão de “operador logístico” independente, com contabilidade separada da empresa de origem, outras combinam as novas atividades com as atividades antigas de prestador de serviços logísticos especializados. Apenas como exemplo, vale destacar que uma das empresas pesquisadas, que no ano de 1999 faturou apenas R$ 1,0 milhão como

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