MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIROS VASCONCELOS AVANÇOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENÇÃO ÀS SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL

  

AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS

SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL

CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES:

A experiência de São José dos Campos

  

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

SÃO PAULO

2009

MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIROS VASCONCELOS AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: A experiência de São José dos Campos

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia Social, sob a orientação do Professor Doutor Raul Albino Pacheco Filho.

  SÃO PAULO 2009

  AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: A experiência de São José dos Campos

MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIRO VASCONCELOS BANCA EXAMINADORA

  ____________________________ ____________________________ ____________________________ Defendida e aprovada em ___/____/2009.

DEDICATÓRIA

  Cada linha com amor para o meu filho Pedro, pela esperança, força, e confiança de que dias melhores virão.

  Obrigada por você existir e por ter estado comigo nessa trajetória de mudanças e por compreender as ausências, os momentos de tristeza e por trazer cotidianamente alegria para a minha vida. A todas as crianças do meu país, no desejo de que seus direitos sejam preservados e de que a alegria da infância esteja sempre presente em nossas vidas.

  A Sabrina e a todos os profissionais que aceitaram o convite de contribuir com essa pesquisa, por meio de seus depoimentos, meu eterno agradecimento e carinho.

AGRADECIMENTOS

  O momento de agradecimento nos remete ao início dessa viagem, permeada por momentos distintos de alegrias, de descobertas, de retorno à Universidade e também marcado por momentos de mudanças bruscas, despedidas e dores. Em meio a essa travessia, por um longo e doloroso deserto, encontrei vários oásis, que representam o oxigênio, a força, a vitalidade e o apoio na hora certa. Esse tesouro encontrado e reencontrado em cada etapa dessa trajetória foram amigos e familiares, pacientes e confiantes durante esse trajeto. Sem o apoio de vocês com certeza eu não teria conseguido. Portanto, o carinho, a amizade e a gratidão por vocês são imensos e sempre estarão presente em meu existir.

  Na bagagem levarei sempre comigo as lições aprendidas, os acertos e desacertos e a certeza de que apesar de tudo valeu a pena! São muitas pessoas a agradecer, espero não esquecer ninguém, porém se porventura a memória me trair, queiram desculpar-me e saibam que estarão registrados em meu coração.

  Ao Departamento de Pós Graduação em Psicologia Social da Universidade Católica de São Paulo a Equipe de Professores e em especial à Profª. Drª. Mary Jane Spink e a querida e atenciosa Marlene.

  Ao CNPQ pela bolsa de estudos concedida, a qual viabilizou essa pesquisa. Ao meu Orientador Profº Dr. Raul Albino Pacheco Filho, pelas lições aprendidas e pela compreensão durante todo esse processo.

  Um obrigado especial a todos o colegas da Pós Graduação e do Núcleo de Psicanálise e Sociedade, pelas trocas, pelo companheirismo e pelo aprendizado (Margarete Carlinha, Gui, Cinara, Gêison, Sylvio Ferreira, Taeko, Fuad, Cris Sumita, Cria Andreotti, Graciela e Gabriela, Alessandro, Vinícius, Celso).

  Em especial, às queridas amigas, irmãs - Margarete Marques e Jaqueline Maio - que estiveram presentes em toda essa trajetória e principalmente nos momentos mais difíceis.

  Aos colegas e Consultores do Instituto WCF - Childhood Brasil, pela confiança, apoio, desafios e, sobretudo pela oportunidade profissional: Ana Drummond, Carolina Padilha,

  Rose Myahara, Margarete Marques, Jaqueline Maios, Zé Carlos, Isa Guará, Isabela, Tauly, Neusa, Eva e Elder.

  Aos queridos profissionais e amigos da Rede de Proteção de São José dos Campos, que não mediram esforços para contribuir com essa pesquisa, obrigada pelo acolhimento, amizade, profissionalismo e solidariedade: Mônica, Hélio, Ana Carla, Verônica, Rosane, Luigi, Sueli, Rosa, Marlene, Abud, Gilberto, Sandro, Lúcia, Silvério, Augusta, Rogério, Dora, Emídia, Cris, Michele, Sônia, Mariza, Silvério, entre tantas outras pessoas queridas.

  Às professoras Cristina Vicentim, Tatiana Landini, Renata Libório, Isa Guará, Catarina Koltai e Maria Lúcia Leal, pelo apoio, aprendizado e ética.

  Aos colegas e amigos pelo acolhimento e sonhos compartilhados: Créu, Welinton, Rô, Claudinha, Cláudia Fígaro, Zé Carlos Garcia, Tadeu, Alex, Claudio Cohen, Théo Lerner, Sandra Paulino, Alex, Tadeu, , Marcelo Neuman, Simone Malak,, Analene, Edilenie, Raniere, Denise, Marisa, Rejane, Ana Lúcia, Dilma Felizardo, Neuma Lúcia, Joelma, Fernando Silva, Eliane, Zélia, Jozélia, Madalena Fucks, Ademar Marques, Ana Luiza, Chris Gesteira, Ana Lúcia, Silvino, Malú, Gabi, Juliani, Eleonora, Inês, Joelson, Bárbara, Rosana, Juliani Loureiro, Michelle Lima, Inês, Rosana, Roseane Miranda e tantos outros...

  A Ede Oliveira por tudo que aprendi com você, pela escuta assertiva e pelo cuidado e acolhimento durante os anos em que vivi em São Paulo.

  A Pedro Leonardo, por me escutar e acolher em Recife, neste momento de transição. Às queridas Lourdes, Nice, Isaura e suas famílias, pela dedicação, fidelidade e amor dedicados a minha família e em especial ao meu filho, durante todos os anos em que vivi em Sampa. Enfim, a minha querida família: Ao Marinho pelo companheirismo, sonhos compartilhados, compreensão e amor dedicados ao nosso Pedro.

  A Pathy, Paulinha, Artur e Willian, com quem aprendi a por em prática o conceito de família ampliada, de solidariedade e companheirismo.

  Aos queridos Detinha e Lusinete e aos meus avós Amara, João Alexandre, Tita, e Hipólito in memorian.

  À minha mãe, pelo amor, solidariedade, presença e exemplo de luta e alegria. Ao meu pai pela vida, simplicidade e carinho. À minha querida tia Nair pela crença e amor dedicados a mim, presença incondicional em todos os momentos e aos meus tios Carlos, Jaziel, Anunciada e Totó, que me fazem lembrar os bons tempos da infância em Frei Miguelinho. Ao meu irmão Junior, à minha cunhada Marcina e aos meus amados sobrinhos Igor e Marina, com quem vivencio momentos de alegria, solidariedade e por representarem juntamente com o Pedro a continuidade da nossa família.

  Alberto Cunha Melo Com suas palavras Com seus pássaros,

  Ou a lembrança de seus pássaros, Com seus filhos Ou a lembrança de seus filhos, Com seu povo

  Ou a lembrança de seu povo, Todos emigram De uma quadra a outra do tempo, de uma praia a outra do Atlântico, de uma serra a outra das cordilheiras, todos emigram,

  para o corpo de Berenice ou para o coração de Wall Street, para o último templo ou a primeira dose de tóxicos para dentro de ti ou para todos, para sempre todos emigram.

  

RESUMO

  VASCONCELOS, Maria G. O. M. - Avanços e Desafios das Políticas Públicas na Rede de

  

Atenção às Situações de Violência Doméstica e Sexual contra Crianças e Adolescentes: a

  São Paulo, 2008, 141 p. Dissertação de Mestrado, experiência de São José dos Campos. Departamento de Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

  A presente dissertação visa desenvolver uma discussão acerca dos avanços ocorridos nas redes de atenção a crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual e problematizar os desafios ainda encontrados nesse campo para efetivamente cuidar, proteger, diagnosticar e acolher essas situações. Para tanto, a autora partiu da realidade de um município paulista, São José dos Campos, onde viveu a experiência do desenvolvimento de um projeto de articulação e formação especializada para a Rede de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente. O texto apresenta uma breve história da violência sexual contra crianças e adolescentes, em seus aspectos legais, conceituais e de mobilização social. Traz em seguida uma discussão sobre políticas públicas, em sua relação com as redes sociais e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Este último é apresentado em suas diferentes dimensões, nas quais estão inseridas o atendimento às situações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Autores como Hannah Arendt, Zizek, Gonçalves, Whitaker, Tschiedel e Brandt, Mynaio, Gabel, Cromberg, Faleiros, Gomes, Sousa, Leal, Libório e Landini são utilizados como fundamentação da discussão ao longo do texto.

  A experiência de São José dos Campos é relatada pela autora, com foco no serviço de atendimento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes e partindo da sua experiência, e de entrevistas com diferentes atores da Rede de Proteção Integral do município. Foram entrevistados nove profissionais e uma adolescente, com o objetivo de compreender como aconteceu a estruturação da política municipal de proteção especial às situações de violência doméstica e sexual. Na companhia de autores como Sandór Ferenczi e Motta, Donzelot foi desenvolvida a análise das entrevistas. Essa análise permite considerar, finalmente, que, embora tenham acontecido avanços importantes e significativos, há ainda grande dificuldade na rede de São José dos Campos para atender integralmente às situações de violência contra crianças e adolescentes. Essas dificuldades não estão relacionadas apenas à fatores específicos desse município, mas à própria complexidade do tema tratado, que ainda desafia profissionais em todo o mundo.

  Palavras Chave: Violência doméstica e sexual, Políticas Públicas, redes sociais.

  

ABSTRACT

  VASCONCELOS, Maria G. O. M. - Public Policies Achievements and Challenges at the

  

Attention Network to Domestic and Sexual Violence Situations against Children and

Adolescents: the experience of São José dos Campos. São Paulo, 2008, 141 pp. Master’s

  Degree Dissertation, Department of Social Psychology, Pontifical Catholic University of São Paulo - PUC/SP. The objective of this dissertation is to propose a discussion about the achievements in Public Policies in terms of the attention to domestic and sexual violence against children and adolescents, and to discuss the challenges that can still be found in this area to effectively take care, protect diagnostic and shelter people in this situation. In order to do it, the author was based on the reality of a São Paulo’s city, São José dos Campos, where she have had the experience of developing a project of articulation and specialized education for the Network of Integral Attention for children and adolescents.

  The text presents a brief history of sexual violence against child and adolescent, in its legal, conceptual and social mobilization aspects. After that, the text opens a discussion on public policies, in relation with social networks and the Unified System of Social Assistance (SUAS). This last, for instance, is presented in its different dimensions, where the assistance to sexual violence against children and adolescents is included. Authors such as Hannah Arendt, Zizek, Whitaker, Tschiedel and Brandt, Mynaio, Gabel, Cromberg, Gomes, Faleiros, Sousa, Leal, Libório e Landini are the discussion reference.

  The experience of São José dos Campos city is narrated by the author, focusing the specialized service of attention to domestic and sexual violence against children and adolescents, grounded on the author’s experience and on interviews with different actors from the Children and Adolescents Integral Attention Network. Nine professional and an adolescent were interviewed in order to comprehend how was structuring the city's policy for special protection on the situations of domestic and sexual violence. Accompanied by authors such as Sandór Ferenczi, Motta and Donzelot, author proceeds to the interviews’ analysis. Finally, this analysis takes to a consideration that, although there have been many important improvements and achievements, there is still significant difficulties in São José dos Campos’ Attention Network in order to take care integrally of the violence issues against children and adolescents. These difficulties are not exclusively related to the city’s particularities, but mostly to the complexity of the issue (sexual violence against children and adolescents) that challenges workers all through the world.

  Key Word Key Words: Sexual and Domestic Violence; Public Policies, Social

SUMÁRIO

  R ESUMO .................................................................................................................................10 ABSTRACT .............................................................................................................................12 Introdução .................................................................................................................................17 Capítulo I - Metodologia ..........................................................................................................22 Capítulo II - Um pouco de História da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes: Legislação, Movimentos Sociais e Conceitos ...........................................................................28 2.1 - Do Direito do Menor ao Estatuto da Criança e do Adolescente .......................................29 2.2 - Marcos Históricos e Legais da Violência Doméstica e Sexual .........................................33 2.3 - Violências e a Violência Doméstica e Sexual ..................................................................40 2.4 - Violência Doméstica .........................................................................................................44 2.5 - Abuso Sexual ou Incesto? .................................................................................................46 2. - Exploração Sexual Comercial .............................................................................................50 2.7 - Prostituição .......................................................................................................................54 2.8 - Turismo com Motivação Sexual .......................................................................................57 2.9 - Tráfico e Venda de Crianças para Propósitos Sexuais ......................................................58 2.10 - Pornografia Infantil ..........................................................................................................61 Capítulo III - Políticas Públicas, Redes Sociais e o Sistema Único de Assistência Social ........63 3.1 - Conversando sobre a relação entre Política, Estado e Ideologia .......................................64 3.2 - Conversando sobre a relação entre Políticas Públicas e Redes Sociais .............................67 3.3 - Políticas Públicas e o Sistema Único da Assistência Social - SUAS .................................73 3.4 - Estrutura do Sistema Único de Assistência Social - SUAS ...............................................75

  15

3.5 - Princípios e Diretrizes do SUAS ......................................................................................79

3.6 - Serviço de Proteção Social Básica ....................................................................................81

3.7 - Serviço de Proteção Social Especial .................................................................................82

3.8 - Matricialidade Sócio -Familiar .........................................................................................83

3.9 - O SUAS e o Controle Social ............................................................................................85

3.10 - Eixos Estruturantes do Sistema de Garantia de Direitos ................................................86

3.11 - Eixo Promoção ...............................................................................................................87

3.12 - Eixo Controle ..................................................................................................................87

3.13 - Eixo Defesa .....................................................................................................................88

3.14 - Estruturação da Rede de Proteção ..................................................................................89

Capítulo IV - Redes de Proteção no Município de São José dos Campos: um estudo de caso .92

4.1 - A rede d proteção integral à criança e ao adolescente em São José dos Campos .............93

4.2 - Um pouco da história de São José dos Campos ................................................................94

4.3 - Programa de atendimento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes .

....................................................................................................................................................96

4.4 - A Chegada do Programa Refazendo Laços de Proteção no Município ............................97

4.5 - Gestão do Programa ..........................................................................................................98

4.6 - Capacitações ....................................................................................................................100

4.7 - Composição da Rede .......................................................................................................101

4.8 - Formação da Rede de Proteção em São José dos Campos ..............................................103

4.9 - Desafios e recomendações ...............................................................................................104

4.10 - Pontos positivos .............................................................................................................104

4.11 - Questões e problematizações .........................................................................................105

  16

................................................................................................................................................106

4.13 - Recomendações visando à replicação ...........................................................................107

4.14 - Situação atual do Programa Refazendo laços de Proteção no município de São José dos

Campos ....................................................................................................................................108

Capítulo V - O funcionamento da Rede no Caso analisado: virtudes, fragilidades e tensões .112

5.1 - Contextualização .............................................................................................................112

5.2 - Sabrina - Adolescente .....................................................................................................114

5.3 - Sistema de Justiça ............................................................................................................124

5.4 - Sistema de Justiça ............................................................................................................128

5.5 - Gestor ..............................................................................................................................131

5.6 - Gestor ..............................................................................................................................134

5.7 - Sistema de Saúde .............................................................................................................136

5.8 - Programa Especializado no Atendimento à Crianças e Adolescentes em situação de

Violência Doméstica e Sexual .................................................................................................138

5.9 - Conselho Tutelar .............................................................................................................141

5.10 - Gestor ............................................................................................................................144

5.11- Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente .....................................147

5.12 - Fechamento da Análise das Entrevistas .........................................................................150

Considerações Finais ................................................................................................................153

Referências Bibliográficas .......................................................................................................157

Glossário...................................................................................................................................167

Anexo A....................................................................................................................................170

Anexo B....................................................................................................................................180

INTRODUđấO

  Criança é coisa séria! A criança é o princípio sem fim. O fim da criança é o princípio do fim. Quando uma sociedade deixa matar as crianças, é porque começou o suicídio como sociedade.

  Quando não as ama é porque deixou de se reconhecer como sociedade. Herbert de Souza, 1991

  A presente pesquisa tem uma relação direta com a minha trajetória profissional, sendo a mesma uma produção acadêmica motivada a partir da minha experiência prática.

  Nos últimos 20 anos, desenvolvi trabalhos com crianças e adolescentes vulneráveis à violência doméstica e sexual, além de participar de vários movimentos sociais. Na década de oitenta, período que antecedeu a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90, fiz parte da equipe multidisciplinar do Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente, atualmente, Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente do Estado de

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  situação de vulnerabilidade . Assim, foi a partir da escuta a esses sujeitos, que identificamos os motivos pelos quais muitas crianças fugiam de suas casas para viver nas ruas. Em suas histórias de vida, apareciam relatos de agressões e de abusos sexuais praticados, geralmente, por seus pais no ambiente familiar.

  1 O Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente, atualmente Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente no 2 Estado de PE, é um dos órgãos oficiais do Sistema de Garantia de Direitos.

  

Considera-se o conceito de vulnerabilidade “como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos

materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais,

econômicas, culturais que provêem do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado se traduz em debilidades ou

desvantagens para o desempenho e mobilidade social dos atores” (Vignoli, 2001; Figueira, 2001 apud Abramovay, 2002,

  Esses fatos determinavam as recorrentes fugas de casa, mobilizando toda a equipe em busca de alternativas de acompanhamento para essas crianças e os seus familiares, além de, também, serem tomadas todas as providências jurídicas referentes a cada caso atendido.

  Apesar da sensibilidade dos profissionais para com os problemas e dramas em tela, deparávamo-nos com limites pessoais e institucionais, com uma estrutura de rede frágil para

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  acompanhar - de forma singular - cada caso , além de uma formação técnica-científica insuficiente para a intervenção em uma temática tão complexa.

  Na prática, observávamos que as crianças e os adolescentes eram encaminhados para

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  as suas famílias de origem sem terem a garantia de um acompanhamento , ocasionando fugas posteriores e a instalação de um círculo vicioso e cronificante de rua-casa-rua, o que, na maioria das vezes, contribuía para a identificação dessas crianças com a rua e com o seu universo sedutor. Geralmente, nesse percurso, acontecia o inevitável encontro com o mundo das transgressões, ocorrendo, muitas vezes, o envolvimento com as drogas e com os agentes aliciadores de redes criminosas, como o tráfico de drogas e a exploração sexual. Para as meninas, o caminho da prostituição se apresentava como uma das possibilidades de sobrevivência, assim como o envolvimento dos meninos com a prática de pequenos delitos.

  Essas experiências de vida, vivenciadas a céu aberto, nos levaram a estudar o tema da violência doméstica e sexual contra a criança, no qual descobrimos a clínica de orientação psicanalítica como possibilidade ímpar de escuta e acolhimento ao sofrimento das crianças e das famílias. Nessa época, já identificávamos a importância da interdisciplinaridade no acompanhamento dessas situações, além da necessidade de ações complementares em rede, com interfaces entre as áreas da saúde, da justiça, do social e do político. Essa prática tinha, como pressuposto teórico, a “Incompletude Institucional”, de acordo com as concepções teóricas do profº. Antonio Carlos Gomes da Costa e com o modelo de intervenção instituído pelo Sistema de Garantia de Direitos – Estatuto da Criança e do Adolescente / ECA.

  

todas as crianças e adolescentes, embora a nossa missão institucional fosse de triagem, apoio breve e encaminhamento. Os

4 casos eram encaminhados para a Rede de Serviços e geralmente ficavam numa longa fila de espera.

  

Termo empregado no sentido de que a falta de uma estrutura de retaguarda na rede de atenção integral, principalmente nas

comunidades, nas famílias de origem das crianças, associadas à falta de vagas nas escolas, nos centros de saúde e nos

dispositivos comunitários, favorecem a volta das crianças para as ruas.

  Na década de 90 e no século atual, vem acontecendo um esforço significativo por parte do poder público e das ONGS na tentativa de estruturar políticas públicas que garantam o atendimento especializado à violência doméstica e sexual. Embora haja vontade política, ainda se observa uma carência de equipes multidisciplinares em formação continuada, para,de fato, atender as necessidades de acolhimento, acompanhamento e proteção que as situações de violência doméstica e sexual exigem.

  Esse aspecto relaciona-se ao objetivo desta pesquisa, que consiste em observar se os serviços existentes, na rede de proteção do município de São José dos Campos, estão respondendo à função de cuidado e proteção, diagnosticando, acolhendo e atendendo as situações de violência sexual contra crianças e adolescentes, respeitando as condições peculiares de desenvolvimento, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.

  Esses questionamentos foram delineando a estruturação do problema desta pesquisa, o qual foi se configurando a partir da oportunidade da pesquisadora em participar e observar o desenvolvimento de algumas metodologias de intervenção nas situações de violência doméstica e sexual. Essa experiência possibilitou o contato direto com as lacunas existentes no Sistema de Garantia de Direitos, o qual deveria estar estruturado para atender de forma integral a criança e o adolescente, o que, na prática, não acontece em sua totalidade, já que crianças e adolescentes expostos à exploração sexual geralmente não conseguem garantir o seu acompanhamento nessas instituições, as quais justificam que os mesmos não querem aderir à proposta institucional. Nesse sentido, a doutrina da proteção integral - preconizada no sistema de garantia de direitos - estabelece o trabalho em rede como condição sine qua non para o funcionamento desse sistema. Então, indagamos: a rede está aí? Como funciona? Quais são os desafios para a sua implementação?A relevância social desta pesquisa relaciona-se à existência de inúmeros desafios para garantir o funcionamento da rede de proteção à criança e ao adolescente com foco na violência doméstica e sexual. Embora tenham sido lançados os Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-juvenil e instaladas CPIs e CPMIs, que apresentam extrema importância na estruturação das políticas

  • – a exemplo do SUAS e SUS – estes não garantem a qualidade do atendimento. Essa qualidade está relacionada ao funcionamento de redes locais integradas e com profissionais especializados, comprometidos e em formação continuada.

  Nesse sentido, esta pesquisa tomará os dados como algo que ajudará a tornar concreto o fenômeno em questão, porém nos debruçaremos não sobre os números, mas sobre o funcionamento da rede de proteção e sobre as tensões e os possíveis avanços advindos da dinâmica de funcionamento deste sistema. O relato dos profissionais e a história de vida de uma adolescente - usuária dos diferentes serviços desta rede de proteção -, ou seja, Conselho Tutelar, Delegacia, Vara da Infância e Juventude, Centro de Referência, Unidade de Saúde, Abrigos e ONGS contribuirão para a análise dos pontos de tensões, das fragilidades e das potências deste sistema na estruturação das políticas públicas.

  Para viabilizar esta pesquisa, respondendo às questões apresentadas, foi realizado um estudo de caso a partir da experiência da rede de proteção do município paulista de São José dos Campos. Foram entrevistados profissionais do Sistema de Garantia de Direitos e uma adolescente, atendida pelos diferentes serviços dessa rede.

  No capítulo I abordaremos a metodologia adotada para a realização da pesquisa, a qual abrangeu a análise da estruturação da política de atendimento às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes no município de São José dos Campos .

  No capítulo II, abordaremos os aspectos legais, históricos e conceituais da violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. Situaremos o cenário internacional e nacional, bem como a contextualização das CPI de 1993, da CPMI de 2001 e dos movimentos sociais no enfrentamento a esse fenômeno.

  No capítulo III, discorreremos sobre redes sociais e sua importância no atendimento integral de crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Ainda, abordaremos os desafios e as conquistas do Brasil na estruturação das políticas públicas, com foco na violência doméstica e sexual, numa perspectiva de rede. Destacaremos o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), como política pública nacional, em processo de estruturação, visando a garantir o atendimento especializado nas situações de violência doméstica e sexual.

  No capítulo IV, apresentaremos um estudo de caso sobre a experiência do município paulista de São José dos Campos, na implantação da política municipal de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

  No Capítulo V, analisaremos as entrevistas realizadas com uma adolescente atendida pela rede de proteção do município de São José dos Campos e as entrevistas realizadas com os profissionais que compõem o Sistema de Garantia de Direitos desta cidade, ocupando posições diferentes nesta estrutura. Esses profissionais atuam no âmbito da saúde, da justiça, da assistência, dos conselhos, da gestão e da proposição de políticas. Por meio das falas e das vivências da adolescente - enquanto usuária destes serviços - e dos profissionais - enquanto cuidadores e operadores das políticas públicas, visando ao atendimento integral, conforme estabelecido no ECA, - Lei 8069/90, pretendemos analisar os desafios e as possibilidades do trabalho em rede na garantia da proteção integral de crianças e adolescentes.

  Finalizando nosso trabalho, faremos as considerações finais, procurando apontar possibilidades na prevenção, atenção integral e estruturação das políticas de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

CAPÍTULO I METODOLOGIA Sim, meu coração é muito pequeno

  Só agora vejo que nele não cabem homens.

  Os homens estão cá fora, estão na rua. A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

  Mas também a rua não cabe todos os homens.

  A rua é menor que o mundo.

  O mundo é grande. Carlos Drummond de Andrade Do ponto de vista metodológico, a pesquisa se caracteriza como de natureza qualitativa, realizada por meio de estudo de caso emblemático. Segundo Martinelli (1999):

  A pesquisa exploratória, categoria na qual se situa o estudo de caso, propõe uma busca e não uma verificação de informações. Seu objetivo é a descoberta de idéias que sejam úteis, críticas e

  (Martinelli, norteadoras de novas atitudes em relação ao mundo. 1999, p50)

  Para Ventura (2007), o estudo de caso emblemático se caracteriza por ser significativo e completo. Esse autor ainda ressalta que, embora o estudo de caso se processe de forma

  

relativamente simples, pode exigir do pesquisador muita atenção e cuidado, principalmente

porque ele está profundamente envolvido na investigação (p.385). Segundo Martinelli (1999),

  os princípios metodológicos que fazem do estudo de caso uma técnica de natureza qualitativa possibilitam explanações teleológicas na combinação das observações dos fatos com as leis gerais explicativas e acrescenta:

  A unidade social escolhida como caso demanda uma representatividade significativa da realidade social para a sua compreensão ampliada. A ampliação da tarefa científica na singularidade do estudo de caso está na escolha de recursos que

  (Martinelli,1999, p 55). auxiliem na coleta e classificação dos dados.

  Antes de realizarmos as entrevistas, entregamos previamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aos profissionais, à adolescente e ao coordenador da organização onde esta se encontrava abrigada. Naquele momento, foi possível conversar com os participantes da pesquisa, no sentido de explicar o objetivo da mesma, bem como ler com eles o TCLE, para que ficassem seguros quanto à confidencialidade das informações fornecidas. Relativamente a esse procedimento, Lakatos (2004) explica que:

  O pesquisador, antes da entrevista, deve informar ao entrevistado sobre o interesse, a utilidade, o objetivo, as condições da mesma e o compromisso do anonimato. É também importante que na conversação o pesquisador demonstre motivação e credibilidade. Além de tudo deve ser prudente. (Lakatos, 2004, p 278 apud Camargo, 2009, p 86). A entrevista representa um instrumento básico para a coleta de dados. Segundo Lakatos (2004), trata-se de uma conversa entre duas pessoas com o objetivo de obter informações importantes e de compreender as perspectivas e experiências das pessoas entrevistadas. Alves-Mazzotti (1999) aponta que, por ser de natureza interativa, a entrevista “permite tratar de temas complexos, que dificilmente poderiam ser investigados adequadamente através de questionários, explorando-os com profundidade” (ALVES- MAZZOTI, 1999 apud LAKATOS, 2004. p. 278).

  Para Lakatos (2004), as entrevistas qualitativas são muito pouco estruturadas. O principal interesse do pesquisador é conhecer os significados atribuídos pelo entrevistado aos fenômenos e eventos de sua vida cotidiana, utilizando sua própria linguagem. No caso particular desta pesquisa, busca-se compreender não a história individual de cada entrevistado, mas a sua relação com a rede de proteção do Sistema de Garantia de Direitos (SDG), de forma a evidenciar o funcionamento da rede de proteção.

  Minayo (1996) traz a entrevista para a “arena de conflitos e contradições”, considerando os critérios de representatividade da fala e a questão da interação social que está em jogo na interação pesquisador–pesquisado. (MINAYO, 1996, apud SZYMANSKI, ALMEIDA e PRANDINI, 2002, p 10).

  De acordo com Szymanski et al. (2002), ao considerarmos o caráter de interação social da entrevista, passamos a vê-la submetida às condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador-entrevistado influencia tanto o seu curso, como o tipo de informação que aparece.

  Lakatos (2004) aponta, ainda, que existem diversos tipos de entrevistas que podem variar de acordo com o propósito do investigador. Utilizamos, na presente pesquisa, a técnica de entrevista semi-estruturada, também denominada pela autora de assistemática, antropológica e livre, que consiste na liberdade que o entrevistador tem para desenvolver cada situação na direção que considere adequada, explorando mais amplamente a questão, as condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador-entrevistado influencia tanto o seu curso como o tipo de informação que aparece.

  Esse estudo de caso abrangeu a análise da estruturação da política de atendimento às José dos Campos, que se efetivou de uma forma pioneira, através da implantação do Projeto Refazendo Laços. Este projeto trouxe uma metodologia assentada em três eixos: a visão da violência sexual enquanto um fenômeno da sexualidade humana, a importância do cuidado com o profissional, e a consolidação das políticas públicas através do fortalecimento da rede de proteção.

  Para a coleta de dados, utilizamos análise documental, entrevistas semi-estruturadas e observação participante.

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