Repositório UFAL: Conflitos socioambientais no contexto da Política Nacional de Resíduos Sólidos: implantação da logística reversa do plástico

  UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

  INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM SOCIOLOGIA

  KARINE TAVARES MORAIS

  

CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO CONTEXTO DA POLÍTICA NACIONAL DE

RESễDUOS SốLIDOS: IMPLANTAđấO DA LOGễSTICA REVERSA DO

PLÁSTICO.

  

MACEIÓ

KARINE TAVARES MORAIS

  

CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO CONTEXTO DA POLÍTICA NACIONAL DE

RESễDUOS SốLIDOS: IMPLANTAđấO DA LOGễSTICA REVERSA DO

PLÁSTICO.

  Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Sociologia.

  Orientadora: Profa. Dra. Paula Yone Stroh.

  

MACEIÓ

   

  

AGRADECIMENTOS

  Em primeiro lugar, agradeço a Deus por ter me iluminado nessa etapa tão difícil e, ao mesmo tempo, tão feliz da minha vida. Agradeço a minha família e a minha mãe, eterna parceira de vida, que me apoia e acredita em mim incondicionalmente.

  Aos grandes amigos que fiz durante esse processo de dois anos, um mês e doze dias. Dentre os demais, não posso deixar de destacar, Manuella Vavassori, Manú, que foi um suporte imprescindível no primeiro ano de mestrado, quando minha vida teve uma mudança radical. Agradeço também ao meu amigo e conterrâneo Daniel Alves, que em um dos momentos mais difíceis dessa fase, foi incansável e não permitiu que eu deixasse de acreditar que essa jornada poderia ter um final feliz. E a outro amigo e conterrâneo Gabriel Neto, que foi importantíssimo pelo apoio psicológico e acadêmico na última fase desse difícil processo.

  Agradeço a todos os professores do PPGS, aos técnicos administrativos e ao programa, principalmente a minha orientadora, Professora Doutora Paula Stroh pela confiança em mim, por ter acreditado no meu projeto de pesquisa e pelo aprendizado durante as sessões de orientações. Ao Professor Doutor João Vicente Costa Lima pelos ensinamentos na disciplina de Teoria Social Contemporânea, além da atenção e disponibilidade durante todo o período do Mestrado. E sou eternamente grata ao meu querido Professor Doutor Wendell Ficher por ter me apresentado de forma tão digna e autêntica a disciplina de conflitos socioambientais, assim me encontrei definitivamente no programa.

  Grata a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio financeiro, o que possibilitou um equilíbrio psicológico e material.

  

RESUMO

  Esta pesquisa pretende identificar os desafios presentes na implantação da responsabilidade compartilhada entre os atores principais da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), com ênfase no Setor Industrial do Plástico, por ser este grande gerador de resíduos. O objetivo é o de recompor o histórico da tramitação da PNRS no Congresso Federal para entender como o setor industrial do plástico está respondendo às determinações legais diante da importância da gestão de um dos resíduos mais abundantes no meio ambiente. Busca-se identificar e caracterizar os conflitos socioambientais embutidos na obrigatoriedade legal da PNRS, em face dos interesses econômicos do setor industrial e, notadamente, como tais conflitos dinamizam ou dificultam os acordos setoriais entre o Poder Público e as entidades de representação empresarial. A investigação se apoia em pesquisa documental, mediante a qual foi possível identificar que as empresas do setor do plástico resistem à responsabilidade de arcar com o peso da Logística Reversa sem a contrapartida do setor público. Depreende-se o papel central do Ministério do Meio Ambiente na mediação entre os agentes econômicos e as instituições representantes dos segmentos envolvidos com a implantação efetiva de sistema de coleta seletiva da qual depende a indústria da reciclagem no Brasil e a Logística Reversa no país.

  Palavras-chave: Política Nacional de Resíduos Sólidos. Reciclagem do Plástico. Logística Reversa. Conflitos socioambientais.

  

ABSTRACT

This research aims to identify the challenges present in the implementation of shared

responsibility among the principal actors of the National Solid Waste Policy (PNRS), with

emphasis on the industrial sector of plastic, because this large waste generator. The goal is to

restore the historical processing of PNRS the Federal Congress to understand how the plastics

industry is responding to legal requirements on the importance of managing one of the most

abundant waste on the environment. The aim is to identify and characterize environmental

conflicts embedded in the legal obligation of PNRS, given the economic interests of the

industry and, in particular, such as streamline conflicts or hamper sectoral agreements

between government and business representative bodies. The research is based on desk

research, in which it was possible to identify the plastics sector companies resist the

responsibility to bear the weight of the Reverse Logistics without the consideration of the

public sector. It appears from the central role of the Ministry of Environment in mediating

between economic agents and the representative institutions of the segments involved with the

effective implementation of selective collection system which depends on the recycling

industry in Brazil and Reverse Logistics in the country.

  Keywords: National Solid Waste Policy. Plastic Recycling. Reverse Logistics. Enviromental Conflicts.

  SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

INTRODUđấO

  A aprovação da Lei 12.305/10, que regulamenta a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), proporcionou inúmeras reflexões sobre a sociedade, o desenvolvimento econômico, o consumo e o meio ambiente. Esses temas são tratados neste estudo, que busca analisar e interpretar como a PNRS tem sido absorvida e aplicada pelo setor industrial do plástico no que concerne à Logística Reversa.

  O estudo é realizado em um panorama histórico social em que a relação sociedade e meio ambiente apresenta um desgaste que vem sendo provocado pelo uso não racional dos recursos naturais, pois o desenvolvimento tecnológico e o aumento do consumo tornaram os recursos naturais apenas meios para se atingir o expansionismo buscado pelo capital. Entretanto, esse processo trouxe inúmeras facilidades para a vida cotidiana, principalmente em relação aos usos indiscriminados de bens de consumo que se tornaram cada vez mais acessíveis. No entanto, por outro lado, o consumo e produção desenfreados também acarretam riscos e ameaças para a vida no planeta.

  Dessa forma, uma das maiores ameaças é o descarte inadequado do lixo que figura como indicador relevante no que se refere a demonstrar o nível de desenvolvimento econômico de uma região. Consequentemente, quanto mais produção e consumo, provavelmente mais lixo ou resíduos sólidos descartados e produzidos. Com o passar dos anos, o descarte e a ausência de destinação ambiental adequada e satisfatória têm tomado uma proporção de perigo iminente para essa geração e para as próximas, pois os resíduos não são em sua plenitude de origem orgânica, boa parte deles é resultado da industrialização avançada e obsolescência da produção. Os resíduos sólidos são advindos dos pós-consumos de lâmpadas, das baterias de celular, das pilhas, dos isopores e dos infindáveis materiais plásticos, dentre outros industrializados, tomando uma dimensão bem mais perigosa do que os lixos de maior produção anterior, ou seja, mais ligados à subsistência. Por essa condição, a política ambiental de gestão dos resíduos sólidos em território brasileiro é urgente e se faz necessária a eficácia na sua execução.

  A construção teórica de Giddens (1991) pondera a respeito de quão alarmantes são as apoiadas por uma industrialização avançada e uma obsolescência da produção. Nesse tipo de sociedade de risco que já não se encontra mais latente (Beck, 2010), alcançamos um cenário nada positivo para as próximas gerações. O IBGE (2010) mostra que os vazadouros a céu aberto estavam presentes em 50,5% dos municípios brasileiros correspondendo a 19,8% da quantidade total, em massa, dos resíduos sólidos encaminhados para um destino final inadequado ambientalmente. Segundo Deus (2000) apud Deus; De Luca; Clarke (2004), diversos autores relacionam casos de doenças aos resíduos sólidos. Entretanto, a influência dos resíduos urbanos se faz sentir, principalmente, por vias indiretas, ou seja, a conexão Resíduos Sólidos

  • – Vetor-Homem explica as trajetórias pelas quais pode ocorrer a transmissão de doenças oriundas da coleta e/ou disposição inadequada daqueles.

  Assim, o consumo desenfreado continua sendo o maior catalisador da crescente geração de resíduos sólidos no meio ambiente físico. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Urbana (ABRELPE, 2013) indicam aumento de 4,1% de resíduos sólidos entre 2012 e 2013. Também informa que cerca de 76 milhões de toneladas de resíduos foram gerados no ano de 2013. Para essa entidade, representante das empresas que atuam no campo de serviço de limpeza urbana, especificamente na área de coleta em domicilio, varrição, estações de tratamento de efluentes, destinação final de resíduos da indústria e de serviços de saúde, serviços na área de engenharia ambiental, dentre outros, na condição de concessionárias do poder público municipal, é justamente a destinação final o ponto mais deficiente no sistema de gerenciamento de lixo no país. Informa-se que em 2013, 41,7% dos resíduos foram para locais ambientalmente inadequados. Destes, a pesquisa especifica que 28,8 milhões de toneladas/ano de resíduos sólidos urbanos seguiram para lixões ou aterros controlados, isso significa que todo dia eram descartadas 79 mil toneladas de resíduos inadequadamente, um volume bastante considerável. Notadamente, por todas essas ameaças e riscos (Beck, 2010) é urgente uma regulação eficiente para a gestão dos resíduos sólidos no Brasil.

  Nesse sentido, apesar da PNRS já ter sido regulamentada, e nela constar que em agosto de 2014 não deveriam existir em funcionamento lixões a céu aberto no território nacional, os dados comprovam que essa meta não foi alcançada. De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, elaborado pela Associação Brasileira de Empresas de

  • – Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em 2011, 3.371 cidades brasileiras
aterros fora dos padrões estabelecidos pela lei. Ainda conforme o mesmo estudo, 6,4 milhões de toneladas de resíduos nem chegaram a ser coletadas. Segundo Massukado et al. (2013) 2.810 municípios brasileiros realizavam disposição inadequada ambientalmente de seus resíduos sólidos para lixões a céu aberto. A Confederação Nacional dos Municípios informou que em maio de 2014 ainda existiam cerca de 2.000 lixões a céu aberto (DANTAS, 2014), sem o menor indício de sua erradicação ou transferência de tecnologia para aterros sanitários. No sítio eletrônico do Senado Federal em 2014, porém, constava a informação que havia cerca de três mil lixões não erradicados no Brasil (SENADO FEDERAL, 2014b).

  Além dos dados do Senado e da Confederação Nacional dos Municípios, a ABRELPE divulgou que no ano de 2013 o Brasil tinha 3.344 municípios que ainda praticavam destinação ambientalmente inadequada de seus resíduos sólidos, em porcentagem que ficava em torno de 60% dos municípios que figuravam na faixa negativa sobre a gestão dos resíduos sólidos no país. Outro dado alarmante que a ABRELPE divulgou para 2013 foi que 33,1% dos resíduos sólidos de saúde estavam sendo enviados para locais inadequados, lembrando que tal descarte envolve objetos contaminantes e tóxicos. (ABRELPE, 2013).

  Apesar de a PNRS ter se tornado bastante conhecida pelos prazos em relação ao fim dos lixões e outras diretrizes bastante necessárias para a qualidade ou recomposição do ambiente físico brasileiro (transferência para a tecnologia dos aterros sanitários e implantação da coleta seletiva), a destinação irregular de resíduos já era proibida desde a lei 9.605/98 (BRASIL, 1998a). Portanto, essa situação já era tida como alarmante mais de uma década antes da aprovação da PNRS em 2010. Além destas, há a Lei 11.445/2007, que estabelece as diretrizes nacionais do saneamento básico (BRASIL, 2007a). A Política Nacional de Resíduos Sólidos inovou com a indicação da substituição dos lixões pelos aterros sanitários. Essa era uma tendência que já vinha ganhando força no Brasil mesmo antes da Lei 12.305/10 (BRASIL, 2010a) ser regulamentada, porém ainda muito incipiente perante a degradação ambiental no solo brasileiro após décadas de descaso.

  Além desses dados, destacamos ainda as diferenças regionais sobre a não aplicação da lei referente ao fechamento dos lixões e, consequentemente, a não instalação de aterros sanitários. É sabido que na região nordeste, por exemplo, há um total de 1.598 cidades que não cumpriram a lei. Entre as capitais mais destacadas negativamente em outras regiões se encontram Porto Velho, Belém e Brasília (SENADO FEDERAL, 2014a) .

  Notadamente a destinação final dos resíduos sólidos brasileiros já foi bem mais preocupante. Em 1989, mais de 88% das unidades de destinação de resíduos sólidos eram lixões a céu aberto e somente 1% eram aterros sanitários. Fazendo um comparativo com 2008, é possível observar alguns avanços, pois nesse ano a relação foi de 50,8% de lixões contra 27,7% de aterros sanitários

  • – o tipo mais indicado de tratamento. Os 22,5% restantes eram

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  aterros controlados (IBGE, 2010). Contudo, a não erradicação dos lixões no Brasil é um problema que deve ser encarado e figura entre os objetivos da política ambiental brasileira.

  Todos os dados acima ilustram uma realidade em que o descarte inadequado do lixo 1 tornou-se um problema social e que precisa de uma política efetiva para sua regulamentação.

  

Aterro controlado é uma fase intermediária entre o lixão e o aterro sanitário. Normalmente é uma célula

adjacente ao lixão que foi remediado, ou seja, que recebeu cobertura de argila, e grama (idealmente selado com

manta impermeável para proteger a pilha da água de chuva) e captação de chorume e gás. Esta célula adjacente é

preparada para receber resíduos com uma impermeabilização com manta e tem uma operação que procura dar

conta dos impactos negativos tais como a cobertura diária da pilha de lixo com terra ou outro material disponível

como forração ou saibro. Tem também recirculação do chorume que é coletado e levado para cima da pilha de

lixo, diminuindo a sua absorção pela terra ou eventualmente outro tipo de tratamento para o chorume como uma

estação de tratamento para este efluente Fonte: Lixão x Aterro. Disponível em: <

  .

   Acesso em: abril de 2015 .

  Essa disposição inadequada causa transtornos como epidemias, poluição e acúmulo de resíduos nos esgotos, o que dificulta o saneamento e funcionamento das urbes, além de problemas relacionados às montanhas de lixo, levando famílias inteiras a trabalharem expostas a todo tipo de resíduos, inclusive tóxicos.

  Podemos afirmar, portanto, que são indissociáveis as relações de dependência entre a problemática ambiental do fechamento dos lixões e a capacidade de efetivação da Logística Reversa, uma vez que esta depende da efetividade de políticas públicas de coleta seletiva e da gestão dos aterros sanitários, os quais estão interditados de receber materiais recicláveis, mas tão somente resíduos orgânicos. Além da questão ambiental preocupante e descrita acima pela disposição inadequada dos resíduos sólidos no país, a logística reversa é tratada como instrumento econômico e social na PNRS. Informamos que o teor sobre logística reversa utilizado no trabalho tem referência com o processo de retorno do produto pós-consumido ao fabricante ou a uma destinação ambientalmente correta, contanto que esse caminho inverso seja de responsabilidade do setor produtivo. O descarte inadequado resulta em baixa utilização do potencial de reciclagem brasileiro em relação à mão de obra ou força de trabalho perdida e a arrecadação que se perde em comparação a outros países. Sabe-se que em 2010, o Brasil deixou de arrecadar 8 bilhões de reais (MENDONÇA FILHO, 2013) por não reciclar seus resíduos devidamente. Essa situação de atraso econômico, social e pelo passivo ambiental que gera perante outros locais é devido a ausência no país de uma gestão de resíduos sólidos com sua responsabilização devidamente compartilhada entre os entes federados, o setor privado, além da coparticipação da sociedade . Além disso, há no Brasil cerca de 400 mil catadores (as) (MNCR, 2014) que realizam o trabalho de retirada dos resíduos sólidos recicláveis nas cidades brasileiras, mas ainda não são incluídos de forma plena, oficial e organizada nos processos de logística reversa existentes no país.

  No Brasil, após dezenove anos de tramitação no Congresso Nacional, foi sancionada, em 2010, a PNRS. A partir daí, tem-se o surgimento de regulação ambiental contrária à continua geração de resíduos descartados inadequadamente e sem responsabilização de seus geradores e consumidores, além de uma emergência na gestão municipal com aval de uma agência pública federal para o gerenciamento de resíduos sólidos no país. De acordo com a PNRS, ficou determinado que todos os lixões do país deveriam ter sido fechados até o dia 2 de agosto de 2014 e que os resíduos sem possibilidade de reciclagem deveriam ser

  2

  encaminhados para um aterro sanitário . Dentre os instrumentos presentes na PNRS, a logística reversa recebeu especial atenção neste trabalho, através da concepção da indústria da reciclagem e suas ferramentas.

  Diante desse cenário, temos a institucionalização da PNRS a partir da Lei 12.305/10 que decreta no:

  Art. 1º Esta lei institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, dispondo sobre seus princípios, objetivos e instrumentos, bem como sobre as diretrizes relativas à gestão integrada e ao gerenciamento de resíduos sólidos, incluídos os perigosos, às responsabilidades dos geradores e do poder público e aos instrumentos econômicos aplicáveis. (BRASIL, 2010a)

  Nesse sentido, a PNRS tem como objetivos:

  Art. 7º São objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos:

I – proteção da saúde pública e da qualidade ambiental;

  II

  • – não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos;

  III

  • – estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo de bens e serviços;

  IV

  • – adoção, desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias limpas como forma de minimizar impactos ambientais;

  V

  • – redução do volume e da periculosidade dos resíduos perigosos;

  VI – incentivo à indústria da reciclagem, tendo em vista fomentar o uso de matérias- primas e insumos derivados de materiais recicláveis e reciclados;

  VII – gestão integrada de resíduos sólidos;

  VIII

  • – articulação entre as diferentes esferas do poder público, e destas com o setor empresarial, com vistas à cooperação técnica e financeira para a gestão integrada de resíduos sólidos;

  IX – capacitação técnica continuada na área de resíduos sólidos;

  X

  • – regularidade, continuidade, funcionalidade e universalização da prestação dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, com adoção de mecanismos gerenciais e econômicos que assegurem a recuperação dos custos dos serviços prestados, como forma de garantir sua sustentabilidade operacional e financeira, observada a Lei nº 11.445, de 2007;

  XI – prioridade, nas aquisições e contratações governamentais, para:

  a) produtos reciclados e recicláveis;

  b) bens, serviços e obras que considerem critérios compatíveis com padrões de consumo social e ambientalmente sustentáveis;

  XII

  • – integração dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis nas ações que envolvam a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;

  XIII

  • – estímulo à implementação da avaliação do ciclo de vida do produto;

  XIV – incentivo ao desenvolvimento de sistemas de gestão ambiental e empresarial voltados para a melhoria dos processos produtivos e ao reaproveitamento dos resíduos sólidos, incluídos a recuperação e o aproveitamento energético;

  XV (BRASIL, – estímulo à rotulagem ambiental e ao consumo sustentável.

  2010a).

  Notadamente são encontrados nos objetivos da PNRS uma diversidade de temas. Entre eles, destacamos: o comprometimento da política em relação ao fomento de desenvolvimento econômico e inclusão social, a necessidade de uma excelência na gestão pública dessas diretrizes, as preocupações voltadas à saúde pública, e os projetos com base na sustentabilidade econômica, social e ambiental, entre outros. Com isso, podemos basear a relevância de um estudo que busca analisar a PNRS a partir de fatores imprescindíveis para qualidade de vida em sociedade e preservação do meio ambiente, dentre os demais, a implantação da logística reversa.

  Dessa forma, o não cumprimento de metas primordiais da PNRS, dentre elas, erradicação dos lixões, instalação de aterros sanitários, inclusão social dos catadores de materiais recicláveis no processo de logística reversa e implantação da coleta seletiva, pode significar uma situação eminente e catalisadora potencial de um aumento da degradação social e ambiental através de mais montanhas de lixo a céu aberto, poluição nos recursos hídricos, no solo e até visual, além dos resultados insalubres e que contribuem para os problemas de saúde pública, cada vez mais relacionados à disposição inadequada ambientalmente dos resíduos sólidos urbanos.

  Em suma, o aumento do consumo e, consequentemente, o descarte inadequado, a baixa capacidade da gestão pública de gerenciar os resíduos, a incipiente responsabilidade de gerenciamento entre geradores de RS, dentre os quais destacamos os setores produtivos, além dos prazos não executados em relação à concretude das metas da PNRS e, principalmente, a dificuldade do consenso entre os atores (setor privado, poder público e sociedade civil organizada) relacionados aos acordos para implantação da logística reversa no país, evidenciam a necessidade de um olhar sociológico sobre o objeto, além de contribuir para as indagações e encaminhamentos que foram realizados na escrita do trabalho. Como também se anos de tramitação no congresso nacional, da lei aprovada em 2010, dos acordos setoriais relativos à implantação da logística reversa, das propostas por coalizão empresarial e os retornos às consultas públicas.

  A pesquisa toma como ponto de partida o estudo das possibilidades de execução da legislação ambiental brasileira reguladora da gestão de resíduos sólidos, em um contexto de aumento exponencial de sua produção social. Trata-se de um fenômeno social inerente ao que Ulrich Beck (2010

  ) define como “sociedade de risco”, a partir da industrialização avançada produtora deste tipo de sociedade.

  Assim, o estudo tem como objetivo principal entender como o setor industrial do plástico está respondendo ao princípio da Logística Reversa determinado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e ainda, como objetivos específicos: reconstituir de forma descritiva e analítica o histórico da tramitação da PNRS no Congresso Federal; identificar a importância da gestão de um dos resíduos mais abundantes no meio ambiente, o plástico, e assinalar os desafios de ordem institucional presentes na implantação da responsabilidade compartilhada entre os atores principais da PNRS no que tange, em particular, ao Setor Industrial do Plástico, por ser este um grande gerador de resíduos. Nestes registros, busca-se identificar e caracterizar os conflitos socioambientais embutidos na obrigatoriedade legal da PNRS, em face dos interesses econômicos do setor industrial e, notadamente, como tais conflitos dinamizam ou dificultam os acordos setoriais entre o Poder Público e as entidades de representação empresarial, inclusive o da indústria da reciclagem dos materiais plásticos.

  Para alcançar os objetivos do trabalho optamos por realizar um estudo de tipologia qualitativa com as técnicas de pesquisa documental e análise de discurso. Esses modelos são usados por proporcionar uma visão geral do campo e identificar suas características (GIL, 1987). Portanto, nesse estudo qualitativo foram realizadas todas as fases pertinentes para tal tipo de pesquisa, dentre elas a etapa exploratória para conhecimento primário sobre o assunto; posteriormente, utilizamos as técnicas para o alcance dos objetivos da pesquisa. Assim, trabalhamos com pesquisa bibliográfica, documental e análise de discurso através de categorias que aproximaram o corpus da pesquisa ao objeto do trabalho, concluindo com uma consideração final de integração do processo descritivo analítico (MINAYO, 1993). buscou colher dados e informações sobre a PNRS através de artigos científicos que tratavam da temática, com o objetivo de identificar o estado da arte. Isso foi complementado com uma leitura da teoria sociológica no intuito de identificar modelos analíticos que contribuíssem com o trabalho.

  Durante essa reflexão inicial, foram realizadas leituras exploratórias em artigos das áreas de saúde pública, engenharias e de ciências sociais aplicadas, o que proporcionou um conhecimento interdisciplinar do tema, visto que no primeiro momento exploratório poucos artigos oriundos das ciências sociais tinham como objeto a PNRS, o que gerou uma hipótese da temática estar sendo mais debatida pelas áreas que se vinculam à produção e/ou à prevenção do que pela área social. Essa condição levou a leitura de algumas teorias sociológicas como Giddens (1991), Beck (1997, 2010), Boltanski e Chiapello (2009), Bauman (2008), Baudrillard (1975), Ignacy Sachs (2000), numa pesquisa bibliográfica. A pesquisa bibliográfica para Severino (2002, p. 77) tem, por objetivo, “a descrição e a classificação dos livros e documentos similares, segundo critérios, tais como autor, gênero literário, conteúdo temático, data, etc”. Nesse sentido, os autores pesquisados são de fundamental importância para a construção teórica deste trabalho, sendo, portanto, vital a pesquisa bibliográfica.

  Esse momento da pesquisa foi necessário por dar um rigor sociológico e uma orientação em termos analíticos às questões levantadas no trabalho. Destacamos a ideia de Giddens em

  “As Consequências da Modernidade” (1991) e o conceito de sociedade de risco em Beck (2010). O conhecimento sobre a sociedade de consumo de Bauman e Baudrillard sustentou o problema social que iniciava a investigação. Ignacy Sachs contribuiu para o entendimento da dialética entre desenvolvimento versus meio ambiente, consequentemente Boltanski e Chiapello contribuíram para a ideia do capital internalizar as críticas e se reinventar a partir delas. Nesse contexto, observamos a absorção da ideia da sustentabilidade no contexto de construção das políticas públicas ambientais.

  Ao lado do estudo teórico, abriu-se a oportunidade de participar de cinco eventos relacionados ao tema de resíduos sólidos, dentre os quais, quatro fizeram parte da agenda da

  IV Conferência Nacional de Meio Ambiente realizada pelo Ministério do Meio Ambiente, quais sejam:

   Pré Conferência Metropolitana de Meio Ambiente: Resíduos Sólidos, no dia 24 de julho/2013, realizada na Secretaria Municipal de Preservação do Meio Ambiente (SEMPMA), em Maceió;

   Conferência Metropolitana de Meio Ambiente, realizada em 08 de agosto no auditório do CECA / UFAL, na cidade de Rio Largo, na qual foram eleitos os delegados de Maceió à Conferência Estadual, cuja delegação tivemos a oportunidade de integrar;

   Conferência Estadual de Meio Ambiente, realizada em 23 e 24 de agosto/2013 no Centro de Convenções Ruth Cardoso, cuja programação contou com participantes do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e na qual foram eleitos os delegados representantes de Alagoas na 4° Conferência Nacional do Meio Ambiente (CNMA).

   Posteriormente, na 4ª CNMA, em Brasília, entre 23 a 27 de outubro/2013, participamos do evento na condição de convidadas. Estavam presentes representantes do poder público (MMA), sociedade civil organizada (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis), representantes das coalizões empresariais dos setores produtivos e incluídos nos acordos setoriais. Tendo por tema central a questão dos resíduos sólidos, a conferência contribuiu decisivamente para o levantamento de questões relevantes para a tessitura deste trabalho.

   Finalmente, no âmbito de eventos públicos, participamos do IX Recicle Cempre, realizado em São Paulo nos dias 05 a 07 de novembro/2013 e organizado pela entidade Compromisso Empresarial para a Reciclagem, que atua em parceria com o setor produtivo do químico e do plástico nacional. Estiveram presentes representantes de grandes empresas e do poder público.

  Além desses, houve participação, como observadora, em 2014 e 2015, nos eventos em curso no estado de Alagoas relativos à implantação do Plano Estadual de Resíduos Sólidos . Dentre eles, eventos relacionados ao Programa Alagoas Catador, organizados pela Secretaria de Estado do Planejamento e Desenvolvimento Econômico (Seplande). Ademais, tivemos a oportunidade de estar na Reunião Pública - Diagnóstico dos Resíduos Sólidos no Estado de Alagoas (Região Metropolitana), evento que faz parte da etapa inicial da confecção do Plano Estadual de Resíduos Sólidos do estado de Alagoas, realizada dia 28 de abril de 2014, em Maceió e, em 2015, no mês de fevereiro, sendo este a continuação do anterior.

  Assim, a partir da observação desses eventos, pudemos identificar os conflitos de interesses entre os setores envolvidos no âmbito da responsabilidade compartilhada (Poder público, Setor privado e Sociedade Civil organizada), esta sendo uma das diretrizes principais da PNRS. Durante a 4° Conferência Nacional de Meio Ambiente, presenciamos um demonstrativo deste conflito, que foi descrito (Apêndice A) e referenciado no capítulo 3.

  O segundo momento dessa investigação foi constituído de uma análise documental que foi realizada durante todo o período de pesquisa e se iniciou com a leitura e uma análise crítica da Lei 12.305/10 e seus decretos, além de visitas periódicas a documentos que tratavam do tema.

  (...) “A característica da pesquisa documental é que a fonte de coleta de dados está restrita a documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias. Essas podem ser feitas no momento em que o fato ou fenômeno ocorre, ou depois

  ” (Lakatos e Marconi, 2003, p. 174). Os documentos que foram selecionados para figurar seguiram o seguinte critério: ser documento oficial e de fácil acesso público com a temática sobre a PNRS (Leis, Diário Oficial, Proposta de acordo setorial, matérias informativas divulgadas por agentes envolvidos com PNRS). Essa leitura crítica aconteceu concomitantemente à leitura de conteúdo analítico, possibilitando a construção de um debate amplo e com densidade teórico-conceitual acerca da PNRS e a implantação da logística reversa.

  Após esse processo, evidenciamos a necessidade de compreender a tramitação do PL 203/91 (BRASIL,1991) que originou a PNRS. Esse momento foi necessário para identificar os conflitos na construção da política estudada. Esse processo se deu com o acesso ao material

  3

  disponível no site da Câmara dos Deputados sobre a tramitação da PNRS, quando foi realizada a análise de discurso que, segundo Minayo (2004), é a exposição das contradições e

  

dos conflitos existentes em uma dada realidade, pois é construída a partir do emaranhado de

  desafios ideológicos que expressa o repertório de uma época e de um grupo social; portanto a compreensão do discurso exige a compreensão das relações sociais que este expressa. Complementando, e com base na teoria de Michel Pêcheux descrita por Caregnato e Mutti, (2006), a análise de discurso aborda a relação língua-sujeito-história desvendando o sentido 3 do conteúdo estudado, possibilitando identificar temáticas especificas para os documentos que

  

BRASIL. Projeto de Lei. n. 203 de 1º de abril de 1991. Dispõe sobre o acondicionamento, a coleta, o

tratamento, o transporte e a destinação final dos resíduos de serviços de saúde. Oficial [da] República compõem o corpus da pesquisa, o que possibilitou dar ênfase a temáticas relevantes para o objeto, no caso, a implantação da logística reversa no setor produtivo do plástico.

  A junção dessas técnicas possibilitou a identificação e construção de categorias de análise encontradas nos documentos pesquisados na tramitação do PL 203/91 até a aprovação da lei. As reflexões realizadas na interpretação da PNRS possibilitaram a identificação de categorias que revelam os interesses e conflitos implícitos na construção da política e até posteriormente a sua aprovação. As categorias de análises destacadas foram: a abrangência da conceituação sobre RS durante o processo de construção da PNRS, resíduos perigosos, incineração, institucionalização dos órgãos ambientais no Brasil, reciclagem, e implantação da logística reversa.

  Nesse contexto, também utilizamos a teoria de Wolfgang Sachs (2002) sobre sustentabilidade versus globalização e as grandes corporações desterritorializadas no Brasil e a influência dessas nos conflitos socioambientais na tramitação da política até a mediação e arbitragem dos acordos setoriais que vão ser decisórios para a implantação da logística reversa no país. Nesse momento, apoiamos-nos em autores da sociologia ambiental crítica que estudam conflitos socioambientais nas mais diversas arenas, dentre os demais, Acselrad (2010), Zhouri (2008, 2010).

  Apresentamos esta investigação, portanto, em três momentos: O primeiro capítulo trata da transição da sociedade industrial à sociedade de risco, ambas sustentadas pela sociedade de consumo. Nessa problemática, foi abordado o início da sociedade de descarte e a inclusão da indústria da reciclagem no escopo da cadeia produtiva do plástico. Além disso, observamos, com apoio de teorias aplicadas, o início da política pública ambiental no Brasil e a inserção do setor produtivo do plástico no mercado nacional e, por consequência, sua necessidade de gestão.

  No segundo capítulo, analisamos a PNRS a partir das categorias de análises a serem destacadas na reconstituição dos 19 anos de tramitação da política no Congresso Nacional. Foram identificados os conflitos de interesses, os atores sociais envolvidos e a construção da legitimidade social da lei.

  No último capítulo, fazemos uma argumentação sobre o contexto e conceito histórico caso ao grupo de embalagem em geral e suas 22 associações da coalizão referida. Posteriormente, as considerações finais dando ênfase às categorias de análise identificadas no PL 203/91 e na PNRS, além da situação de governança em relação aos acordos setoriais.

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