PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO MARCIO DONIZETI BERSTECHER

  

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

MARCIO DONIZETI BERSTECHER

  

IMPACTOS DA ADOđấO DOS PRONUNCIAMENTOS E

  

INTERPRETAđỏES EMITIDOS PELO COMITÊ DE

PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC): UMA ANÁLISE DO

SETOR IMOBILIÁRIO E CONSTRUđấO CIVIL E UM ESTUDO DE

CASO DA COMPANHIA GAFISA S.A.

  

MESTRADO EM CIÊNCIAS CONTÁBEIS E ATUARIAIS

PUC – SP

  

São Paulo

2012

MARCIO DONIZETI BERSTECHER

  IMPACTOS DA ADOđấO DOS PRONUNCIAMENTOS E

  INTERPRETAđỏES EMITIDOS PELO COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC): UMA ANÁLISE DO SETOR IMOBILIÁRIO E CONSTRUđấO CIVIL E UM ESTUDO DE CASO DA COMPANHIA GAFISA S.A. MESTRADO EM CIÊNCIAS CONTÁBEIS E ATUARIAIS

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do Título de Mestre em Ciências Contábeis e Financeiras, sob a orientação do Livre Docente Prof. Dr. José Carlos Marion.

  PUC-SP São Paulo 2012

MARCIO DONIZETI BERSTECHER

  

IMPACTOS DA ADOđấO DOS PRONUNCIAMENTOS E INTERPRETAđỏES

EMITIDOS PELO COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS (CPC): UMA

ANÁLISE DO SETOR IMOBILIÁRIO E CONSTRUđấO CIVIL E UM ESTUDO DE

CASO DA COMPANHIA GAFISA S.A.

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Ciências Contábeis.

  

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________ Prof. Dr. José Carlos Marion - Orientador

  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP

  ______________________________________________ Prof. Dr. José Roberto Kassai

  Universidade de São Paulo - USP

  ______________________________________________ Prof. Dr. Sérgio de Iudícibus

  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP

  Dedico este trabalho: Aos meus pais, José Berstecher e Teresa M. de O.

  Berstecher, com amor, respeito, gratidão e reconhecimento de sua presença constante, no decorrer desta caminhada.

  

AGRADECIMENTOS

  Aos meus pais, pela sabedoria, discernimento e força a mim transmitidas, sem as quais seria impossível a realização deste trabalho.

  Ao orientador, Livre Docente Prof. Dr. José Carlos Marion, com quem tive a honra de aprender nas disciplinas do mestrado acadêmico, pela paciência, dedicação e constante apoio e incentivo ao aprimoramento desta dissertação. Aos professores doutores Sérgio de Iudícibus e José Roberto Kassai, pela colaboração com ideias para este trabalho.

  A todos os colegas de mestrado. À Ernst & Young Terco, pela aprovação ao programa de mestrado e pelos momentos de ausência do escritório.

  

RESUMO

  Com o advento das Leis 11.638/07 e 11.941/09, o reconhecimento, avaliação e divulgação das informações financeiras das entidades empresariais estabelecidas no Brasil modificou-se significativa e bruscamente. A aprovação de tais leis, sobretudo a Lei 11.638/07, representou o marco inicial dos esforços do País na convergência e na harmonização da contabilidade brasileira aos princípios internacionais de contabilidade (IFRS). A adoção ou introdução das IFRS no Brasil causou impacto na leitura e interpretação dos números contábeis e o setor imobiliário foi um dos que receberam mais atenção, dado seu aumento de significância na economia brasileira devido a avanços institucionais, ocorrência de ofertas públicas de ações de empresas do segmento e, finalmente, devido a seu peculiar método de reconhecimento de receita. Procurou-se investigar e apresentar, por meio de análise de um grande player do setor, as principais diferenças relacionadas à transição das normas brasileiras para as IFRS, sobretudo no que diz respeito à contabilização do reconhecimento da receita. São comparadas as práticas antigas e as atuais e descritas as diferentes formas de reconhecimento de receita utilizadas e praticadas atualmente pelas entidades de incorporação imobiliária no Brasil. Apurou-se que os maiores impactos foram provenientes do primeiro estágio da introdução das IFRS no Brasil (2008) devido à adoção ao ajuste a valor presente e à rejeição de interpretação das IFRS que esclareceu a prática de reconhecimento de receita para tal setor. Finalmente, os impactos na divulgação (notas explicativas) também foram determinados.

  

Palavras-Chave: Adoção das IFRS; Reconhecimento de receita; Segmento

imobiliário e de construção civil; Indicadores de desempenho.

  

ABSTRACT

  With the Laws 11,638/07 and 11,941/09, the recognition, assessment and disclosure of financial information related to companies located in Brazil modified and rapidly. The approval of such laws, especially Law 11,638/07, represented the initial efforts for the convergence and harmonization of the Brazilian accounting principles towards the IFRS. The IFRS adoption in Brazil caused impact on the reading and interpretation of accounting figures and the Real Estate business was one of the economic segments which drew most of the attention given the fact that it grew in importance to the Brazilian economy as a result of its boom in the capital markets in Brazil, of changes to the legal environment surrounding such sector and given its peculiar revenue recognition practices. The work aimed at investigate and present, through an analysis of a study case of a great player, the main changes arising from the transition of the Brazilian accounting practices towards IFRS, with especial analysis over the revenue recognition discussion. The old practices regarding revenue recognition are compared to the ones which have been adopted in Brazil. The result, among others, of the present work was the observation that the major changes to the accounting figures of such Real Estate company derived from the accounting pronouncements implemented in 2008 given the adoption of net present value adjustment and due to the fact that Brazil rejected the interpretation (IFRIC 15) regarding revenue recognition. Finally, the impacts on disclosure (footnote to the financial statements) were also assessed.

  

Keywords: IFRS adoption; Revenue recognition; Real Estate and Building business;

Performance indicators.

  

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 Usuários da Informação Contábil.................................................... 17

Figura 2 Estrutura do IASB............................................................................ 23

Figura 3 Valores investidos pelos governos de 2003 a 2008 ......................

  51 Figura 4 Decisão quanto à aplicabilidade da IAS 11 .................................... 62

  

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Aplicação da IN 84/79

  • – momento do custo.................................... 54

  Tabela 2 Aplicação da IN 84/79

  • – momento da venda................................... 55

  Tabela 3 Aplicação da IN 84/79

  • – momento do recebimento......................... 55 Tabela 4 Balanço patrimonial de 2011 e 2010 da Gafisa S.A.
  • – ativo........... 93 Tabela 5 Balanço patrimonial de 2011 e 2010 da Gafisa S.A.
  • – passivo...... 94

  Tabela 6 Demonstração do resultado do exercício de 2011 e 2010 da

  95 Gafisa S.A.......................................................................................

  Tabela 7 Demonstração dos fluxos de caixa do exercício de 2011 e 2010

  96 da Gafisa S.A. ................................................................................

  

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 Expectativas dos usuários da informação contábil........................ 18

Quadro 2 Eventos importantes para a Contabilidade brasileira.................... 22

Quadro 3 Posição das IFRS nas grandes economias................................... 26

Quadro 4 Lista dos pronunciamentos emitidos pelo IASC............................ 35

Quadro 5 Lista dos pronunciamentos emitidos pelo IASB............................ 36

Quadro 6 Pronunciamentos do CPC............................................................. 41

Quadro 7 Orientações do CPC...................................................................... 41

Quadro 8 Interpretações do CPC.................................................................. 42

  Melhorias jurídicas implementadas no SFI.................................... 52

  Quadro 9

Quadro 10 Determinação do estágio de execução......................................... 58

Quadro 11 Determinação da receita pelo método do estágio de execução..

  59 Quadro 12 IAS 11 ou IAS 18?......................................................................... 72

  

Quadro 13 Comparação entre IAS 11 e IAS 18.............................................. 74

Quadro 14 Receita de vendas vc. Caixa recebido em empresas indianas

  74 em 2008.........................................................................................

  Quadro 15

  75 Impacto nas “métricas” EBITDA e cobertura para juros nas empresas indianas em 2008.........................................................

  

Quadro 16 Termos e condições dos contratos de venda de imóveis na Índia 76

Quadro 17 Indicadores usuais e suas deficiências para o setor imobiliário..

  86 Quadro 18 Indicadores de rentabilidade

  • – análise para o setor imobiliário.... 87

  

Quadro 19 Qualificação da Pesquisa.............................................................. 91

Quadro 20 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 100

  2007 (aspectos gerais)..................................................................

  

Quadro 21 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 101

2007 (áreas específicas do Ativo).................................................

Quadro 22 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 101

2007 (áreas específicas do Passivo).............................................

Quadro 23 Notas explicativas complementares divulgadas nas 102

demonstrações contábeis de 2007................................................

Quadro 24 Índices de desempenho de 2007.................................................. 103

Quadro 25 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 104

  2007 (aspectos gerais) (dados reapresentados)...........................

  

Quadro 26 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 105

2007 (áreas específicas do Ativo) (dados reapresentados)..........

Quadro 27 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 106

2007 (áreas específicas do Passivo) (dados reapresentados).....

  Quadro 28 Notas explicativas complementares divulgadas nas demonstrações contábeis de 2007 (dados reapresentados)........

  Quadro 43 Comparação do nível de divulgação entre as demonstrações de 2009 originais em relação às reapresentadas...............................

  Quadro 40 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (áreas específicas do Ativo) (dados reapresentados)..........

  120

  Quadro 41 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (áreas específicas do Ativo) (dados reapresentados)..........

  121

  Quadro 42 Notas explicativas complementares divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (dados reapresentados)........

  122

  126

  2009 (aspectos gerais) (dados reapresentados)...........................

  Quadro 44

  Impacto dos ajustes dos CPC’s vigentes em 2008 sobre o patrimônio líquido de 2009 ...........................................................

  126

  

Quadro 45 Impacto das IFRS sobre o resultado do exercício de 2009 ......... 127

Quadro 46 Índices de desempenho de 2009 (dados reapresentados) ......... 128

Quadro 47 Comparação dos índices de desempenho de 2009 ..................... 128

Quadro 48 Impacto estimado em 2009 da adoção da ICPC 02 tal como foi

  emitida...........................................................................................

  130

  Quadro 49 Comparação dos impactos advindos da migração às IFRS em 2008 e 2010..................................................................................

  119

  

Quadro 38 Índices de desempenho de 2009 ................................................. 118

Quadro 39 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de

  107

  Impacto dos ajustes dos CPC’s vigentes em 2008 sobre o resultado do exercício...................................................................

  Quadro 29 Comparação do nível de divulgação entre as demonstrações de 2007 originais em relação às reapresentadas...............................

  109

  Quadro 30

  Impacto dos ajustes dos CPC’s vigentes em 2008 sobre o patrimônio líquido de 2007............................................................

  110

  Quadro 31

  111

  117

  

Quadro 32 Índices de desempenho de 2007 (dados reapresentados)........... 112

Quadro 33 Comparação dos índices de desempenho de 2007...................... 113

Quadro 34 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (aspectos gerais) .................................................................

  114

  Quadro 35 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (áreas específicas do Ativo) ................................................

  115

  Quadro 36 Notas explicativas divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 (áreas específicas do Passivo) ...........................................

  116

  Quadro 37 Notas explicativas complementares divulgadas nas demonstrações contábeis de 2009 ...............................................

  132

LISTA DE SIGLAS

  ABRASCA Associação Brasileira das Companhias Abertas ACCA Association of Chartered Certified Accountants

APIMEC Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado

  de Capitais

  BACEN Banco Central BM&F Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BOVESPA Bolsa de Valores de São Paulo CDI Certificado de Depósito Interbancário CFC Conselho Federal de Contabilidade CMN Conselho Monetário Nacional CNNT Comissão Nacional de Normas Técnicas CPC Comitê de Pronunciamentos Contábeis CRI Certificados de Recebíveis Imobiliários CT Comunicado Técnico CVM Comissão de Valores Mobiliários DFC Demonstração do Fluxo de Caixa DOAR Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos EBITDA

  Earnings Before Iinterest, Taxes, Depreciation and Amortization EC Comunidade Europeia EUA Estados Unidos da América FASB Financial Accounting Standard Board FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FIPECAPI

  Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras

  IAS International Accounting Standards

  IASB International Accounting Standards Board

  IASC International Accounting Standards Committee

  IBRACON Instituto dos Auditores Independentes do Brasil

  ICPC

  Interpretação Técnica do Comitê de Pronunciamentos Contábeis

  IFRIC International Financial Reporting Interpretations Committee

  IFRS International Financial Reporting Standards

  Regulamento do Imposto de Renda

  VGV

  SRF Secretaria da Receita Federal STN Secretaria do Tesouro Nacional SUSEP Superintendência de Seguros Privados

  Sociedades de Propósitos Específicos

  SFI Sistema de Financiamento Imobiliário SIC Standing Interpretations Committee SPEs

  Sistema Financeiro de Habitação

  SBPE Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo SEC Securities and Exchange Comission SFH

  PAC Programa de Aceleração do Crescimento PIB Produto Interno Bruto POC Percentage of completion REF Resultado de Exercícios Futuros RIR

  IN Instrução Normativa

  Orientação Técnica do Comitê de Pronunciamentos Contábeis

  NPC Norma e Prática Contábil OCPC

  Normas Técnicas Brasileiras de Contabilidade

  LAJIDA Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização NBC’s

  Ofertas Públicas Iniciais

  IPO’s

  IOSCO International Organization of Securities Commissions

  Valor Geral de Vendas

  • – Entidades de Incorporação Imobiliária ......................... 67

  92 2.3. Critérios de Análise e Tratamento de Dados ...............................................

  1.4. Impactos nas Demonstrações Contábeis do Setor Imobiliário Brasileiro em 2010...............................................................................................................

  84

  1.5. Principais Indicadores de Desempenho Empregados no Setor Imobiliário.............................................................................................................

  85 CAPÍTULO II − PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS.................................. 90 2.1. Classificação e Tipologia do Trabalho..........................................................

  90

  2.2. Estudo de Caso, Suas Limitações e Apresentação da Empresa Objeto de Estudo .................................................................................................................

  97 CAPễTULO III − APRESENTAđấO E ANÁLISE DOS DADOS......................... 99

  1.3.5. Desentendimento com o IBRACON e Comunicado Técnico de tal Instituto...............................................................................................................

  3.1. Demonstrações Contábeis de 2007 ............................................................. 99 3.1.1. Índices de Desempenho da Gafisa em 2007........................................... 102

  3.2. Demonstrações Contábeis de 2007 reapresentadas em 2008..................... 103

  3.2.1. Comparação do nível de divulgação nos dados originalmente apresentados de 2007 e os reapresentados.....................................................

  107

  3.2.2. Ajustes efetuados e CPC’s que resultaram em impacto sobre as demonstrações da empresa .............................................................................

  109 3.2.3. Índices de desempenho da Gafisa em 2007 com base nos dados reapresentados e comparação com os originalmente apresentados................

  112

  80

  76

  

SUMÁRIO

  42

  

INTRODUđấO..................................................................................................... 15

CAPÍTULO I − REFERENCIAL TEÓRICO.......................................................... 32

  1.1. As IFRS e a Necessidade de um Padrão Contábil Único no Mundo..........

  32 1.1.1. Nosso País neste Contexto.....................................................................

  36 1.1.2. A Criação do CPC..................................................................................

  38

  1.1.3. Principais Pronunciamentos, Orientações e Interpretações emitidos pelo CPC desde 2008........................................................................................

  1.2. O Setor Imobiliário no País........................................................................... 50

  1.3.4. Orientação OCPC 04 - Aplicação da Interpretação Técnica ICPC 02 às Entidades de Incorporação Imobiliária Brasileiras.............................................

  1.2.1. A Contabilidade para o setor imobiliário antes da “era CPC”.................. 54

  1.2.2. Impactos nas demonstrações contábeis do setor imobiliário brasileiro em 2008.............................................................................................................

  59

  1.3. A Contabilidade para o Setor Imobiliário “PÓS CPC”................................... 61 1.3.1. IAS 11 (CPC 17)......................................................................................

  61

  1.3.2. OCPC 01(R1)

  1.3.3. IFRIC 15 (ICPC 2).................................................................................... 70

  3.3. Demonstrações Contábeis de 2009.............................................................. 113 3.3.1. Índices de desempenho da Gafisa em 2009........................................... 118

  3.4. Demonstrações Contábeis de 2009 reapresentadas em 2010..................... 118

  3.4.1. Comparação do nível de divulgação nos dados originalmente apresentados de 2009 e os reapresentados.....................................................

  123

  3.4.2 Ajustes efetuados e CPC’s que resultaram em impacto sobre as demonstrações da empresa .............................................................................

  126 3.4.3 Índices de desempenho da Gafisa em 2009 com base nos dados reapresentados e comparação com os originalmente apresentados...............

  127

  3.5. Simulação dos efeitos da adoção hipotética do ICPC 02 sobre os números da Gafisa em 2009................................................................................

  129

  

CONSIDERAđỏES FINAIS................................................................................. 131

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................... 135

  INTRODUđấO

  Esta dissertação se inicia com a contextualização do tema considerando alguns conceitos de renomados autores. Marion (2006, p.23) afirma que a contabilidade “coleta todos os dados econômicos, mensurando-os monetariamente, registrando-os e sumarizando-os em forma de relatórios ou de comunicados, que contribuem para a tomada de decisões”.

  Iudícibus, Martins e Gelbcke (2007, p. 29) atestam que:

  A contabilidade é, objetivamente, um sistema de informação e avaliação destinado a prover seus usuários com demonstrações e análises de natureza econômica, financeira, física e de produtividade, com relação à entidade objeto de contabilização.

  Hendriksen e Van Breda (1999) vão além:

  A divulgação financeira deve fornecer informações que sejam úteis para investidores e credores (...) devem ser compreensíveis aos que possuem noção razoável dos negócios (...) deve proporcionar informação que ajude investidores, credores e outros usuários, presente e em potencial, a avaliar os volumes, a distribuição no tempo e a incerteza de possíveis fluxos de caixa (...) deve fornecer informações sobre os recursos econômicos de uma empresa (...) bem como os efeitos de transações, eventos e circunstâncias que alterem seus recursos e os direitos sobre tais recursos. (HENDRIKSEN; VAN BREDA, 1999, p. 93).

  Se as informações financeiras são utilizadas por seus diversos usuários para, entre outros propósitos, analisar os aspectos financeiros e econômicos de determinada entidade, pode-se afirmar categoricamente que o Brasil, ao adotar a contabilidade internacional, deixou para trás uma linguagem de negócios − assim a definiu Warrent Buffet, segundo Trevisa n (2009) − arcaica, mais pautada pelo interesse fiscalista do Estado do que propriamente a representação fiel que deve ser o real objetivo da contabilidade.

  Weffort (2005), citado por Lemes e Silva (2007), explana os motivos que acarretam as diferenças nas práticas contábeis:

a) Características e necessidades dos usuários das demonstrações contábeis.

  b) Características dos preparadores das informações contábeis (contadores).

  c) Modos pelos quais se pode organizar a sociedade na qual o modelo contábil se desenvolve refletido, principalmente, por intermédio de suas instituições.

  d) Aspectos culturais.

  e) Outros fatores externos. (LEMES; SILVA, 2007, p.40).

  É fato que no Brasil, no contexto da inevitável abertura dos mercados, que se tem presenciado nos últimos anos, as empresas se depararam com dificuldades no que diz respeito à divulgação de informação financeira, àquele que não estava afeito às práticas contábeis até então adotadas no país. Deste modo, houve “um significativo custo extra e uma dificuldade a mais para a indispensável troca de informações e para a acomodação de posições” (PLOGER, 2007, p.4). As práticas contábeis adotadas no Brasil eram muito diversas daquelas vistas internacionalmente. Para as companhias que não procediam ao exercício custoso da conversão a uma prática internacional (princípios contábeis aceitos nos EUA ou mesmo IFRS - International Financial Reporting Standards), isto acarretava em interpretação errônea

  • – e por que não dizer decisão de investimentos não acertada – por porte dos investidores e usuários estrangeiros das demonstrações contábeis produzidas no Brasil.

  Nesse contexto, surgiu o Projeto de Lei 3.741, de 2000 que, de forma revolucionária tinha como principais objetivos: (i) adequar a contabilidade brasileira à adotada internacionalmente e (ii) trazer transparência às informações financeiras no país, ao exigir auditoria das demonstrações contábeis das empresas chamadas de grande porte (naquele momento, empresas cujo faturamento bruto era de R$ 300 milhões ou com ativos totais superiores a R$ 240 milhões). Após tramitar por 7 anos, o projeto tornou-se lei, a de número 11.638, de 28 de dezembro de 2007. Com suas 7 páginas, a Lei deixou a comunidade contábil positivamente surpresa e ao mesmo tempo preocupada já que, com 7 páginas, o feito de modificar o arcabouço contábil brasileiro para preparação e apresentação das demonstrações contábeis parecia muito pretensioso.

  A citação que segue foi feita por Iudícibus em relação à Lei 6.404/76 e poderia muito bem ser empregada para saudar a Lei 11.638/07:

  Parece-nos que, sob o aspecto contábil, não poderia ser mais oportuna a edição da Lei. O Brasil encontrava-se, em termos de Contabilidade, em uma posição ainda indefinida com relação à filosofia contábil básica a ser adotada pelos profissionais. Os profissionais estavam em um dilema, pois, por um lado, (...) alguns estudiosos já vinham apresentando e exigindo em parte uma abordagem preferencialmente norte-americana à Contabilidade e, por outro lado, a maioria dos autores clássicos ainda se filia ou se filiava à escola europeia (...) (IUDÍCIBUS, 2010, p. 329-330).

  As mudanças trazidas pela referida Lei não representam apenas um inegável avanço institucional − trazendo contribuições para elevar o grau de transparência das demonstrações financeiras e, assim, oferecer maior segurança ao investidor

  • – mas, também, por encerrarem a interferência do governo brasileiro ou a influência “fiscalista” sobre as informações contábeis.

  A Figura 1 mostra quem são os usuários da informação contábil.

  Figura 1 – Usuários da Informação Contábil.

  

Fonte: Adaptado de Marion (2004, p. 27). Evidentemente, um dos grandes usuários da informação contábil é o governo, como se depreende na Figura 1, todavia impingir às bases de avaliação dos elementos constitutivos das peças contábeis (ativos, passivos, receitas e despesas, por exemplo) princípios cujo intuito atendia tão somente tal usuário, não é definitivamente o propósito da ciência contábil, que, dependendo do usuário, tem uma expectativa a ser atendida, como apresenta o Quadro 1.

  

Usuário da informação contábil Meta que Desejaria Maximizar ou Tipo de

Informação mais importante Acionista minoritário. Fluxo regular de dividendos. Acionista majoritário ou com grande participação.

  Fluxo de dividendos, valor de mercado da ação,

lucro por ação.

Acionista preferencial. Fluxo de dividendos mínimos ou fixos.

Emprestadores em geral. Geração de fluxos de caixa futuros suficientes para

receber de volta o capital mais os juros, com segurança. Entidades governamentais. Valor adicionado, produtividade, lucro tributável. Empregados em geral, como assalariados.

  Fluxo de caixa futuro capaz de assegurar bons aumentos ou manutenção de salários, com segurança; liquidez.

Média e alta administração. Retorno sobre o ativo, retorno sobre o patrimônio

líquido; situação de liquidez e endividamento confortáveis.

  Quadro 1 – Expectativas dos usuários da informação contábil

Fonte: Iudícibus (2010, p. 5)

  Há de se ressaltar que a Lei 6.404, de 1976, já havia representado um enorme avanço para a Contabilidade, dado que importantes avanços foram conquistados.

  Podemos, com o auxílio de Iudícibus, resumir as grandes contribuições de tal Lei sob o aspecto contábil, lei esta que representou um avanço “irrefutável, relevante e irreversível” (IUDÍCIBUS, 2010, p. 331):

  1. Clara separação entre Contabilidade Comercial (Contabilidade “Contábil”) e Contabilidade para fins fiscais.

  2. Aperfeiçoamento da classificação das contas no balanço.

  3. Introdução da reavaliação a valor de mercado.

  4. Introdução do método de equivalência patrimonial na avaliação de investimentos.

  5. Criação da reserva de lucros a realizar.

  6. Aperfeiçoamento do mecanismo de correção monetária.

  E também houve à época, comemoração por parte da comunidade contábil no que diz respeito à inserção de conceitos de Contabilidade mais alinhados com o objetivo de representação fiel da situação patrimonial e financeira de determinada entidade do que com preocupações fiscais.

  Como nos aponta Niyama:

  Até então (1970) a Contabilidade no Brasil foi marcada pela forte influência da legislação tributária, que determinava procedimentos contábeis para classificação de contas e apropriação de receitas e despesas, nem sempre adequadas à luz da Teoria contábil (NIYAMA, 2006, p. 2).

  A grande preocupação quanto à “sobrevivência” do processo de harmonização das práticas contábeis brasileiras às adotadas internacionalmente era no que diz respeito a como o Fisco brasileiro trataria os ajustes a serem efetuados, já a partir de 2008, para trazer a contabilidade antiga à nova. A Lei 11.638, no parágrafo 7 do artigo 177, já previa:

  Os lançamentos de ajuste efetuados exclusivamente para harmonização de normas contábeis (...) e as demonstrações e apurações com eles elaboradas não poderão ser base de incidência de impostos e contribuições nem ter quaisquer outros efeitos tributários (LEI 11.638, art.177, § 7).

  O Fisco brasileiro tardou a manifestar-se, com a promulgação da Medida Provisória 449, de 03 de dezembro de 2008, quase um ano após a edição da Lei 11.638/07. Tal Medida Provisória, que foi convertida na Lei 11.941, de 27 de maio de 2009, dissipou a preocupação de haver a neutralização (nem tributação nem dedução) dos efeitos ou ajustes decorrentes da adoção da Lei, pois a neutralidade fiscal foi, de fato, outorgada pelo Fisco, ou seja, a contabilidade antiga ainda valeria para propósitos de tributação, não sendo os ajustes (dedução no caso de despesa ou diminuição do lucro ou tributação no de receita ou aumento do lucro) levados em consideração para o recolhimento ou compensação de impostos sobre o lucro.

  Outra novidade trazida pela Lei foi a extinção da Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) e introdução da Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC), aumentando, consideravelmente, a visibilidade dos fluxos financeiros (de onde vêm e para onde vão) das entidades. Muitas empresas, voluntariamente, por demanda de mercado e regulações específicas (casos de segmentos diferenciados de empresas com ações na Bolsa de Valores de São Paulo - BOVESPA), já vinham apresentando tais demonstrações. A institucionalização, no entanto, foi importante, uma vez que obrigou uma padronização em prol dos usuários das demonstrações financeiras.

  Durante a passagem do texto pela Câmara dos Deputados, houve a eliminação de uma proposta que exigiria empresas de grande porte (ativo total superior a R$ 240 milhões ou receita bruta anual superior a R$ 300 milhões), ainda que não constituídas sob a forma de sociedades por ações, a publicar demonstrações financeiras. Permaneceu tão somente a obrigação de elaboração de demonstrações financeiras anuais, que deverão sofrer auditoria independente, por auditor registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), tal como as companhias abertas.

  A Lei também previu que a CVM, o Banco Central (BC ou BACEN) e demais órgãos e agências reguladoras poderiam celebrar convênio com entidade que tenha por objeto o estudo e a divulgação de princípios, normas e padrões de contabilidade e auditoria, podendo adotar suas orientações técnicas. O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), criado em 07 de outubro de 2005, e cuja formalização se deu pela Resolução 1.055/05 do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), cumpre essa missão. Idealizado a partir da união de esforços e comunhão de objetivos de entidades representativas de elaboradores e usuários de

  • – demonstrações financeiras (Associação Brasileira das Companhias Abertas ABRASCA; Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais - APIMEC NACIONAL; BM&F BOVESPA S.A. - Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros; Conselho Federal de Contabilidade - CFC; Instituto dos Auditores Independentes do Brasil - IBRACON; Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras – FIPECAFI), o CPC conta com o apoio dos

  órgãos reguladores. Desta forma, a regulamentação e a normatização de ordem contábil aproximaram-se e, em muito, de como se dá nos Estados Unidos, um país que inegavelmente encontra-se na vanguarda a este respeito.

  Nos EUA, a regulamentação e a normatização de matéria contábil estão sob a responsabilidade de um organismo do setor privado, o Financial Accounting Standard Board (FASB), mas a edição de padrões contábeis é sustentada pela SEC, que lhe Outorga

autoridade Substantiva (NIYAMA, 2006, p. 93).

  O Quadro 2 tem como objetivo mostrar os principais movimentos ocorridos na Contabilidade brasileira nos últimos anos com vistas à sua modernização.

  Evento Efeito prático

Publicação da Circular 179/72 pelo Padronizou a estrutura e a forma de apresentação

Banco Central (BC ou BACEN). das demonstrações contábeis das companhias

abertas.

Publicação da Resolução 220 pelo Obrigou o registro dos Auditores Independentes no

BC e Circulares 178 e 179. BC e normatizou os Princípios e Normas de

  Contabilidade em 1972.

Publicação da Lei 6.404 e posteriores Promoveu avanços nos conceitos de contabilidade

reformas. e de proteção ao acionista.

  Criação da Comissão de Valores Criou o “xerife” do mercado de capitais, de modo

Mobiliários (CVM), em 1976. que uma autarquia governamental se dedicava

exclusivamente a regulamentar e a desenvolver o mercado de capitais, vigiar as Bolsas de valores e companhias abertas.

  

Publicação da Resolução CFC 529. Disciplinou as Normas Técnicas Brasileiras de

Contabilidade (NBC’s) e as dividiu em NBC e NBC Profissionais em 1981.

Publicação da Resolução CFC 750. Estabeleceu novos Princípios de Contabilidade, em

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