O ESTILO HAGIOGRÁFICO NA FIGURA DO PADRE GABRIEL MALAGRIDA: O MODELO DE SANTIDADE NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC

  • – SP

  RODRIGO PIRES VILELA DA SILVA

  

O ESTILO HAGIOGRÁFICO NA FIGURA DO PADRE GABRIEL

MALAGRIDA:

O MODELO DE SANTIDADE NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO

  

XVIII

  MESTRADO EM TEOLOGIA SÃO PAULO

  2014

  

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC

  • – SP

  RODRIGO PIRES VILELA DA SILVA

  

O ESTILO HAGIOGRÁFICO NA FIGURA DO PADRE GABRIEL

MALAGRIDA:

O MODELO DE SANTIDADE NA SEGUNDA METADE DO

SÉCULO XVIII

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Teologia, sob a orientação do Prof. Dr. Ney de Souza.

  SÃO PAULO 2014

  Banca Examinadora

  

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  “Aquele homem existiu mesmo! Bem concreto, daquele tamanho que andou com passos de gigantes em todo lugar do nordeste, e podemos enfim dizer com base histórica: aqui passou Malagrida no século XVIII!

  ”

  Ilário Govoni Aos meus familiares e amigos, aos que acreditam que no itinerário da vida, vale olhar ao redor e aprender de quem já caminhou por ela.

  

AGRADECIMENTOS

  A Deus pelo dom da vida e pelas possibilidades sempre novas que me concede; À minha família, ao meu padrinho Luís Ferreira (in memoriam), meu primeiro catequista: pelos ensinamentos que alicerçaram minha história de fé; À Arquidiocese de São Paulo: pelo constante apoio e orações; A todos com os paroquianos da Área Pastoral Santíssima Trindade, onde tive grandes momentos de Alegria; À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na pessoa de seu Grão-chanceler, Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer: pelos encaminhamentos na construção de uma instituição segundo os valores cristãos; Aos meus queridos professores e aos companheiros de estudo no Programa de Mestrado em Teologia da PUC-SP: pelo incentivo, exemplo e empenho dispensados; Ao Professor Doutor Ney de Souza, meu orientador, cujas paciência e erudição não viram obstáculos às minhas limitações.

  

RESUMO

  Esta dissertação desenvolve-se acerca da questão hagiográfica entendida como literatura a partir da vida do padre Gabriel Malagrida do qual pretende-se extrair a compreensão de santidade da época colonial. Problematiza-se o assunto, tendo como pano de fundo da reflexão teológica, questionamentos como: Qual o contexto cultural em que as narrativas da vida de Malagrida então inseridas? É possível estabelecer um modelo hagiográfico de santidade a partir da investigação das biografias de Malagrida? Qual é a relação que podemos estabelecer entre a narrativa de Matias Rodrigues, Vida do padre

  

Gabriel Malagrida e a obra hagiográfica mais relevante sobre a vida dos santos,

Legenda Áurea ? O método utilizado é a investigação de fontes literárias, biográficas e

  da literatura hagiográfica da vida de Malagrida e de outros textos que contribuíssem na compreensão da temática. A pesquisa pretende com essa abordagem contribuir na valorização de um personagem de importância histórica para o Brasil, o jesuíta Malagrida. Verificou-se, primeiramente, que o modelo de santidade vigente tem suas origens na concepção medieval de matriz portuguesa que impregna toda a Colônia brasileira. Em seguida, comprovou-se a hipótese de que uma investigação das obras biográficas de Malagrida vistas a partir da compreensão da literatura hagiográfica, poderia-nos fornecer elementos suficientes para estabelecer um modelo de santidade medieval colonial. E por fim, relacionamos essa concepção com a hagiografia contida em Legenda Áurea de modo a delinear esse paradigma de santidade.

  

Palavras-chave: Gabriel Malagrida. Hagiografia. Literatura hagiográfica. Santidade.

  

ABSTRACT

  This dissertation develops on the issue seen as hagiographic literature from the life of Father Gabriel Malagrida which aims to extract an understanding of holiness from the colonial era . Problematizes the subject , with the backdrop of theological reflection , questions such as: What is the cultural context in which the narratives of the life of Malagrida then inserted ? You can establish a hagiographic model of holiness from the investigation of biographies of Malagrida ? What is the relationship that we establish between narrative Matias Rodrigues , Life of Father Gabriel Malagrida and more relevant information about the lives of saints hagiographic work , Legenda Aurea ? The method used is the investigation of literary , biographical and hagiographic literature of life Malagrida and other texts that contribute in understanding the thematic sources. The research aims to contribute to this approach in the valuation of a character of historical importance to Brazil , Jesuit Malagrida . It was found , first, that the current model of holiness has its origins in the medieval conception of Portuguese mother permeates all Brazilian colony . Then proved the hypothesis that an investigation of biographical works Malagrida views from the understanding of hagiographic literature , could provide us sufficient evidence to establish a model of colonial medieval holiness. Finally , we relate this concept to the hagiography contained in Legenda Aurea in order to delineate this paradigm of holiness .

  Keywords: Gabriel Malagrida . Hagiography . Hagiographic literature. Holiness.

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO.............................................................................................................09

CAPÍTULO I Ố UMA TENTATIVA DE APROXIMAđấO DA COLÔNIA.........12

  1.1 O MUNDO NO QUAL O BRASIL COLONIAL ESTÁ INSERIDO................13

  1.2 OS ASPECTOS DAS RELAđỏES SốCIO-POLễTICAS NA COLÔNIA .......20

  1.2.1 “Encomienda”, “Requerimiento” E “O Estatuto Do Índio”................................21

  1.3 APROXIMAđấO DO UNVERSO RELIGIOSO COLONIAL.........................26

  1.4 A VOCAđấO DA INQUISIđấO E SEU PAPEL NO PERễODO COLONIAL.....................................................................................................................33

  1.5 A OPđấO POR UM MODELO DE FORMAđấO SACERDOTAL NO SÉCULO XVI.................................................................................................................36

  CAPÍTULO II

  • – LEITURAS ACERCA DO PADRE GABRIEL MALAGRIDA..40

  2.1 AS FIGURAS DE MALAGRIDA......................................................................41

  2.1.1 Malagrida de Matias Rodriguez: o Missionário Taumaturgo..............................42

  2.1.2 Malagrida de Camilo Castelo Branco: a irracionalidade do século das Luzes....46

  2.1.3 O Malagrida de Ilário Govoni: Malagrida por ele mesmo e a partir dos seus.....53

  CAPÍTULO III – A HISTÓRIA COMO INSTRUMENTO DA TEOLOGIA NA

LITERATURA HAGIOGRÁFICA.............................................................................66

  3.1 HAGIOGRAFIA COMO GÊNERO LITERÁRIO.............................................67

  3.1.1 Hagiografia e Teologia........................................................................................72

  3.1.2 Legenda Áurea: modelo hagiográfico medieval..................................................76

  3.1.3 O estilo Hagiográfico de Legenda Áurea presente na obra de Matias Rodriguez.........................................................................................................................77

  3.1.4 O Martírio em Vida do padre Gabriel Malagrida a partir do modelo hagiográfico em Legenda Áurea......................................................................................85

  

CONCLUSÃO................................................................................................................89

BIBLIOGRAFIA...........................................................................................................93

  

INTRODUđấO

  O nome de Malagrida é reconhecido como Apóstolo do Brasil, tanto entre os Jesuítas quanto para os seus conterrâneos. É de chamar atenção a ausência de seu nome junto aos manuais de História, junto aos nomes de outros jesuítas como Nóbrega, Anchieta e Vieira, sobretudo por ter implantado aqui algumas devoções que vão marcar a identidade do povo

  1

  brasileiro, como a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora da Boa Morte . A campanha anti-jesuítica foi deveras forte, sobretudo na historiografia brasileira, que num processo de criação de uma História Nacional, dentre as seleções de fatos e personagens, de certa forma esquece a figura de Malagrida, que é elemento chave para a proposta espiritual para o período que se segue.

  Sendo assim, pretendemos fazer memória à figura de Malagrida e destacar a sua importância no processo de formação do Brasil. Além disso, abrimos para a discussão o papel da hagiografia na História da Igreja, principalmente no que diz respeito à reconstrução de uma mentalidade, de uma cultura, de uma expressão de fé num período que mereceria mais atenção para o mundo acadêmico, tanto da Teologia como nas demais áreas do conhecimento.

  O século XVIII foi bem intenso no que diz respeito à relação Igreja-Estado. Tal relacionamento nunca fora marcado pela lisura: desde Constantino até o sistema do Padroado. No entanto, o surgimento do Iluminismo como um forte movimento intelectual vai abalar a hegemonia do poder cultural que os jesuítas haviam construído desde sua fundação. Some-se a isso a crescente impopularidade dos inacianos junto às demais ordens religiosas

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  contemporâneas e o fato de, por força da regra de Santo Inácio, os membros da ordem não poderem ocupar sedes episcopais, gerando uma falta de proteção para eles mesmos. As consequências da soma destes fatores são conhecidas: a expulsão da Companhia dos domínios portugueses e a sua supressão logo em 1773.

  A figura do Pe. Gabriel Malagrida se encontra neste conturbado contexto. Quis, no seu entender, seguir a Jesus Cristo de perto, construindo uma vida santa. Em seus escritos tal propósito transparece, como em várias de suas biografias. Tal estilo de evangelização a que se 1 propõe será adotada por outros religiosos nos séculos seguintes, como o Pe. Ibiapina, o beato

  Cf. FENZL, Andrea; BARBIERI, Renato. Malagrida. [documentário-video]. Produção de Andrea Fenzl, 2 direção de Renato Barbieri. São Paulo, Videografia Criação, 2001. 1 DVD/NSTC, 73 min. color. som.

  

Cf. DOMINGUES, Beatriz Helena. Disputas entre “Cientistas Jesuítas” e “Cientistas Iluministas” no mundo

  

3

Antônio Conselheiro, Frei Damião, entre outros . Uma santificação que parece estar associada

  à missão itinerante. E assim, faz sentido questionar o que, no século XVIII do Brasil Colonial, se entende por “santidade” ou qual era o modelo de santidade vigente.

  Visto que contra Malagrida, que viveu para as missões, houve uma clara perseguição de Marquês de Pombal, acarretando na sua execução pela Inquisição, a Companhia de Jesus logo começa a produzir material de cunho apologético para fazer justiça ao mais novo mártir inaciano. Tais escritos são produzidos dentro de um esquema já conhecido no mundo medieval e bem presente no mundo de então: o estilo de Legenda Áurea, ou seja, nos moldes da vida de um santo. Assim, a visão de santidade no século XVIII do Brasil Colonial pode ser descoberta sob os contornos da vida de Malagrida.

  Os modos de vida e de morte narrados pelos seus hagiógrafos reproduzem várias feitas de santos contidos na obra de Jacopo de Varazze. Para o momento, é possível apontar tais elementos na vida de Malagrida. Este esquema hagiográfico poderia ser um padrão. A base disso é que todas as biografias do Pe. Malagrida obedecem ao mesmo esquema tetrapartido, como a do Matias Rodrigues, do Paul Mury, a do Ilário Govoni

  • – todos jesuítas – mostrando um mundo no qual “há uma constante luta entre o bem e o mal, da qual nada e ninguém pode

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  . No entanto, ainda que seja sabido que com a chegada do Iluminismo tal ficar alheio” espiritualidade tenha não atendido mais a necessidade tanto do clero quanto do povo, é importante notar que o que acontece na redação da história de Malagrida segue o esquema apontado pelo Hilário Franco Jr. no modelo hagiográfico.

  Tal modelo não poderia ser resumido por uma pergun ta simplista como: “é verdade o que o texto diz?” Ou “tudo isso foi inventado?”, pois o que interessa aqui é a mentalidade, o simbolismo daquela geração; as representações de mundo. Em outras palavras, como que o mundo é visto pelos jesuítas e, de certo modo, pela população evangelizada por eles naquele período tão conturbado.

  Para tal argumento, a utilização de textos da época é sentida, tanto em forma da língua arcaica, quanto editados no vernáculo contemporâneo, sempre de acordo com a fonte encontrada. A extensão de algumas citações de autores dos séculos XVIII e XIX não tem outra razão que apresentar a noção presente nas entrelinhas, visto que não trabalham com

3 Cf. COMBLIN, José. Padre Ibiapina. São Paulo:Paulus, 2011. Neste livro o autor faz uma breve apresentação

  sobre o modo como Ibiapina desenvolve seu ministério no sertão nordestino. Faz parte de uma série que visa 4 apresentar história da evangelização no Nordeste. Outro volume do mesmo autor se refere a Pe. Cícero. conceitos enciclopédicos, mas por meio de estilos e imagens literárias próprias de seu contexto barroco, de modo que cortar um pedaço poderia custar à compreensão do conteúdo.

  O sentido do trabalho é, através de elementos históricos, literários e teológicos em torno de um personagem concreto, propor uma leitura sobre a figura de Gabriel Malagrida. Assim, o caminho a ser percorrido fará três paradas, com passagem pela História, Literatura e Teologia, na intenção de apresentar uma interdisciplinaridade entre elas, oferecendo subsídios para a compreensão do relacionamento entre o Homem e a Revelação.

  Sendo assim, a primeira parte do nosso estudo intenta justamente apresentar de forma sistemática os elementos que marcam o período histórico em que o padre Malagrida viveu, de modo a contextualizar o Brasil colonial e identificar suas principais influências, sobretudo as referentes à Coroa. De fato, é a partir de uma perspectiva histórica da época que podemos situar que é inerente à vida de Gabriel Malagrida e de seus contemporâneos biógrafos.

  A segunda parte desse trabalho está dedicada a uma breve análise das mais relevantes biografias de Malagrida. Nosso intuito é demonstrar com precisão que tais narrativas contém como pano de fundo comum os elementos que estão presentes na compreensão do que é santidade em meados do século XVIII.

  Por fim, corroboramos a reflexão, uma aproximação à literatura hagiográfica. As narrativas da vida de santidade de padre Malagrida estão nos moldes das narrativas da vida de santos produzidas na Idade Média e ainda vigentes em sua época. Tal afirmação verificar-se através da aproximação da tradicional obra medieval da vida de santos, Legenda Áurea e a biografia da vida de Gabriel Malagrida que parece mais relevante, Vida do padre Gabriel

  

Malagrida , de Matias Rodriguez. De fato, a partir dessa aproximação é possível delinear o

modelo de santidade desse período.

  CAPÍTULO I Ố UMA TENTATIVA DE APROXIMAđấO DA COLÔNIA “Os lusos mores coisas atentando

  5 Novos mundos ao mundo irão mostrando ” “O objeto próprio, o constituinte essencial do cristianismo não é uma ideia, ideologia, nem uma moral, mas uma Pessoa. Em última instância, não é senão uma relação entre as pessoas criadas e históricas, que participam existencialmente da mesma interpessoalidade divina. Por isso, o cristianismo compromete toda a

  6 pessoa, a um nível concreto, absoluto e radical”.

  Qualquer coisa que possamos dizer a respeito do passado, não é capaz de abarcar sua totalidade, quando muito faz uma aproximação. A partir deste ponto de vista, numa primeira delimitação de nossa abordagem histórica, é que apresentamos a compreensão de que o século

  XVIII foi bem intenso no que diz respeito à relação Igreja-Estado. Tal relacionamento nunca fora marcado pela lisura: desde Constantino, nos primórdios do cristianismo quando o tornou religião oficial do estado, até o sistema do Padroado, em que os nomes para cargos eclesiásticos eram indicados pelo governante de Portugal. No entanto, o surgimento do

7 Iluminismo como um forte movimento intelectual abala a hegemonia do poder cultural da

  Igreja Católica, sobretudo da Companhia de Jesus, uma vez que os jesuítas haviam construído desde sua fundação grande influência nesse campo.

  No que diz respeito à história do Brasil, este século está dentro do período que didaticamente é chamado de colonial. São trezentos anos em que pouco se muda no contexto 5 brasileiro. É praticamente a mesma paisagem desde quando o processo de colonização se 6 Cf. CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. II, 39-40. São Paulo: Saraiva, 2010. p.46. 7 DUSSEL, Enrique. Caminhos de libertação latino-americana. V. II. São Paulo: Paulinas, 1985. p. 32.

  

“O Iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade que deve ser imputado a ele próprio.

Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro. Imputável a si próprio é esta

menoridade se a causa dela não depende de um defeito da inteligência, mas da falta de decisão e da coragem de

servir-se do próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapere aude! (Ter a coragem de saber) Tenha a coragem

de servir-te da própria inteligência!

  • – é, portanto, o lema do Iluminismo” cf. FOUCAULT, Michel; KANT,
estabeleceu. Como se demonstrará a seguir, isto ocorreu porque a colônia e seus problemas eram encarados da mesma forma que os problemas em Portugal. As políticas e as medidas econômicas adotadas para esta porção do mundo são basicamente as mesmas, por princípio, o de relação metrópole-colônia. Haverá movimentos de reivindicação de políticas econômicas nos século XVIII que remontam ao século XVI.

1.1 O mundo no qual o Brasil colonial está inserido

  Obviamente não podemos falar do século XVIII sem considerarmos os séculos anteriores e os movimentos que ali foram desenvolvidos. Toda a questão que tem como palco esse momento histórico é justamente em relação às potências marítimas (Portugal e Espanha) e o seu expansionismo que para dar fôlego as suas metrópoles e sair da saturada luta contra os árabes (mouros) que os cruzados, empenhados em conquistar o território onde estes residem e a Terra Santa, não conseguiram realizar. De fato, o embate com o mundo mulçumano provocou grande desgaste e uma necessidade de

  “navegar” em outros mares em busca de riquezas e da expansão da fé católica. Da mesma forma, a posterior questão com os protestantes gerou tantos confrontos que acabou por repaginar o mundo da fé e a visão do mesmo.

  A aritmética neste sentido era muito simples, quanto mais índios convertidos, mesmo qu e à força, no Novo Mundo, mais “civilizados” e cristãos para a coroa-metrópole. Além disso, havia também uma grande possibilidade de que uma vez “civilizados” e cristãos, eles se tornassem aptos para o trabalho que era necessário na colônia, tendo em vista um melhor aproveitamento das riquezas contidas no Brasil, além de evitar também um gasto muito alto com a compra de escravos vindos da África.

  O doze de outubro de 1492 sai de seu marasmo, se desprende do calendário e vai retomar seu “lugar ao sol”, de esperanças e sonhos. A história que rompe com as camuflagens oficiais e se desfaz das correntes ideológicas vira um admirável desdobrar de liberdades, com efeitos épicos das grandes proezas, sem, no entanto, esquecer as atrocidades e vilezas. Dois olhares se cruzam, tendo como ideais festivos ambições realizadas, almejando sempre mais, novos desejos de grandezas. Cristóvão Colombo e a rainha Isabel se encontram, tendo pensamentos semelhantes, confrontam aspirações, fazem previsões e projetos. Cristóvão Colombo se dirige aos reis Fernando e Isabel (reis católicos) com uma linguagem solene e

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  religiosa. Ele sentira desde o começo de seus Diários que o momento da expansão marítima

  9 chegara quando se realizava e comemorava a Reconquista .

  Colombo concatenou bem todos os acontecimentos e viu com muita lucidez a hora certa que abria espaço para o lançamento de sua tão almejada expedição. Era sempre uma grande aventura inusitada. Todo esse entrelaçamento de pessoas, de fatos, foi o que veio a tornar viável a descoberta da América e a determinar as condições de sua colonização.

  Aumenta a vaidade de ter construído a uniformidade interior, que resultou da força da ortodoxia e da valia dos “cristãos velhos”, dos espanhóis de boa casta. É o tempo de ir em frente com o expansionismo político e econômico. A unidade forte leva a propagar a fé e o império. Todavia, nos séculos subsequentes, o propagar assume o pleno significado de sua ambição histórica. Esta mentalidade impõe aos outros a fé cristã, levando a um processo de inchaço compreensível que concentra muita vaidade, instigando a ocupação de novos espaços, supostamente vazios de seus donos. O poder econômico, político e militar dá aos povos colonizadores, em relação aos seus dominados, força para dizer que todas essas terras estavam reservadas desde sempre aos “novos senhores do universo”.

  Nós, pensando com a devida meditação em todas e cada uma das coisas indicadas, e levando em conta que, anteriormente, ao citado rei Alfonso foi concedido por outras cartas nossas, entre outras coisas, faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vencer e submeter a quaisquer sarracenos e pagãos e outros inimigos de Cristo, em qualquer parte que estivessem, e aos reinos, ducados, principados, domínios, possessões e bens móveis e imóveis tidos e possuídos por eles; e reduzir á servidão perpétua as pessoas dos mesmos, e destinar para si e seus sucessores os reinos, ducados, condados, principados, domínios, possessões e bens deles. Seus sucessores e o Infante, nas províncias, ilhas e lugares já adquiridos ou a serem adquiridos por eles, possam fundar e construir igrejas, mosteiros e outros lugares piedosos; e ao citado rei Afonso e seus sucessores, os que forem reis de

  10 Portugal doravante, e ao citado Infante, o concedemos e o permitimos.

8 Diários da descoberta da América: era o diário de suas viagens. Cf. JOSAPHAT, F. Carlos. Las Casas, todos os

  9 direitos para todos. São Paulo: Loyola, 2000. p. 20.

  Os mouros (infiéis) foram definitivamente vencidos e expulsos da Espanha: a última batalha fora em Granada, 10 em 1492. Cf. Ibidem. A visão de um mundo a ser conquistado não é exclusividade do povo ibérico. O desejo de tal façanha já era contado desde Homero, Vergílio, e neste ínterim, por Camões em Os Lusíadas. O expansionismo deste povo é reflexo da própria natureza humana, como que num esquema de projeção, no qual o desejo de dominar está ligado à ideia de prosperidade que, não se queira ser simplista, em todos os tempos, esteve ligada à vontade divina, ao favorecimento dos deuses. O texto, como se percebe, mostra primeiramente o desejo de ir além; doravante, segue-se um embasamento, se não teológico, pelo menos devocional:

  Nós, confiantes na misericórdia do próprio Deus todo-poderoso, e na autoridade dos seus santos apóstolos Pedro e Paulo, e nas palavras d’aquele que é o caminho, a verdade e a vida, e nos disse, na pessoa do mesmo bem- aventurado Pedro, de quem somos sucessor com igual autoridade, embora não iguais méritos: ‘o que ligares na terra ficará ligado nos céus’; e [confiante] na plenitude do poder que Nos foi dado pelos céus: concedemos igualmente e damos a todos e mesmo fiéis que com suas próprias pessoas se engajarem no exército dos mesmos Rei e Rainha para guerrear contra os mesmos sarracenos para conquista do dito reino de Granada, e que permanecerem [na tropa] pelo tempo que for estabelecido pelos tesoureiros de coletas dessa santa Expedição, designados conforme as circunstâncias, a remissão de todos os seus pecados e a indulgência como foi costume ser dada pelos Nossos Predecessores aos que partiram para reforço [dos combatentes] na Terra Santa, e como foi concedida em Ano Jubilar pelos mesmos Predecessores e por nós mesmo.

  Decidimos sejam para sempre preservadas ao regaço dos santos Anjos, no céu, para permanecerem na felicidade eterna, as almas de todos aqueles a quem couber partir para essa santa Expedição. De tal modo que, se vier a acontecer que alguns deles partam desta vida se puserem a caminho para o prosseguimento de tão santa obra, poderão eles adquirir integralmente essa

  11 indulgência.

  A expansão portuguesa se dará nos moldes da espanhola, uma vez que ambas eram potências marítimas na sua época; a honra de lançar-se ao mar e apresentar novos mundos ao 11 mundo conhecido é tema trabalhado por Camões, que explora, numa retomada de elementos clássicos do paganismo, somados a um pessimismo em relação à pequenez humana diante do vasto mundo, em versos de enaltecimento ao povo português. Pelo tamanho da obra, é perceptível que o orgulho dilatado deste povo era maior do que quaisquer princípios humanitários em relação aos povos indígenas, ou de outras terras conquistados.

  No mar tanta tormenta, tanto dano Tantas vezes a morte apercebida Na terra tanta guerra, tanto engano Tanta necessidade aborrecida

  Onde pode acolher-se um fraco humano? Onde terá segura a curta vida ? Que este céu sereno não se arme

  12 Contra um bicho da terra tão pequeno (...) Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,

  Que para as coisas que eu do peito amasse Tu fosses brando, afável e amoroso Posto que algum contrário lhe pesasse Mas, pois que contra mim te vejo iroso Sem que eu merecesse, nem te errasse Faça-se como Baco determina

  Aceitarei, enfim, que fui mofina Este povo, que é meu, por quem derramo As lágrimas que em vão caídas vejo Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo

  Sendo tu tanto contra o meu desejo Por ele a ti rogando, choro e bramo E contra a minha dita, enfim, pelejo Ora pois, porque o amo, é maltratado,

  13 Quero-lhe querer mal: será guardado.

  (...) Os vossos mores coisas atentando

  14 12 Novos mundos ao mundo irão mostrando 13 Cf. CAMÕES, Luiz Vaz de. Os Lusíadas. I, 106. São Paulo: Saraiva. 2010. p.35 A história é cantada numa epopeia marcada pelos sacrifícios que justificam a vida. O mundo quinhentista é lugar do sagrado, um espaço de epifania. Por esse motivo, a expansão não pode deixar de ser lida como um fenômeno teológico. Ora, como missão é campo da Teologia. Foram estas nações que, com seu espírito desbravador, conseguiram levar a “civilização” e a fé católica ao continente americano, promovendo assim, o choque de culturas e visões de mundo totalmente diversas, que não se entenderam muito bem, sobretudo no início.

  Evidentemente que, como colônia portuguesa, e mesmo mostrando sinais de crescimento econômico, “especialmente após 1570, o Brasil, oitenta anos depois de

  15

  descoberto, continuava a ser os fundos do Império , não podia nem se gabar de ter ” universidades ou imprensa, tendo pouquíssimos edifícios nobres e quase nada de riqueza mineral que fosse visível. Já o pau-brasil permaneceu até o século XVIII um importante

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  produto para a atividade econômica, porém, não podia por si só, sustentar a colônia. A união de Portugal com a Espanha em 1580 sob uma única coroa, que trouxera moedas peruanas ao Brasil em meados de 1585, favoreceu a vida econômica. No entanto, com o seu rompimento em 1640, ficou clara a dependência econômica do Brasil desta fonte de dinheiro. Assim, os

  17 portugueses retornaram novamente a prática do escambo.

  Todavia, os germes do futuro já haviam sido lançados na forma da cana-de-açúcar vinda de São Tomé no início do século XVI. Em meados do século XVII o Brasil, por ter algumas características favoráveis, como o clima e o solo, fará do açúcar o seu alicerce

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  econômico. Os senhores de engenho se tornarão os homens ricos da colônia, pois o Brasil não tinha uma população indígena grande assentada e pagadora de impostos, e as riquezas minerais ainda estavam num futuro distante. Toda a produção de açúcar dependia dos colonos, que mesmo assim viam os custos agrícolas e industriais cair diretamente sobre si. Os senhores de engenho fizeram assim do Brasil uma colônia muito valiosa, e sem eles não haveria muita coisa para sustentar a região.

  Assim, em 1609-11 e, como veremos, também em 1626, a Coroa adotou 14 uma posição mais leniente do que deveria em relação às demandas dos 15 Cf. CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. II, 39-40. São Paulo: Saraiva. 2010. p. 46.

  

SCHWARTZ, Stuart B., Burocracia e sociedade no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 16 p. 94. 17 Cf. Ibidem. 18 Cf. Ib. p. 95. fazendeiros. Os acontecimentos desses anos de fato deixaram claro, entretanto, que a Relação, que fora saudada pelos fazendeiros como uma aliada contra os comerciantes, era um órgão do governo real e, portanto, uma

  19 possível ameaça à elite canavieira.

  Posto isto, a figura dos jesuítas aparece no Brasil colônia como uma realidade vital, cuja notoriedade e estilo orientou a vida do Novo Mundo. Eles foram os desbravadores de um lugar tido por selvagem em suas terras. Por aproximadamente trezentos anos, a única estrutura de civilização presente na colônia era a Igreja. E em muitos casos, a representação da Igreja se dava pela presença jesuíta, pois onde chegavam se preocupavam logo em criar escolas, igrejas, oficinas, etc. Assim, a presença inaciana se dá justamente pela ausência do Estado de direito. Mesmo que possa soar como um Estado dentro de outro, na verdade o que parece é que num terreno onde não há um Estado de direito e as distâncias são continentais, os habitantes acabam por se organizar da forma que conseguirem, com as leis que conhecem.

  O crescimento jesuíta vem acompanhado de dinheiro e poder, justamente por terem consigo a mão-de-obra indígena e controle sobre suas terras e produções. Com isso, os administradores da metrópole tinham o desejo de secularizar a atuação jesuíta, pois tendo isenções alfandegárias e controle da mão de obra, eles tinham a balança do mercado a seu

  20

  favor. Para resolver esta organização indígena de domínio da Companhia de Jesus, é lançado o Diretório do Índio em 1757, cuja orientação é secularizar o território, a mão de obra e escoação dos índios, tirando dos religiosos esta receita e obrigando-os a viver de suas côngruas, além de passar a eles o direito de civilizar estes povos bárbaros.

  21

  22

  coloca em Ao desenvolver a tese do estado ‘arruinado ’ Mendonça Furtado movimento o espírito iluminista que fora assimilado por Marquês de Pombal. Pois fora desejo deste a supressão dos jesuítas de todas as colônias portuguesas, uma vez que via neles um entrave para o desenvolvimento e prosperidade de Portugal. Contudo, não é exagero lembrar 19 que o iluminismo pombalino não passou de um despotismo esclarecido. Tanto ele, quanto 20 Ib., p. 124.

  

Cf. RAYMUNDO, Letícia de Oliveira. http://www.almanack.usp.br/PDFS/3/03_informes_1.pdf. Último

21 acesso em 15/03/2013.

  

‘Tal ruína’ aparece sempre associada ao poder temporal dos eclesiásticos, os quais, ao contrário dos colonos,

possuiriam produtivas fazendas, grossos cabedais e se destacariam na extração das drogas do sertão em virtude

de dominarem a principal mão-de-obra do estado, o índio. E no mais eram isentos do pagamento de impostos,

fazendo com que esta prosperidade não revertesse em benefício aos cofres públicos’ cf. RAYMUNDO, Letícia

22 de Oliveira http://www.almanack.usp.br/PDFS/3/03_informes_1.pdf.

  

Sendo governador do Pará, acolherá as indicações da Metrópole portuguesa, neste caso contra o modo de Mendonça de Furtado, seu irmão, não negam a utilidade dos inacianos, visto que do Rio de Janeiro à foz amazônica as missões jesuítas tinham bons resultados, pois conseguiam converter gentios. O problema é que o campo de atuação deles era maior do que a sacristia:

  Eram conselheiros das principais autoridades administrativas, construtores das maiores bibliotecas da Colônia, exploradores dos sertões, linguistas, médicos, arquitetos e artesãos dos mais diversos tipos, horticultores, criadores de gado, superintendentes de fazenda e administradores de imóveis urbanos. Por fim, foram os criadores do teatro brasileiro e os cronistas de todos os acontecimentos registrados na época.

  23 As funções de um Estado de direito se resumem em garantir a base para o

  desenvolvimento de seu povo, o que pode ser encontrado em filósofos iluministas chamados de contratualistas, como Locke, Hume, Rousseau, Voltaire, entre outros. No entanto, por mais de trezentos anos, este papel foi sendo feito nas colônias portuguesas pelas ordens religiosas e, de modo muito particular, pelos jesuítas.

  Em poucos países da América uma língua indígena teve tanta difusão que o tupi antigo conheceu. Chegou a ser por séculos a língua da maioria dos membros do sistema colonial brasileiro, de índios, negros africanos e europeus, contribuindo para a unidade política do Brasil.(...) Em formas evoluídas, foi falada durante a metade da nossa história, mais que a língua portuguesa, até cerca de 1750, que só se impôs nacionalmente após a segunda metade do século XVIII.

  24 A influência foi tamanha que, diga-se de passagem, a língua comum, o nheengatu, era

  o tupi, não mais tal e qual falado pelos índios quinhentistas, mas transformado em língua literária pelos “soldados de Cristo”. O quadro só foi alterado com a ascensão de Pombal ao poder e a expulsão dos jesuítas de seus domínios.

  Assim, a colonização do Novo Mundo dá significado ao desejo de expansão dos ibéricos e, para tanto, fornece elementos para a visão teológica do universo e para a construção de um mundo que tenha a Europa como centro. Neste aspecto, a sujeição de povos 23 SROUR, A. C. Introdução. In: MURY, P. História de Gabriel Malagrida. São Paulo: Loyola. 1992 p. XIV – XV. 24 e de suas culturas acaba sendo justificável, se não necessária. É neste contexto que a Igreja está inserida.

  1. 2 Os aspectos das relações sócio-políticas na colônia

  O projeto político e econômico da metrópole é estabelecer em seus domínios um modelo humano e proveitoso de boa colonização, de modo que tanto mais servos trabalhando de boa vontade seriam menos difíceis de controlar e mais lucrativos para os donos de aquém e além-mar. Todavia, devido aos abusos para com os índios se fez necessário, tanto na América espanhola como no Brasil, fazer leis que dessem algumas garantias a estes, livrando-os de todo tipo de maus tratos, conferindo-lhes alguns direitos. Isso, no entanto, não era fiscalizado, até porque era devido, fazendo com que a situação permanecesse sem evolução.

  Os escravos forneciam a mão de obra das fazendas de cana-de-açúcar, e adquiri-los representava grande despesa. De início, os índios cativos forneciam braços para as plantações, e na verdade continuaram a ser usados durante todo o século XVII, mas os escravos negros importados da África ganhavam cada vez mais importância como mão de obra nos engenhos. Em 1600, uma escrava negra era vendida na Bahia por cerca de 30 mil-réis e um escravo negro, por 40 mil-réis. Portanto, um engenho com 150 escravos comprometia cerca de seis contos de réis com sua força de trabalho. A união com a Espanha acabou provocando uma escassez de escravos negros na Bahia e os preços subiram. Contratadores portugueses importavam cargas de africanos para a América Espanhola, onde alcançavam ótimos preços. Com isso, o número de escravos disponíveis no Brasil caiu e, consequentemente, os preços aumentaram. A falta de negros no Brasil levou à volta do índio como trabalhador cativo e estimulou novos ataques às populações indígenas, especialmente na área de São Paulo. Os infelizes índios que caíam nas mãos

  25 dos paulistas eram vendidos a fazendeiros do Recôncavo e de Pernambuco.

  A base da economia e da política aqui no continente, evidentemente, não é a mesma da metrópole: a mão-de-obra escrava. A administração de assuntos referentes a esses e a outros 25 temas será feita na metrópole, numa tentativa como que de controle à distância. Como se verá,

SCHWARTZ, Stuart B., Burocracia e sociedade no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. as medidas serão tomadas por quem nunca aqui esteve, com as armas próprias exigidas pela lonjura: a força e a burocracia. No meio de tudo isso, a Igreja.

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  28 e o Estatuto do Índio 1. 2. 1 “Encomienda” , “Requerimiento

  Tendo formado um “grupo de trabalho”, denominado “junta de Burgos”,

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