RAFAELLE SETÚBAL GOMES DE ABREU

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS ESCOLA DE FORMAđấO DE PROFESSORES E

HUMANIDADES. PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO STRICTO

  

SENSU EM HISTÓRIA

RAFAELLE SETÚBAL GOMES DE ABREU EX-VOTOS DE TRINDADE: PERFIS DE UM IMAGINÁRIO RELIGIOSO GOIÂNIA 2012

RAFAELLE SETÚBAL GOMES DE ABREU EX-VOTOS DE TRINDADE PERFIS DE UM IMAGINÁRIO RELIGIOSO

  Dissertação apresentada ao Departamento do Mestrado em História (MHIST) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás como requisito à obtenção de Conclusão do Curso de Mestrado. Orientador: Prof. Dr. Eduardo José Reinato.

  Goiânia 2012 Dados Internacionais de Catalogação da Publicação (CIP) (Sistema de Bibliotecas PUC Goiás) Abreu, Rafaelle Setúbal Gomes de.

  A162e Ex-votos de Trindade [manuscrito] : perfis de um imaginário religioso / Rafaelle Setúbal Gomes de Abreu – Goiânia, 2012.

  103 f. : il. ; 30 cm. Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em

  História, 2012.

  “ Orientador: Prof. Dr. Eduardo José Reinato”. Bibliografia.

  1. Ex-votos. 2. Religiosidade. 3. Cultura popular. I. Título.

  CDU 27-544.6(043)

  Dedico esta Dissertação à minha família, que é meu porto seguro e sem a qual não seria possível a realização desta. E ao meu afilhado João Cláudio que é a minha fonte de alegria .

AGRADECIMENTOS

  Agradeço primeiramente a Deus, que sempre iluminou meu caminho, aos meus pais e meus irmãos que, com muito carinho e apoio, não mediram esforços para que eu chegasse até esta etapa de minha vida. De igual maneira agradeço também ao Senhor Londesmon Nunes Folha, pelo apoio e disposição a inúmeras visitas e caminhadas realizadas por nós a Trindade.

  “Os Ex-votos são o melhor testemunho da importância das peregrinações no âmbito das devoções individuais e coletivas”

  François Lebrun

RESUMO

  A presente dissertação procura desenvolver uma reflexão sobre os Ex-votos de Trindade-Goiás, em primeiro lugar como objeto e fonte de busca da história da devoção religiosa católica no início do século XXI, e em segundo lugar, buscando entender os ex votos como manifestação de uma devoção, de uma representação da vida e da sobrevivência cotidiana no contexto da Cultura Popular. A crença, suas manifestações, a devoção expressa nas retribuições ao Divino Pai Eterno ocorrem de diversas maneiras: mechas de cabelo, fotografias, peças de roupas... Sendo assim, o caminho para o historiador cultural é o de resgatar tais manifestações e devoções e alargar os domínios da pesquisa histórica, de forma a permitir que os objetos produzidos pelo homem/mulher (toda a sua vida material) fossem investigados e estudados. Os ex-votos como fonte, permitem um contato com alguns aspectos da religiosidade popular, sendo importante para o desenvolvimento também dos Estudos Culturais. No bojo dessa dissertação, procuramos desvelar o misto de crença, mistério e mística da expressão dos ex votos no contexto da saúde, da busca de prosperidade, da doença, da busca de um amparo, numa sociedade em que grande parcela se encontra desprovida de qualquer tipo de apoio para prover a saúde , a segurança , a prosperidade, tendo por outro lado, uma constante cobrança de tudo isso, por ser uma sociedade extremamente competitiva e desafiadora e propugnadora de um desamparo social e afetivo. O devoto assim, encontra nos santos de devoção ou em outras formas de devoção a possibilidade de retirar de seus ombros o peso da condução de uma vida ao desamparo.

  Palavras-chave: Ex-votos. Cultura Popular. Religiosidade Popular.

ABSTRACT

  This dissertation tries to develop a reflection about Ex-vows of Trindade – Goiás, first of all, as an object and source searching the history of Catholic religious devotion at the beginning of the century XIX, and secondly, seeking to understand the vows as a manifestation of a devotion, as a representation of life and a survival day to day in the context of Popular Culture. The belief, their manifestations, the devotion expressed in the payoffs to Divino Pai Eterno happen in several ways: strands of hair, photographs, pieces of clothing ... So the way to cultural historian is to rescue these events and devotions and extend the areas of historical research in order to allow the objects produced by man / woman (his life material) were investigated and studied. The ex-vows a source, allow a contact with some aspects of popular religiosity, and also important to the development of cultural studies. At the core of this dissertation, we reveal the mixture of belief, mystery and mystique of the expression of ex votes in the health context for the search of prosperity, the disease, the search for a shelter, in a society where large proportion is devoid of any kind of support to provide the health, safety, prosperity, and on the other hand, a constant charge of all this, being a society extremely competitive and challenging and advocated a social and emotional distress. The devotee thus finds in the saints of devotion or in other forms of devotion to the possibility of withdrawing from their shoulders the burden of driving to the helplessness of a life time.

  Keywords: Ex-vows. Popular Culture. Popular Religiosity.

LISTA DE FOTOS

  FOTO 01: A FAMÍLIA TEIXEIRA - DONA DINÁ, SR. GERVALINO (DA ESQUERDA PARA DIREITA), MARIA LUIZA (A SEGUNDA DA DIREITA PARA A ESQUERDA), FILHOS NETOS E BISNETOS. ................................................................................. 31 FOTO 02: OS IRMÃOS JOVERSON E MARIA LUIZA CAMINHAM RUMO A TRINDADE. ............................................................................................................... 33 FOTO 03: BISNETOS PARTICIPAM DO EX-VOTO DO CASAL TEIXEIRA. ............ 34 FOTO 04: BISNETO DO CASAL OBSERVA A BANDEIRA DO DIVINO PAI ETERNO. .................................................................................................................. 35 FOTO 05: CARRO DE APOIO PARA A FAMÍLIA TEIXEIRA. ................................... 36 FOTO 06: A FAMÍLIA TEIXEIRA EM PAUSA PARA O CAFÉ DA MANHA. ............. 37 FOTO 07: ALMOÇO DOS TEIXEIRA. ....................................................................... 38 FOTO 08: PAUSA PARA ALMOCO, TENDO AO FUNDO O RIO VERDAO............. 39 FOTO 09: FAMÍLIA DESCANSA DURANTE A PAUSA PARA O ALMOÇO. ............ 39 FOTO 10: JOVERSON SE PREPARA PARA O JANTAR......................................... 40 FOTO 11: PÉS CASTIGADOS PELA VIAGEM. ........................................................ 41 FOTO 12: O CASAL, GERVALINO E DINÁ. ............................................................. 43 FOTO 13: VOTANTES CARREGAM CRUZES PARA O CUMPRIMENTO DE PROMESSAS, ASSIM COMO O CRISTO SOFREDOR. ROMEIROS CARREGAM O OBJETO ATÉ O SANTUÁRIO DO DIVINO PAI ETERNO EM TRINDADE – GO. .... 76 FOTO 14: PAIS AGRADECEM PELA VIDA DO FILHO. ........................................... 78 FOTO 15: ROMEIRO CONSEGUE ENTRAR NOS ESTADOS UNIDOS ATRAVÉS DE MEIOS ILEGAIS E LEVA SUA FOTO ATÉ O SANTUÁRIO DO DIVINO PAI ETERNO. .................................................................................................................. 79 FOTO 16: ROMEIRO AGRADECE AO PAI ETERNO PELA “FORÇA” EM CONSEGUIU DINHEIRO PARA VISITAR A FLÓRIDA NOS ESTADOS UNIDOS. .. 80 FOTO 17 DEVOTA PEDE RESOLUđấO DE PROBLEMAS AMOROSOS. ............. 81 FOTO 18: ROMEIROS AGRADECEM A CONCRETIZAđấO DO MATRIMÔNIO .... 82 FOTO 19: ROMEIRA AGRADECE AO SER TRANSCENDENTE O DIPLOMA ACADÊMICO ............................................................................................................. 83 FOTO 20: ROMEIRO AGRADECE O PRÊMIO MILIONÁRIO DA LOTERIA. ........... 84 FOTO 21: ROMEIRA AGRADECE PELOS SEIOS FARTOS ................................... 85

  FOTO 22: ARTE NAÍF , A SANTÍSSIMA TRINDADE. .............................................. 86 FOTO 23: A SANTÍSSIMA TRINDADE REPRESENTADA EM ARTE NAIF. ROMEIRO RETRIBUI O MILAGRE. .......................................................................... 87 FOTO 24: A ESPONTANEIDADE DO VOTANTE RETRATADA NO QUADRO NA SALA DOS MILAGRES. ............................................................................................ 88 FOTO 25: MấE PEDE INTERSEđấO PELO FILHO USUÁRIO DE DROGAS. ........ 89 FOTO 26: MấE PEDE INTERSEđấO PELO FILHO USUÁRIO DE DROGAS. ........ 90 FOTO 27: JOVEM ROGA AO PAI ETERNO CONDIđỏES FINANCEIRAS PARA A AQUISIđấO DE UMA PRốTESE DE SILICONE. ..................................................... 91 FOTO 28: ROMEIRO EXPÕE, NA SALA DOS MILAGRES, SEU INSTRUMENTO DE TRABALHO QUE, PARA ELE, FOI CONCEDIDO PELO DIVINO PAI ETERNO. ..... 92 FOTO 29: ANIMAL DE ESTIMAđấO ACIDENTADO. ............................................... 93 FOTO 30: ROMEIRO DO DIVINO PAI ETERNO DOA AO SANTUÁRIO BASÍLICA DO DIVINO PAI ETERNO DOIS ANIMAIS COMO FORMA DE AGRADECIMENTO A CHUVA PROPORCIONADA PELO TRANSCENDENTE. ......................................... 94 FOTO 31: ANIMAIS SÃO DOADOS AO PAI ETERNO EM AGRADECIMENTO A CHUVAS NO PARÁ. ................................................................................................. 95 FOTO 32: ROMEIRA CONSEGUE APROVACAO EM CONCURSO PÚBLICO.....9 7 FOTO 33: ROMEIRA DO DIVINO PAI ETERNO REMETE A ELE COMO O “MEU SENHORZINHO” E AGRADECE A CURA DE UM CÂNCER NO INTESTINO. ........ 98 FOTO 34: FIEL REPRESENTA O ACIDENTE DE TRABALHO. ............................... 99

SUMÁRIO

  

1 INTRODUđấO ....................................................................................................... 13

  

2 ROMPEU A AURORA, RAIOU O DIA, VAMOS ROMEIROS COM DESTINO A

ROMARIA. ................................................................................................................ 26

  

3 O EX-VOTO PARA A SALVAđấO: O CÉU E A TERRA ANDAM JUNTOS PARA

ABSOLVER AS AFLIđỏES DO MUNDO TERRENO .............................................. 44

  

4 A FÉ DO ROMEIRO: O AMIGO PAI ETERNO ALIVIA O SOFRIMENTO DOS

FIÉIS ......................................................................................................................... 72

  

5 CONSIDERAÇOES FINAIS ................................................................................. 101

  

6 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 103

  6.1 FONTES ........................................................................................................ 103

  6.2 FONTES IMPRESSAS .................................................................................. 103

  As questões do Imaginário e do Religioso ganharam uma inegável importância na historiografia mundial nos últimos anos. Tentar buscar e compreender os nexos e as relações sociais e religiosas como forma de expressão humana em todas as suas possíveis manifestações, tem conduzido os historiadores a discutirem e investigarem esse tema.

  Embora ainda esteja em vias de se tornar um objeto privilegiado na historiografia brasileira, Michel Vovelle em um breve artigo — Os ex-votos do

  i território marselhês chama a atenção para a importância do ex-voto enquanto

  documento da história cultural. Trata-se de uma fonte capaz de revelar ao historiador aspectos da relação do homem com Deus; a presença do sagrado e do milagre na vida cotidiana, contribuindo para o estudo das atitudes religiosas populares. Além de Michel Vovelle, diversos estudos para a Europa já incorporaram o ex-voto enquanto sítio privilegiado da história das mentalidades. O mesmo se pode afirmar em relação ao tratamento da questão em Portugal e aos estudos realizados no México sobre os ex-votos.

  A grandiosa devoção dos romeiros, que se mobilizam de suas cidades e se dispõem a caminhar milhares de quilômetros, rumo ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, no município de Trindade, em Goiás, é a mais pura expressão de uma fé simples e popular. A fé no Divino Pai Eterno transformou-se em romaria. Ao longo dos anos, ganhou fama e trazia gente de todos os lugares. O refrão popular contava bem o espírito da romaria: "Coisa boa é bondade, festa boa é da Trindade".

  A romaria movimenta a rotina de Trindade desde que foi edificada a primeira capela, em 1843. O padre Antão Jorge, missionário redentorista e vigário, coordenou as obras de construção do santuário em 1911. Como a igreja tornara-se pequena para o grande número de romeiros, em 1912 foi inaugurado o Santuário, em estilo barroco, hoje Matriz de Trindade (Santuário Velho).

  A devoção ao Pai Eterno atravessou os anos e passou a arrastar multidões para Trindade, cuja emancipação política foi conquistada em 1920. Os romeiros vinham a pé, a cavalo e em carros de boi, dias e dias na estrada, para rezarem diante da imagem e agradecerem as graças recebidas. Por isso, em 1943 o arcebispo de Goiânia, D. Emanuel Gomes, juntamente com os missionários redentoristas lançaram a pedra fundamental do novo santuário.

  É um fenômeno que representa um profundo sentimento religioso, iniciado com a partida de Moises que, junto com seus seguidores, caminhou quarenta anos pelo deserto em busca de Canaã, a Terra prometida por Deus.

  Dessa forma, o segundo maior Santuário do Brasil, a Basílica do Divino Pai Eterno, acolhe anualmente dois milhões de peregrinos que se diferem quanto à raça, cultura, condições sociais e econômicas, mas que se aproximam em relação ao credo em uma Entidade Divina Superior, para a qual eles declaram toda sua devoção, cumprindo uma promessa e levando um donativo.

  O Ex voto é a maneira utilizada pelos fiéis para reconhecer e agradecer pela intervenção da Santidade frente a uma adversidade, como acidentes, problemas de saúde, problemas financeiros, pedidos de viagens, casa própria, formaturas, questões estéticas e outros. Quando o santo devotado propicia a aquisição da benção, há uma retribuição que se manifesta sob várias formas, como a oferta de fotografias, artefatos artesanais como partes do corpo, pedaços de cabelo, aparelhos ortopédicos, dentre vários outros, que são guardados na Sala dos Milagres, no interior da Basílica do Divino Pai Eterno.

  Segundo Maria Amália Corrêa Giffoni, os ex-votos são associados às necessidades sociais da “gente do povo”, a cultura popular é sinônimo de exotismo, primarismo e espontaneidade.

  Durante o século XVII e início do XIX, o povo se tornou um tema interessante para os intelectuais, seria uma “descoberta” da cultura popular. A descoberta da cultura popular fazia parte de um movimento de primitivismo cultural no qual o que era natural, simples, instintivo e irracional, numa perspectiva romântica do século XIX.

  Em artigo escrito com Michel de Certeau, e Dominique Julia, Jacques Revel comparou essa descoberta da cultura popular a uma criança espontânea e ingênua, o povo é uma vez mais a criança. Sendo assim, a cultura popular é era o início e a infância de uma cultura que o folclore teria a função de proteger.

  O Historiador Arnold Hauser afirma que o “Romantismo ignorou as características concretas da arte folclórica e pelo fato de realçar o seu caráter supostamente universal e arquétipo, transformou-a num fenômeno de concepção vaga”. Hauser acaba com a idéia de que existe uma “alma do povo” e que se possa aplicar essa noção às manifestações da cultura folclórica e popular. Esse historiador da Arte afirma ainda que seja necessário considerar que as obras de arte não têm origem no ar rarefeito de um mundo do espírito; a produção artística é algo de dinâmico e dialético, um ato ligado ao todo da vida, uma atividade enraizada na prática.

  Existe uma enorme dificuldade em se estudar e definir a Cultura Popular. Para Jean-Claude Schmitt o problema de definição do conceito da cultura popular, que pode assumir vários significados.

  De acordo com Roger Chartier, a identificação da cultura popular deve ser buscada na apropriação que os grupos fazem dos objetos culturais, ou seja, nos significados que certos grupos atribuem a esses objetos. Já para Michel de Certeau, a cultura popular se apresenta diferentemente, ela se formula essencialmente em “artes de fazer” isto ou aquilo. As práticas revelam uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar.

  Esses autores tentam demonstrar a importância de se refazer as relações entre a cultura popular e a cultura erudita. Os estudos culturais procuram romper com a visão de que a cultura do povo, que está oposta a cultura da elite.

  O conceito de cultura popular fornece subsídios teóricos para uma compreenção do significado dos ex-votos. O ex-voto é compartilhado tanto pelos membros da camada da sociedade financeiramente abastecida, quanto pelos menos favorecidos. O ex-voto permite entrar em contato com uma cultura que possibilita novos significados à religião.

  O ex-voto é uma fonte de investigação. As imagens e as legendas permitem um contato mais direto com alguns aspectos da religiosidade popular. Confessar um problema, doença, através do voto, revela aspectos importantes do cotidiano e da vivência religiosa. O ex-voto desvenda a relação entre a religião vivida e a exigida pela Instituição Religiosa.

  Na história da religião e da medicina, encontramos dois modelos para entender a doença/pecado e a saúde/salvação. O primeiro vincula-se às categorias de puro/impuro, presentes em todas as religiões. É a idéia que elementos estranhos podem trazer sujeira ou contaminação em todas as dimensões da vida: corporal, psíquica, ritual, pessoal, moral, sacramental, social... no contexto desse simbolismo, cura e salvação assumem o caráter de purificação, por exemplo nas técnicas de assepsia e desinfecção ou nos rituais de exorcismo ou aspersão com água. Encontramos o segundo modelo na medicina antiga, que considerava a doença como uma perturbação da constituição harmoniosa do corpo, baseada no equilíbrio de forças ou “humores”. A arte de curar devia procurar restabelecer a harmonia do todo identificado com saúde e beleza, conforme o ditado Mens sana in corpore sano.

  A Igreja e a Medicina sempre foram produtores de saberes sobre o corpo. Para o saber médico, durante muitos séculos as doenças foram encaradas como algo sobrenatural. A Bíblia refere à lepra como castigo divino, os epilépticos eram considerados possuídos por demônios e mesmo hoje em dia, muitas culturas consideram que a feitiçaria ou espíritos maléficos são a principal causa das doenças.

  Salvo algumas exceções, os tratamentos não eram com base em conhecimentos práticos adquiridos por observação. Em vez disso eram derivados reza ao espírito responsável, um encantamento para proteger o doente da feitiçaria ou uma poção feita em uma parte sugestiva de um animal, e tudo isto para a mesma doença.

  Mesmo na Idade Média, o sistema era semelhante. Não se recorria tanto a espíritos para explicar a doença, mas sangrava-se a torto e a direito, com cortes ou sanguessugas, para retirar os “humores” prejudiciais. Tudo isso porque séculos antes Hipócrates lembrou-se de escrever que todas as doenças são causadas por desequilíbrios entre os quatro fluídos que acreditava formar o corpo humano.

  Só por volta do século XVII é que se começou a generalizar a idéia de testar hipóteses com experiências e observações, ou seja, inventar uma explicação era apenas o primeiro passo; a seguir era preciso ver se era de fato correta. Esta inovação metodológica marca o início da Ciência Moderna. O Genoma (a soma de genes que define como funciona um ser vivo.) que é transmitido, com variações individuais, de geração em geração e determina a espécie do ser vivo. Nele se encontram gravadas nossas características hereditárias encarregadas de dirigir o desenvolvimento biológico de cada indivíduo.

  Para a Igreja, devido ao pecado original, o homem era visto como um ser miserável, condenado a suportar a dor e o sofrimento. A Igreja procurava enquadrar assim o corpo em um discurso religioso,reivindicando para si seu controle.Reduzindo as enfermidades a causas sobrenaturais, a Igreja criava também uma justificativa para elas. A doença tornava-se então uma espécie de purgadora dos pecados, necessária à salvação das almas. A relação entre o sofrimento físico e a salvação das almas ajuda a compreender melhor a perspectiva da cultura eclesiástica.

  1, Para humilharmos-nos, 2, para desapegarmo-nos do mundo e de nós mesmos, 3 para preparar-nos à morte 4 para punir-nos de nossos pecados; e dar- nos lugar de expia-los pela penitência, 5 para ensinar-nos ser pacientes e mortificados, e para purificar-nos com estes castigos corporais.

  Carlos Colbert, bispo de Montpellier Para aqueles que se deparavam com o mistério do sofrimento e da doença, a mensagem da Igreja era bastante clara: a doença é um castigo e uma advertência: castigo pelos pecados do homem e advertência para que pudessem se preparar para uma “boa morte”.

  Diante da importância que adquiriu a questão da “boa morte”, existem consideráveis investimentos por parte da Igreja, que criou seminários e encomendou obras artísticas sobre o tema com fins pedagógicos, e das irmandades, que forneciam condições materiais para que os irmãos tivessem uma “boa morte”. Diversos foram os religiosos que deixaram mensagens específicas relativas ao “bem morrer”. De acordo com o padre Manoel Bernardes, “nossa salvação depende de termos uma boa morte”. Mas para morrer bem, o homem deve se abster dos apetites do corpo, das paixões e vaidades do mundo terreno. Para as determinações eclesiásticas, era necessário tratar primeiro cuidar da alma para depois cuidar do corpo.

  Para a Igreja, a doença é portanto, um açoite da mão de Deus, muitas vezes necessário para a salvação. A proposta de resignação e sofrimento que a Igreja defende, espelha-se em grande parte, na vida dos santos: “sendo de carne e osso, como nós... sofreram com admirável paciência suas dores e aflições muito maiores que as nossas por amor de Cristo.” Além disso, o cristão também é convidado a se espelhar no sofrimento de Cristo. Isso representa a ênfase da Igreja na mortificação do corpo. É uma mudança sensível em relação à forma como a dor era percebida.

  Ao mesmo tempo em que há uma identificação com as chagas de Cristo e dos Santos, acredita-se que estes podem se apiedar e curar suas enfermidades. Sendo assim, no imaginário popular, muitas vezes o Cristo vingativo e terrível cede à imagem de Cristo sofredor e misericordioso. Além dos devotos que veneram a imagem de Cristo sofredor, existem os que demonstram devoção a Cristo.

  Esse aspecto foi percebido por Sérgio Buarque e Holanda, que em Raízes do

  

Brasil notou a forma de louvar Cristo entre os colonos e indicava a existência de um

  sentimento humano e mais singelo: todos querem estar em intimidade com as

  Ao tomarmos os ex-votos de Trindade estamos definindo um universo de fontes para o trabalho histórico que são, na sua grande maioria, visuais. No entanto, os ex-votos não são unicamente uma fonte visual. Junto a uma foto, pode-se encontrar um texto descritivo, no mais das vezes manuscrito, da família ou do próprio “ miraculado”. Também quando analisamos Ex-votos feitos em pintura em tela e a óleo ou em retábulos de madeira, podemos encontrar junto a maioria dos quadros, descrições da cena pintada ou fatos referentes ao próprio milagre.

  A príncípio, devemos ressaltar serem os Ex-votos uma fonte visual, o que permite uma reflexão: ao longo do tempo – como nos lembra Meneses, ao se aproximar do campo visual, o historiador reteve, quase sempre, exclusivamente a

  ii imagem – transformada em fonte de observação.

  Outra forma de abordagem do campo visual caracterizado desde os anos 60, é a atitude de iluminar as fontes visuais com a informação histórica externa. Não se tem buscado, desde então, uma forma de produzir conhecimento histórico novo, a partir dessas mesmas fontes. Dessa maneira, a função da imagem tem se limitado ao seu uso como ilustração. Segundo Meneses:

  “... a ilustração agia com direção fortemente ideológica, mas não é menos considerável seu peso negativo, quando o papel que ela desempenha é o de mera confirmação muda de conhecimento produzido a partir de outras fontes ou, o qual é pior, de simples indução estética em reforço ao texto, ambientando

  iii afetivamente aquilo que de fato contaria.

  De maneira geral, os estudos mais recentes sobre cotidiano, vida privada, mentalidades e imaginário, são recheados desses exemplos de usos de fontes visuais. Apenas como elemento ilustrativo, na sua grande maioria, a imagem torna-se silenciadora dos cotidianos e mentalidades, muito mais do que contribuinte efetiva. Assim, a fonte visual não tem suplantado a situação de repositório especular da informação escrita e empírica. O perigo evidenciado desse tipo de utilização em si, de toda forma a-historicizada, como acrescenta Meneses: que disto resulta um processo de dependência das técnicas de leitura derivada de uma submissão mecânica à iconografia/iconologia, ou até mesmo, de uma semiótica a-historicizada.

  Tudo isso tem impedido que se estudem os enunciados próprios das imagens, ou suas trajetórias, limitando-se a uma abordagem ou das mentalidades, do imaginário e da ideologia.

  As iniciativas em torno da história da fotografia, ou mesmo da relação entre fotografia e história, mostram-se com uma relativa consistência, visto ter sido esse o campo que melhor absorveu a problemática teórico-conceitual da imagem, ao emso tempo que gerou um desenvolvimento autônomo nos últimos anos.

  Recentemente, tem sido organizados arquivos e bancos de dados em torno de coleções fotográficas, seja álbuns de família, e até mesmo arquivos específicos de fotos que mostram festas em cidades e mesmo da evolução das cidades observada através das imagens. Coleções de caricaturas, pnturas de viajantes, e mesmo a cartografia tem sido sistematicamente organizadas como fontes visuais, e não mais como complementos visuais para fontes escritas. No entanto, grande parte do restante da iconografia está ainda a descoberto.

  O ex-voto como fonte utilizada, permite um contato mais direto com alguns aspectos da religiosidade popular. Mas isso só é possível quando ocorre um contato com as imagens e as legendas dos mesmos. Confessar uma doença, uma situação de aflição, ou até mesmo uma situação que para muitos seria banal, revela aspectos da vida cotidiana e da vivência religiosa. O Céu e a Terra andam de “mãos dadas” o tempo inteiro, e as imagens servem como o conhecimento da sensibilidade popular.

  A base dessa pesquisa é constituída pelos ex-votos, e para compreender as relações desses artefatos com a religiosidade popular, outras fontes como constituições eclesiásticas e obras teológicas que insistem na caracterização do pecado, inferno, juízo que os cristãos/peregrinos do Divino Pai Eterno deveriam aderir, também foram utilizadas. Os testemunhos também foram de extrema importância para a fundamentação desse trabalho, uma vez que foram fundamentais para compreender os significados da prática votiva.

  A nosso ver esse ainda é o caso das fontes visuais vinculadas á religiosidade popular, como é o caso dos ex-votos. No caso do interior do Brasil, e mais especificamente em Goiás, essas fontes não foram até então consideradas relevantes para os estudos históricos. Vinculadas à preocupação precípua de artistas e estudiosos de arte Naïf, são ainda documentos inéditos para boa parte dos historiadores.

  Vale ressaltar e identificar ainda o núcleo histórico do qual lançamos mão. Assim, é imprescindível entender a origem e base de um surgiu a devoção ao Divino Pai Eterno. Todo o Sul de Goiás, do rio dos Bois à divisa de Minas Gerais constituía o território do antigo distrito de Santa Cruz, existente desde o século 18. No ano de 1833 esse território foi dividido em três partes, formando os municípios de Santa Cruz, Catalão e Bonfim (Silvânia).

  O distrito de Santa Cruz, criado em 1776, tinha um imenso território que abrangia todo o Sul de Goiás. A Oeste, sua divisa era o rio dos Bois; a Sul e a Leste, o rio Paranaíba; a Nordeste fazia divisa com o município de Santa Luzia (Luziânia) e ao Norte, com o município de Meia Ponte.Em 1833 uma resolução provincial dividiu o distrito em dois, criando os municípios de Santa Cruz e Catalão. No mesmo ano, outra resolução criou o município de Bomfim, que incluía todo o território onde já existia o arraial das Campinas e onde alguns anos depois surgiria Trindade, e bem mais tarde, Santa Bárbara e Campestre.

  A partir de 1833 o sudeste goiano começou a construir uma identidade. Além da constituição dos três municípios, Santa Cruz tornou-se sede da Comarca, teve juiz de direito nomeado e com a constituição da Assembléia Legislativa Provincial, a região começou a ter representação política na capital.

  Durante o período até 1905, o município de Santa Cruz foi repartido, formando os municípios de Morrinhos, Piracanjuba e Corumbaíba, além dos distritos municípios. Catalão também se dividiu para formar Ipameri. Do município de Bomfim, surgiu, em 1880, o distrito de Suçuapara, que dezesseis anos depois se tornaria município de Bela Vista. Esse distrito tinha uma vasta área e integrava as pequenas localidades de Campinas e Barro Preto.

  Suçuapara fazia divisas com Alemão (Palmeiras), Curralinho, Santana de Antas (Anápolis), Bomfim e Pouso Alto (Piracanjuba). Pela sua extensão, não demorou muito para que também começasse a ser dividido.

  Foi no ano de 1810 que algumas famílias, lideradas por Joaquim Gomes da Silva Gerais, deixaram Meia Ponte e se estabeleceram onde hoje é Goiânia. Fundaram, então, o arraial de Campinas, que ficou subordinado a Santa Cruz. A formação do arraial propriamente dito começou com a criação do patrimônio de Nossa Senhora da Conceição e a construção da primeira capela, em data desconhecida, pelo alferes Joaquim segundo registros do Livro do Tombo da Freguesia(paróquia). No dia 13 de abril de 1839, faleceu o Sr. Joaquim Gomes, sendo sepultado no adro, em volta desta capela. Grande parte dos moradores tinham imigrado do Estado de Minas Gerais. De qualquer forma, desde 1836 a igrejinha já possuía Livro de Casamento, como “Capella Curada da Paróquia de Bonfim”, hoje Silvânia.

  A Matriz de Campinas, recebeu esse nome exatamente da mesma forma que todas as suas irmãs do interior. Foi a primeira igreja construída em Campinas. Foi construída em 1844. Antigamente, a igreja se constituía como centro do povoado. Era o ponto de reunião das pessoas, que ficavam ali depois das celebrações. Durante a semana, o movimento era fraco a regular. O melhor ficava para Sábado e Domingo. Virava uma verdadeira festa. Nesses dias o pessoal da roça vinham para a cidade e os operários estavam de folga. Aí o movimento crescia. Todos vinham fazer sua compras na cidade.

  A igreja, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, foi elevada à dignidade de freguesia pela lei provincial de 10 de julho de 1843, constituindo-se em “Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas. A primeira imagem de Nossa A Imaculada Conceição foi proclamada Padroeira do Império Brasileiro por D. Pedro I e já no despontar do século XX, com o advento da República, o título cedeu lugar à Nossa Senhora Aparecida, que é uma antiga imagem da Imaculada Conceição encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, em Aparecida.

  Os primeiros dados estatísticos sobre Campininhas foram fornecidos por Cunha Matos, em 1824: “Fica aproximadamente 24 léguas ao sudeste da cidade de Goiás. Tem 11 casas e uma capela de Nossa Senhora da Conceição. O arraial é habitado por

  iv

  agricultores e criadores de gado para o fornecimento da cidade.” A velha igreja matriz se localizava em ampla praça, onde até a década de 1920 pastavam tranqüilamente eqüínos, muares e bovinos. Impressionava os alemães que mal atravessavam as ruas e em especial o largo da matriz e observava que servia de pasto para a tropa e para o gado de particulares.

  O município de Campinas foi criado por lei estadual em 1907, ao qual passaram a pertencer os arraiais de Barro Preto e São Sebastião do Ribeirão, além das nascentes povoações de Aparecida e São Geraldo.

  Dois anos depois, a lei municipal n. 5, de 12 de março de 1909, criava o distrito do Barro Preto e alterava seu nome para Trindade, incluindo no seu território o arraial do Ribeirão. Cinco anos mais tarde, outra lei municipal estabelecia o distrito de São Sebastião do Ribeirão, que depois receberia o nome de Guapó.

  Finalmente, a lei estadual n. 662, de 16 de julho de 1920, criou o município de Trindade, com território desmembrado de Campinas e a ele anexado o distrito de São Sebastião do Ribeirão. Sete anos depois, sua sede foi elevada à categoria de cidade, através da lei estadual n. 825, de 20 de junho de 1927.

  Em 1927, o sul do estado tinha a maior concentração de municípios – conseqüência de uma população maior, melhor organização político-administrativa e estadual começou a trabalhar a transferência da capital, todas as localidades selecionadas estavam em municípios dessa região.

  A escolha do sítio da nova capital no município de Campinas, de onde Trindade havia sido desmembrada e com o qual tinha a mais extensa divisa, conferiu a este município uma nova centralidade geopolítica no Estado.

  Até então, Trindade era apenas lugar de passagem para a velha capital ou para a ferrovia. Com a nova capital, alteraram-se todas as correlações e o próprio papel da cidade e do município. Estabeleceu-se uma nova relação que trouxe grandes benefícios.

  Segundo a tradição, o povoado de Barro Preto teria surgido por volta de 1840. Naquele ano, Constantino Rosa e Ana Xavier, ao roçarem um pasto ao lado do córrego Barro Preto, teriam encontrado um medalhão de barro. O medalhão representava a “Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria”. Com a descoberta, Constantino e Ana reuniam a gente humilde da região sempre aos sábados para rezar o terço. Em pouco tempo, a casa já não conseguia acolher tanta gente para a oração diante do Pai Eterno.

  A primeira capela, coberta de folhas de buriti, foi construída pelos habitantes em 1843. Os devotos vinham de todo lugar, trazendo presentes e ofertas. Logo se ergueu uma capela de alvenaria, coberta de telhas. Surgia o patrimônio da igreja, com doações de terras pelos fazendeiros do arraial.

  Em 1850, Constantino, Valentim Romão e Luiz de Souza doaram o terreno ao Divino Pai Eterno, formando o patrimônio de onde viria a se desenvolver o povoado do Barro Preto. O nome foi adotado em razão da característica da terra local, marcada pela cor escura, além, é claro, da influência do córrego Barro Preto, assim chamado porque suas margens tinham uma lama gosmenta e preta.

  Mas há uma outra versão para essa história. Constantino teria encontrado o medalhão de barro em sua olaria. É possível até que tenha sido ele o fabricante da peça. O historiador Miguel Arcângelo Nogueira dos Santos sustenta a tese de que, ao desejar construir uma capela em sua propriedade, Constantino teria antes perguntado a um padre qual o santo mais forte. Este teria respondido que força maior não havia do que a da Santíssima Trindade: Deus, seu filho Jesus e o Espírito Santo.

  Os primeiros devotos e moradores do Arraial tornaram-se devotos da Trindade, de tal maneira que, em 1854, o próprio arraial já era conhecido pelo nome de Santíssima Trindade do Barro Preto.

  Aos primeiros romeiros pouco importou o fato de o medalhão ter sido achado ou fabricado. A religiosidade se constituiu em torno não da Trindade, mas de um Deus uno e todo poderoso: o Pai Eterno. Constantino e os devotos resolveram retocar o medalhão sagrado, já gasto pelas romarias. Para tanto, a tarefa teria sido destinada a José Joaquim da Veiga Valle, da cidade de Pirenópolis.

  Entretanto, o artista não retocou o medalhão e sim criou uma outra escultura representativa, feita em madeira, e ainda hoje venerada no Santuário de Trindade. O medalhão ficou desaparecido até ser reencontrado na década de 1990, quando um devoto o teria devolvido ao se confessar. Mesmo havendo dúvidas quanto à autoria da imagem, ela passou a cumprir a missão de referenciar a fé dos moradores e romeiros de Trindade.

  Ao longo da dissertação, também serão abordadas as mudanças ocorridas nos ex-votos e como essas alterações contribuíram para agregar valores à cultura popular goiana e brasileira.

  A romaria, para os estudos históricos relacionados às devoções e religiosidades é a síntese da história da peregrinação do povo de Deus. Para os católicos teve início com a partida de Moises em busca da Terra prometida, passando 40 anos de caminhada pelo deserto. Dentro desta dinâmica, desde a referência a uma possível descoberta do medalhão há mais de 169 anos, os devotos do Divino Pai Eterno saem de vários lugares e um só destino, a hoje cidade de Trindade, e ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, um lugar de paz para onde eles vêm para alcançar suas graças e fazer seus louvores; enfim, chegar à Terra Prometida no coração do Pai.

  No arraial de Barro Preto, hoje denominado simplesmente de Trindade, no interior do Estado de Goiás (não muito longe do local atualmente ocupado pela nova capital do país, Brasília), por volta de 1840, surgiu a romaria do divino Pai Eterno. A história fundadora da devoção inicia-se com um casal de camponeses (Constantino Xavier Maria e sua mulher Ana Rosa de Oliveira), que se reunia diariamente com vizinhos para rezar o terço diante de uma medalha de barro (de oito por dez centímetros), deu início à mais importante manifestação religiosa do Brasil central. No medalhão que, segundo a lenda, teria sido descoberto de modo milagroso no chão de um pasto , estava gravada a imagem da Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria: uma “quaternidade” que não podia deixar de ser considerada como o “Santo mais poderoso” visto que desde muito tempo, esse era o desejo do Constantino, qual seja, ter a devoção a um santo que fosse o mais poderoso dos santos, como a tradição repete sua história. Dizem que ele havia consultado um padre para saber qual seria o santo mais poderoso, e o padre havia lhe dito que o mais poderoso serio o divino pai eterno. Daí teria derivado a devoção a esse santo, que na verdade configurava-se

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